Publicado por: algosolido | 15/04/2012

MAD MEN

Ou, “BAD MEN” – Os anos 60 com “Cara de cão” …

O sonho americano na Sterling Cooper de Mad Men

“…Tu, pessoa nefasta, tens a aura da besta, essa alma bissexta, essa cara de cão…” (1)  (Pessoa Nefasta- Gilberto Gil)

Em maio de 2011, a revista “Aventuras na História” (Ed. 94), publicou uma matéria assinada por Gisela Blanco, entitulada “Tão longe, tão perto”…acerca do sucesso da Série Mad Men, criada por Matthew Weiner (Família Soprano), lançada em 2007, acumulando prêmios consecutivos desde 2008, chegando a influenciar o modo de vestir das mulheres nova-iorquinas. De fato, o cenário é a Nova York dos anos 60 e os episódios giram em torno do personagem Donald Drapper, ( John Hamm ), diretor de criação da Agência de Publicidade Sterling Cooper, situada na Madison Avenue ( donde se origina o nome da série ). Foi uma época de transformações na sociedade, que afetaram profundamente as relações familiares, com uma forte inserção da mulher no mercado de trabalho e uma maior “liberação” no comportamento sexual.

Contudo, a família ainda era uma instituição forte e prestigiada na sociedade: mais numerosa e com forte presença e influência dos pais na educação dos filhos, pois as mudanças ainda levariam alguns anos para se consolidarem, afetando profundamente o comportamento de homens e mulheres ( principalmente elas ) causando com isso, uma transformação radical nas famílias.  No início da matéria, há um trecho em que a articulista, a partir do que viu nos primeiros capítulos, de Mad Men, pretende resumir o panorama da época:

“As mulheres tentam driblar preconceitos para ocupar postos de trabalho até então reservados só para homens. As saias são compridas, e a liberdade curta. Médicos não receitam a nova pílula anticoncepcional sem antes dar lições de moral. Estamos frente a frente com a geração que criou o ideal de felicidade americano. E então descobrimos: eles não eram nada felizes”


É bom se dar conta que quem diz que “eles não eram nada felizes“, é um observador atual, falando do passado, mas com critérios de hoje. Muitos escritores, jornalistas, e sobretudo historiadores, se esquecem desse critério tão básico de avaliar um tempo que passou, a partir da mentalidade da respectiva época, mas frequentemente, senão sempre, se fala do passado, com critérios do nosso tempo. Por isso mesmo, é uma arbitrariedade ( ou uma política ? ) afirmar que do modo como hoje vivemos, sejamos mais felizes…

Uma “boa” descrição do mal…

Nos anos 80, o cantor Gilberto Gil, numa entrevista, ouviu um comentário de uma jornalista acerca da letra da sua música “Pessoa Nefasta”, que fala das maldades de uma pessoa de uma forma tão eloquente que chegava-se a “admirar” essa pessoa. Talvez satisfeito com o elogio, o cantor respondeu que procurou nessa música, fazer “uma boa descrição do mal”.

A série Mad Men, pode – em parte – ser descrita desta maneira: como uma “boa descrição do mal”: muito cigarro, muita bebida, e muito adultério….e  por ser uma série e não um longa de episódio único, há uma verdadeira imersão na época e no ambiente que é retratado: as ações são lentas e não há discurso “politicamente correto” – não explicitamente – e tudo isso numa qualidade impecável de fotografia e interpretação. Mas há uma falha: basicamente se mostra o mal. Rejeita-se mostrar no modelo familiar da época, qualquer tipo de vantagem, embora a sinceridade de algumas cenas, possibilite algumas reflexões úteis, como no caso de um menino solitário e carente, filho de uma mãe divorciada, que o deixa em casa com a vizinha e vai atrás de interesses particulares ( é ativista política ), e principalmente no caso do protagonista Don Drapper – filho de uma prostituta - desconheceu o carinho familiar na infância, e na vida adulta não consegue ser bom pai, muito menos bom marido…

Um exemplo para comparação temos em “O Sorriso de Monalisa” (Mona Lisa Smile, 2003), estrelado por Julia Roberts: é o exemplo perfeito de um filme “politicamente correto” que já vem com discurso pronto: É só abrir a tampa e engolir. Trata-se de um roteiro ambientado nos anos 50, mas com linguagem atual: Os personagens são caricaturados: uma moça que tem no casamento e nos filhos, a prioridade de sua vida, é frustrada, invejosa e se casa com um homem que a rejeita logo após o casamento, se envolvendo com uma amante, ao passo que a personagem principal ( vivida por Julia Roberts ), é o protótipo da “bem resolvida” na terminologia atual: é solteira, “passou” da idade de se casar para os padrões da época, prioriza a vida profissional, e quando sofre, é pelo “preconceito” dos outros que sofre, porque com ela, “está tudo bem”….não tem pressa de se casar, até porque já mantém relações sexuais com os ( sim: “os” ) namorados enquanto solteira….

Sem moralismos, podemos dizer que para ela, fica fácil não ter pressa em se casar…Num didatismo escancarado, todos os personagens centrais em “O Sorriso de Monalisa”, são caricaturados para viabilizar “catequese” feminista do filme.

Tal recurso não ocorre em Mad Men. As coisas simplemente acontecem: sem discursos, os homens bebem, assediam as mulheres no trabalho, mesmo os casados e os que acabaram de voltar de uma Lua de Mel. E as mulheres choram…no trabalho e em casa…

No capítulo de estréia, uma nova funcionária tem seu primeiro dia de trabalho na agência: Peggy Olson ( Elisabeth Moss ). Peggy, se veste de maneira “recatada” e age com discrição. “Orientada” pela chefe das secretárias, Joan Holloway ( Christina Hendriks ) esta, amante de um dos chefões da Sterling Cooper, Roger Sterling ( John Slattery ), toma conhecimento de como as coisas funcionam por lá.

Vejamos a transcrição de alguns diálogos :

Diálogo 1:

Joan “aconselha” a novata Peggy:

JoanPode parecer que ( os homens ) querem uma secretária…mas na maior parte do tempo, querem algo entre uma mãe e uma garçonete. E o restante do tempo, bem…vá para casa, pegue um saco de papel com dois buracos para os olhos, coloque-o na cabeça, tire a roupa e se olhe nos espelho: avalie seus pontos fortes e suas fraquezas com honestidade
Peggy - Sempre tento ser honesta
JoanBom pra você

Diálogo 2:

Peggy vai ao Ginecologista indicado por Joan: (Peggy aguarda o médico lendo um livro dedicado às noivas em sua noite de núpcias….)

MédicoEu vejo pela sua ficha e pelo seu dedo que não é casada…
PeggyIsso mesmo…
MédicoE mesmo assim está interessada em pilulas anticoncepcionais…
PeggyBem, eu estava…
MédicoNão previsa ficar nervosa….Joan te enviou a mim, porque não estou aqui para julgá-la. Não há nada errado em uma mulher pensar na possibilidade de atividade sexual.
PeggyÉ bom saber…
MédicoMas, como médico, espero que, ao colocar uma mulher nessa situação, ela não se torne uma mulher da vida.Vou dar um aviso: se você abusar, suspendo a pílula. É para seu próprio bem. O fato é que, mesmo nestes tempos modernos, mulheres fáceis não encontram marido… ( nesta hora, Peggy vira o rosto e olha para um calendário de parede: ano 1960…)
PeggyEu entendo Dr. Emerson. Eu sou uma pessoa bem responsável
MédicoTenho certeza de que não é esse tipo de garota, mas Joan…

Diálogo 3:

Peggy assedia Don….( Peggy entra na sala de Don Draper e diz:)

PeggyEu só queria agradecê-lo por um ótimo primeiro dia ( de trabalho ) A seguir, Peggy, toca na mão de Don…
DonEm primeiro lugar Peggy, sou seu chefe e não seu namorado (afastando a mão de Peggy )
PeggyEspero que não pense que sou esse tipo de garota
DonClaro que não…

O primeiro capítulo se encerra com Don Drapper voltando para casa – onde sua esposa o aguarda e vai ver os filhos no quarto. Na noite anterior, Don dormiu fora de casa. No apartamento da amante… ( Continua na parte 2 )

Publicado por: algosolido | 15/04/2012

Uma boa descrição do mal – Parte 2

Feminismo sem Ativismo Político

Peggy : Geração Y com “cara” de Boomer

Toda a situação sugere que  Peggy é virgem, e nota-se na postura do médico – apesar de um diálogo que choca nos  dias atuais  e também na postura de Don, que ambos admiram a virgindade de Peggy e gostariam que ela permanecesse assim até casar-se. Admiram a virtude, e particularmente no caso de Don, não conseguem vivê-la. Pode-se argumentar que Don rejeita o assédio de Peggy apenas por não querer problemas no ambiente de trabalho. Essa impressão se desfaz nos episódios seguintes, quando Don “arrisca” a sua vida profissional em novas aventuras extra-conjugais.

No entanto, Peggy, ocupa em Mad Men, a mesma função que a personagem de Julia Roberts em Mona Lisa Smile, mas  em doses homeopáticas. Peggy é uma feminista sem se dar conta, como praticamente admite o criador da série em entrevista ao site Slate Magazine:

 ”…E é parte da razão pela qual eu amo as pessoas falando sobre ela ( Peggy ) como uma feminista, porque eu acho que ela não tem idéia do que ela é política e que ela iria negá-lo. Ela é apenas alguém que quer o que ela tem direito…” (2)

Peggy realmente não tem o perfil de uma ativista politica: tem “alguma” prática religiosa, não se apresenta como uma “reformadora social”, está mais preocupada com seu progresso profissional, e o faz com competência, é ligeiramente tímida e rejeita muitos assédios, mas nem sempre…Ou seja, Peggy não é propriamente um “modelo de virtude”, mas é vista como tal, assim que chega para trabalhar na Sterling Coopers, e por isso, atrai admiração. Esse perfil, faz de Peggy Olson, uma personagem de certo modo artificial ou incomum , uma vez que reúne combinações pouco compatíveis com a época, em particular uma certa religiosidade, combinada com uma pronta disposição em se adaptar a “novos padrões” de comportamento sexual. E no campo profissional, Peggy pela sua ”pressa” em crescer profissionalmente ( impressão de Roger Sterling na segunda temporada ), está mais para “Geração Y”, mas com cara de Boomer…(3)

A função de Peggy é mostrar o feminismo com uma “cara” simpática…

Na piscina de Palm Springs

Don Drapper : sua bela esposa não é feliz…

Já o que se pode notar em Don e até na “mal falada” Joan, é que ambos vivem como gostam de viver : de forma hedonista. Mas não consideram a si próprios, modelos de virtude, por isso mesmo, não são hipócritas: não fazem discurso moralista, o que faz muitos julgarem que são pessoas “autênticas”. Mas na verdade não são autênticos: são expontâneos, vivem entregues aos desejos do momento, mas se entregam com tanta frequência…..que essa expontaneidade costuma ser identificada erroneamente como “autenticidade”. Mas esse modo de viver, chega a um momento de reflexão para Don num episódio da segunda temporada, quando ele mergulha de vez na sua vida paralela de adultérios, já em crise no casamento: passa uma temporada em Palm Springs na Califórnia.

O que seria uma breve viagem de negócios, se tranforma numa “fuga” de três semanas ao se ausentar da família e do trabalho. Nessa viagem, conhece uma moça de 21 anos que o assedia de forma obstinada, e o leva para uma casa onde está hospedada parte de sua familia e uma turma de amigos: pessoas ricas e meio nômades, “ocupados” em simplesmente não fazer nada, além de ficar tomando sol na beira da piscina, bebendo, e tendo conversas fúteis em jantares exóticos, num ambiente frívolo e sem compromisso….

O ambiente choca Don. Ele não gosta do que vê, visto que está cercado de gente como ele, ou “pior” do que ele. Na casa de Palm Springs, Don não vê um só vestígio de virtude. Encontra ali, simplesmente um superlativo da sua rotina de vida. É a sua vida levada ao extremo. Numa cena emblemática, Don está sozinho na piscina, observa um casal se beijando e fica pensativo olhando para um copo, como quem se pergunta:

O que estou fazendo aqui ?

Onde fui me meter ?

Que tipo de gente é essa ?

Don caindo em si, parece pensar como o filósofo e escritor argelino Albert Camus, que recordando os jovens nas praias da capital de seu país, escreveu esses pensamentos:

“…O mar interpreta seu canto em contrabaixo. O sol, o vento leve… o azul já áspero do céu, tudo me faz pensar no verão, na dourada juventude que então enche a praia, nas longas horas passadas na areia, na brusca doçura dos crepúsculos…” (4)

“Os homens encontram aqui, durante toda a juventude, uma vida à altura de sua beleza. Depois vem o declínio e o esquecimento. Eles apostaram na carne sabendo que iam perder. Em Argel, para quem é jovem e esperto, tudo é refúgio e pretexto para o triunfo: a baía , o sol, os motivos em vermelho e branco dos terraços sobre o mar, as flores e os jardins, as moças bonitas…Mas quem perdeu a juventude não tem onde agarrar-se, para esse não existe lugar onde a melancolia possa fugir de si mesma”(5)

“Só existe uma verdade muito simples e muito clara, um pouco boba, mas difícil de descobrir e pesada para carregar… os homens morrem, e não são felizes “(6)

A comparação é inevitável: Palm Springs é a “Argel” de Don Drapper.

A “cara de cão” e a busca da felicidade.

O excesso de bebidas e cigarros e de infidelidades masculinas em Mad Men, acabam mostrando os anos 60 com uma “cara de cão”: evita-se na série, mostrar familias felizes para que possamos perceber que muitos homens e mulheres, foram felizes naquela época, mesmo com familias numerosas. Falar assim nos dias de hoje, é motivo para arrancar risos ou frases iradas de indignação – deles e delas…Mas pude colher num fórum americano que debatia o impacto da série Mad Men para as familias
americanas, um depoimento honesto de quem viveu a época:

“…Mas eu concordo que é provavelmente próximo de como era a vida para muitos de nós, e foi certamente mais animador do que em Mad Men. Sim, houve problemas. Eu acho que para as famílias negras, o início dos anos 60 não foi um tempo acolhedor e feliz, embora eu saiba que muitas famílias negras conseguiram viver uma vida feliz e saudável, apesar do tumulto e violência em torno deles. Houve outros problemas – as mulheres eram consideradas de segunda classe (não podiam ter cartões de crédito, não dirigiam, etc.) O medo de uma guerra nuclear era galopante (e ainda é!). O medo do comunismo era galopante (agora é o medo da Al-qaeda). E, claro, houve Viet Nam – Este dominava a minha infância. Mas foi, para a maior parte, um bom momento para ser uma família nos EUA, pelo menos até 1968. Então todo o mundo desmoronou.” (7)

Pode-se notar que o depoimento não traça a sociedade da época com uma visão de “anos dourados e felizes”, reconhece as mazelas e os conflitos, mas conclui que efetivamente as familias viviam um momento melhor. Juridicamente hoje, a mulher não é mais de “segunda classe”, mas continua a ser mal tratada, só que aprendeu a “dar o troco”…Pode-se ver nesta reação, uma justiça do tipo “olho por olho, dente por dente”. Ocorre que fica difícil concordar que foi uma “evolução” para a mulher “aprender” a imitar a infidelidade masculina, até por conta de uma mentalidade hedonista e individualista que hoje é dominante, a mulher se sente “amparada” a ter relações extra-conjugais, como se isso fosse um “direito” que o homem tivesse ( mas nunca teve ). Também não há como concordar que para a mulher foi uma “conquista”, reivindicar o “direito” de fazer “sexo sem amor”.

Bem, e o que aconteceu em 68 ? Foi o auge da contracultura e do “movimento hippie”.  A juventude embalada ao som do Rock, consumia drogas, pregava o sexo livre e contestava a religiosidade cristã e a família tradicional, consideradas como parte do “sistema”…É certo que havia todo um aparato ideológico, e de influência marxista, que foi tomando conta das artes, da imprensa e das universidades. O processo continuou e hoje já toma conta do meio político,  jurídico e pressiona fortemente o mundo científico.

Só que essa turma hoje, não se parece em nada com os hippies.  Deu espaço ao Yuppie ( Jovem Profissional Urbano ): gostam de roupas de grife, de sucesso profissional, são individualistas, mas acolheram a mentalidade hedonista dos jovens do final da década de 60. Ou seja: resolveram conciliar ao máximo a satisfação dos dois mundos: sexo e dinheiro.

A família se viu pressionada nesse quadro. A busca da felicidade hoje, exclui o altruísmo, a generosidade, e exalta a satisfação pessoal imediata e o individualismo. Se dentro do casamento essa busca individualista de “felicidade” se vê ameaçada, recorre-se sem titubear ao divórcio. Os filhos são adiados e reduzidos ao máximo, não por razões de ordem econômica – argumento frequente – mas para consolidar a realização pessoal – os projetos pessoais – e nesta hora, as crianças são vistas como um estorvo. As consequências sabemos: os filhos, tanto de familias mais pobres como das mais abastadas, não recebem mais a mesma atenção dos pais, mesmo sendo em menor número, resultando em queda no rendimento escolar, delinquência, ou na (de)formação de um futuro egoísta bem-sucedido, e quando o problema é reconhecido na mídia, não se fala em valorizar a família para se cuidar melhor dos jovens, e sim de apontar como solução, a promoção de “políticas publicas”, ou seja: sai a familia e entra o Estado.

Costuma-se hoje dizer que os casamentos antigamente duravam mais tempo porque eram casamentos de “fachada”, de “aparência”, e na verdade as mulheres eram infelizes. Ora, essa afirmação se tornou lugar comum, mas é preciso se ter em conta que quem afirma isso, são pessoas que não viveram a época, e se baseiam ora em ideologias e não na realidade, ora em relatos de pessoas que foram de fato, infelizes no casamento, e o mais importante de tudo: ativistas politicos costumam fazer muito barulho e acabam dominando o debate, colocando uma lente de aumento onde lhes mais convém, ainda mais quando se tem imprensa falando a mesma linguagem e lhes servindo de eco...

A verdade é que afirmar que o modelo familiar de antigamente, tornava as pessoas infelizes é uma sentença “política” e não tem valor científico.

Recentemente o filósofo Luis Felipe Pondé disse numa entrevista uma frase certeira :

“…Pena que as mulheres mais felizes não têm tempo para escrever sobre a relação delas com os homens…” (8)

Como afirmar que hoje somos mais felizes ?

Não estamos hoje na verdade, infelizes ?

Não é propriamente assim. Cada época tem seus aspectos positivos e negativos. A vida moderna oferece hoje, múltiplas possibilidades de sermos felizes, solteiros ou casados, mesmo com famílias com mais filhos e num mesmo casamento….O que não se pode afirmar, é que 50 anos atrás, as pessoas – em particular as mulheres - eram infelizes porque haviam mais filhos em casa e os solteiros não faziam sexo com a facilidade de hoje….

Não se trata portanto, de considerar a época atual como particularmente ruim, mas de reconhecer que se tivemos ganhos, também tivemos perdas, e isto está sendo difícil de reconhecer. E quando reconhecem, invariavelmente atribuem unicamente a culpa, à intolerância das pessoas, às irresponsabilidades dos governos, às crises econômicas, mas isenta-se completamente de culpa, os mentores do “politicamente correto”, que desiludidos com o marxismo no campo econômico, concentraram esforços, na mudança de comportamento, que desvalorizou o significado da vida promovendo o aborto, que promoveu a banalização do sexo, ( e queriam valorizar a mulher ! … ), que acionou a máquina juridica para expandir o divórcio. Estes “marxistas desiludidos”, ocuparam parlamentos, universidades, redações de jornais, tribunais, e programas de televisão. Acabaram por desfigurar a família e agora querem salvar o planeta, querem “direito” de matar uma criança no ventre da mãe… e se escandalizam quando uma baleia morre na praia…

O que está obscurecendo o nosso entendimento ?

Semanas atrás, o cineasta Ugo Giorgetti na sua coluna, no “O Estado de São Paulo” fez uma observação interessante, ao falar dos “chatos” no futebol brasileiro. Apesar do tema, o pensamento alcança uma profundidade tão grande que parece explicar muito mais :

“…Há uma espécie de modorra pairando sobre o País, que nos cobre a todos. Estamos felizes e satisfeitos, viajamos e compramos coisas. Esse estado de espírito talvez nos faça ser mais tolerantes com os chatos que estão por aí…” (9)

Note que o colunista aponta o consumismo – viagens e compras – como suficente para nos obscurecer e nos trazer satisfação e felicidade – ainda que uma “felicidade” meramente fisiológica…

Em 2006 na Mensagem de Natal, O Papa Bento XVI, também fez referência a esta “satisfação” :

“…Mas, tem ainda algum valor e significado um “Salvador” para o homem do terceiro milênio? Será ainda necessário um “Salvador” para o homem que alcançou a Lua e Marte, e se dispõe a conquistar o universo; para o homem que investiga indefinidamente os segredos da natureza e chega até decifrar os códigos maravilhosos do genoma humano? Necessita de um Salvador o homem que inventou a comunicação interativa, que navega no oceano virtual da Internet e, graças às mais modernas tecnologias dos meios de comunicação, já fez da Terra, esta grande casa comum, uma pequena aldeia global? Apresenta-se confiante e auto-suficiente artífice do próprio destino, fabricante entusiasta de indiscutíveis sucessos este homem do vigésimo primeiro século….

…Como não pensar que, mesmo do fundo desta humanidade satisfeita e desesperada, levanta-se um clamor aflitivo de ajuda?…”(10)

É essa “satisfação” que se sente hoje, que faz esquecer que precisamos de muito mais. Parece uma combinação incompatível: satisfação e desespero. Mas o desespero vem depois, e parecemos não saber de onde vem.

Santo André, 15 de Abril de 2012

_____________________________________________________________________________

NOTAS:

(1) A expressão “cão” na letra da música se refere ao diabo, no linguajar popular brasileiro
(2) http://www.slate.com/articles/arts/interrogation/2012/03/mad_men_creator_matthew_weiner_on_season_5_.single.html
(3) Boomer ( Baby Boom ), Geração X e Y : Baby Boomers: nascidos no Pós-guerra, entre os anos 60 e 70, Geração X : nascidos entre os anos 60 e 70; Geração Y: Os nascidos entre os anos 80 e 90 : Estes últimos, são considerados imediatistas, pois nasceram em meio à velocidade do mundo digital.
(4) Camus, A., “Minotaure” pag. 20
(5) Camus, A., “Noces”, Edit. Charlot, Argélia, pag. 54-62
(6) Camus, A., “Calígula” pag. 111
(7) http://forums.catholic.com/showthread.php?t=486256 ( Aug 20, ’10, 5:55 am )
(8) http://delas.ig.com.br/comportamento/luiz-felipe-ponde-homens-e-mulheres-nao-sao-iguais/n1597726675244.html
(9) http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,precisa-se-de-um-chato-,843710,0.htm
(10)http://www.vatican.va/holy_father/benedict_xvi/messages/urbi/documents/hf_ben-xvi_mes_20061225_urbi_po.html

Publicado por: algosolido | 08/05/2011

A Dona de Casa…

A Dona de Casa, o Bolo e o cálculo do PIB – Parte 1

Ela era feliz...e sabia...

 

No meu primeiro ano de faculdade do curso de Economia, o professor fez um comentário muito interessante sobre o cálculo Produto Interno Bruto ( PIB ) : “Quando uma dona de casa faz um bolo, ela está aumentando o PIB de um país, mas esse bolo não entra no cálculo …”  Hoje penso que se essa mesma “dona de casa” abrisse uma empresa, – uma confeitaria – e passasse a vender seus bolos, os mesmos, entrariam no cálculo do PIB.

Este pode ser um ponto de partida, com seus vários desdobramentos, para se tentar entender a mulher dos tempos de hoje.

Todos os anos quando se comemora o Dia Internacional da Mulher,  diversas publicações, repetem os infográficos de sempre:  o número de mulheres que ocupam  cargos de gerência e direção nas empresas em relação aos homens é de X %…O salários das mulheres na mesma função e qualificação é de X % menor em relação aos homens.

Mas será que esses números precisam ser igualados…?

A Psicóloga Susan Pinker, no seu livro “O Paradoxo Sexual “, trata justamente da questão do salário e emprego na “guerra dos sexos”. Ela se apóia em questões “biológicas” e não em “chavões conservadores”, e afirma que os homens ganham melhores salários porque priorizam o emprego, ao passo que as mulheres também se preocupam em ter filhos. Ela reconhece a resistência de algumas mulheres ao ouvirem falar de “diferenças biológicas”, pois foi justamente este conceito que o movimento feminista tentou apagar, afirmando que as diferenças entre homens e mulheres são “socialmente construídas”: “ Hoje estamos entendendo que os hormônios afetam o comportamento humano”, diz Pinker.

Numa visão econômica, pode-se dizer que o mercado de trabalho “precifica” o salário da mulher, na expectativa de ter que futuramente substituir uma funcionária por conta de uma gravidez, pagando um salário menor. Uma empresa agindo assim, não está sendo “machista”, e sim “capitalista”. Da mesma forma, se uma companhia de seguros, por conta do baixo risco de acidentes automotivos com mulheres, cobra um seguro de valor mais baixo para elas, não está sendo “feminista”, e sim “capitalista”.

Mesmo assim, é possível que as mulheres nas empresas, alcancem salários e posições de alto comando, no mesmo nível que os homens, mas no caso de mulheres muito jovens, na faixa dos 20 anos, pois quando se aproximam os 30 anos, com a expectativa do casamento e dos filhos, a manutenção de salários e altos cargos, pode ficar mais difícil.

Mas essa realidade nem de longe, deve ser motivo para as mulheres lamentarem a maternidade….

Passarelas e Holofotes…

O mercado de trabalho nos dias atuais em grandes empresas, e também como profissionais liberais, tem muitos atrativos, sobretudo para a mulher: como numa passarela de moda, desfilam celulares, laptops, roupas e bolsas de “griffe”… ou seja: em determinados ambientes o trabalho ficou “chique”….

Tudo isso sob a mira de muitos holofotes. Por outro lado, a “dona de casa”, que vai levar o filho a uma consulta médica, ao parar no farol, repara ao lado e vê um carro mais sofisticado que o dela, e no volante, uma mulher muito bem vestida, cabelo bem arrumado e se pergunta : quando vou estar assim?

A mulher do “carrão”, no fim de ano, pode receber um prêmio de “mulher executiva do ano” ou uma viagem paga pela empresa, um curso no exterior, e ela, a “dona de casa” – o que vai receber?

Elogios?

Se esta mulher tiver mais que 40 anos, deve ter ouvido as “Frenéticas” cantarem no final dos anos 70:

“…Elogio é mixaria…

Se me chamas de rainha…
Me desculpe mas não quero, não quero
E não vou…!

…reinar na cozinha…!

Assim, a propaganda feminista foi pondo em desuso as palavras, “esposa” e  “mãe”, por isso, tais termos, soam hoje um tanto “antiquados” para os meios de comunicação, dando lugar simplesmente à palavra “mulher”, mesmo que casada e com filhos. Ora, não há nada de errado em chamar a mulher, de “mulher”, o problema é o foco no individualismo, por exemplo, ao invés de usar a palavra “mãe”- que pressupõe compromisso, altruísmo, usar a expressão “mulher com filhos”, sugerindo que os filhos são um “anexo”. As terminologias atuais significam muita coisa. Os meios de comunicação querem fazer a “dona de casa” se sentir um “nada”…

Há uns anos atrás, assisti num telejornal na hora do almoço, uma reportagem sobre férias escolares. O noticiário mostrava que as mães estavam ansiosas pelo retorno das aulas, por causa do incômodo de acompanhar os filhos: “Eu não aguento mais!”, dizia uma mãe muito bonita e muito bem vestida, a olhar crianças correndo na área de diversões de um shopping…

Não quero aqui dizer, que o “problema” se situa na mulher. Os próprios homens estão também desinteressados pelos filhos e pensando muito mais no trabalho. Ocorre que de fato, a grande mudança de comportamento se deu do lado feminino e nos dias de hoje, a grande motivação não é a luta pelos direitos e emancipação : ela já ocorreu, não é apenas pelo sustento da família – mulheres casadas com homens que recebem altos salários, não querem ser “donas de casa”, querem ser “donas do emprego”.

A grande motivação da mulher é a satisfação pessoal, de mostrar a sua “capacidade”, de sentir-se “útil”, de ser ‘reconhecida”, de ser “vista” pela sociedade. Com tudo isso, é claro, a independência financeira.

Nada contra a emancipação feminina, a independência financeira, o sucesso profissional, mas que isso não ocorra às custas do menosprezo pelo lar e pela maternidade. A ordem passou a ser esta: Primeiro, a faculdade, depois, a pós-graduação, nesse meio tempo, um carro, um imóvel, uma MBA no exterior, e depois… Opa!…  Está na hora de ter um filho !

O filho neste caso, se converte numa “etapa” da “realização pessoal”. Ver um filho assim é muito pouco…

Repito: todas essas conquistas são legítimas para a mulher, mas o problema é ver o casamento e os filhos como obstáculo. O fascínio do mundo do trabalho é muito forte, como se percebe ao ler depoimentos de mulheres que se dedicaram por muitos anos, ao trabalho fora de casa, e chegaram ao topo da carreira. É comum admitirem que prejudicaram a família , que não viram os filhos crescerem, mas que não se arrependem, pois o trabalho lhes deu muito…

Mas nem sempre, o discurso da mulher é tão incisivo. Muitas mulheres se sentem culpadas por darem atenção excessiva ao trabalho “fora de casa”, ( pois “dentro de casa”, também é trabalho ) em detrimento dos filhos. Jamais uma conquista profissional pode compensar o distanciamento dos filhos.

 

Sem “reinar” na cozinha…

 

Estamos num tempo em que a mulher também se orgulha de não saber cozinhar. Isso “pega bem” e pega bem dizer isso aos amigos. “Pega mal” hoje para a mulher, não saber dirigir, não ter o próprio carro, ser “apenas” dona de casa, ou ter mais que dois filhos…( pode ser chamada de “irresponsável” ).

Por outro lado – paradoxo da vida moderna – uma mulher executiva, – perto dos 40 anos e sem filhos, se entusiasma com a idéia de passar numa livraria e comprar um livro de culinária sofisticada, para ela e o marido, prepararem uma “paella”, e convidarem para um jantar, um casal de amigos ( “contatos” ) também sem filhos, e do “circuito profissional”, mas cozinhar para filhos, nem pensar….

Nada contra jantares caprichados para amigos de vez em quando. O problema é relacionar o fogão e os filhos à escravidão, e fogão e amigos a “networking”…

De maneira muito apropriada a esse respeito, afirmou a consultora Vick Block:

“ O trabalho é hoje o lugar de admiração e respeito, enquanto a casa está se transformando no lugar da culpa e da dívida”

 

Publicado por: algosolido | 08/05/2011

…o Bolo e o cálculo do PIB – Parte 2

Ela era feliz... e sabia...

Reduzindo a marcha…rumo ao equilíbrio.

 

Um estudo da Center of Work-Life Policy (CWLP), no ano passado aponta que 75% das mulheres do Brasil, China e Índia, esperam alcançar altos cargos nas empresas. Essa expectativa é reflexo do momento econômico dos paises emergentes, que miram o exemplo dos EUA. As mulheres destas nações, outrora consideradas “em desenvolvimento”, estão vivendo nesta década, o que as mulheres americanas viveram nos anos 80 e 90. O que ocorre agora na América do Norte, é uma tendência de equilíbrio entre trabalho e família, por isso mesmo, o desejo, segundo a mesma pesquisa, das mulheres americanas de ocuparem cargos elevados é de apenas 36%.

Em outro estudo realizado pelos Economistas Betsey Stevenson e Justin Wolfers ( American Economic Journal – Agosto/2009 ), entitulado “The Paradox of Declining Female Happiness” ( O Paradoxo do Declínio da Felicidade Feminina ) demonstra que as mulheres com todas as conquistas obtidas em 40 anos de luta por direitos iguais, sobretudo no campo profissional, são mais infelizes hoje do que na década de 60. Esta felicidade, segundo a pesquisa, caiu tanto em termos absolutos, como em relação aos homens.

De onde vem esta infelicidade ?

Existem diferentes formas de abordagem. Muitas vezes se busca a resposta mais conveniente: a de que os homens têm medo de se relacionar com mulheres bem sucedidas, e boa parte das executivas ( as estatísticas variam ) estão solteiras e sem filhos;  as que estão casadas, os maridos não apoiam nas tarefas domésticas e elas ficam sobrecarregadas…

Em tudo isso, há alguma verdade : decerto que há maridos que pouco ou nada se envolvem nas tarefas domésticas e no cuidado dos filhos, causando uma sobrecarga injusta para a esposa. Em particular, em relação à mulher que trabalha fora, de qualquer tipo de cargo ou profissão, deve o homem se envolver e assumir tarefas da casa, e acabar de uma vez por todas, com esta história de “dupla jornada”, porque se a “jornada caseira” também contar com a participação do marido, esta expressão vai com certeza desaparecer.

Quanto às mulheres “bem sucedidas” estarem solteiras em boa parte, é muito conveniente atribuir a responsabilidade ao homem e apresentá-lo como  “inseguro” e “machista”, evitando compromisso com mulheres consideradas “poderosas”. Deve-se perguntar a uma executiva com ganhos mensais de R$30.000,00 ou R$40.000,00 , se ela está disposta a se casar com um homem que ganhe R$3.000,00 por exemplo…

É de praxe responder: “Se ela o ama, se casará”…, mas estamos numa época de “respostas que caem bem”, e as atitudes concretas são outras. Só por este exemplo, um verdadeiro exército de “candidatos” saem de cena. É claro que nesse grupo, podem haver homens “medrosos” mas, como foram “descartados” de início, qualquer julgamento será ‘político” e não “científico”.

Restam os homens da mesma posição profissional e, estes sim, é que podem ser avaliados se têm coragem ou não de se envolver com um mulheres que ocupem “altos cargos”.

Há poucos dias, assisti a uma entrevista pela TV com uma cantora de sucesso que comentou o seguinte:  “…nós mulheres assim, ( ricas e famosas ) temos que nos relacionar com “homens bem sucedidos”, porque sempre há um risco de aparecer um interesseiro…”

Essa opinião também vem do mundo acadêmico, como neste depoimento:

“ A mulher bem sucedida torna-se mais exigente nos seus relacionamentos, principalmente pelo fato de ter conquistado sua independência financeira “ ( Maria Cristina Pinto Gattai, professora do Departamento de Psicologia Social da PUC/SP ).

Por isso mesmo, vamos levar em conta somente homens e mulheres bem sucedidos – e solteiros : devemos considerar que: 1- Tais solteiros não trabalham todos nas mesmas empresas, de modo que se conheçam;  2 - Ambos priorizam o trabalho, e no caso das mulheres, muitas receiam o casamento e ainda mais os filhos, sob “risco” de “prejudicar a carreira”, e por fim é claro; 3 - Existem também os “homens medrosos” diante de uma mulher “poderosa”.

Neste caso, fica complicado para a mulher “bem sucedida”, já que o “homem-bem-sucedido-medroso”, vai preferir uma mulher que ganhe bem menos que ele, e o “homem-bem-sucedido-não-medroso”, vai procurar uma mulher “bem-sucedida” ou não, “poderosa” ou não, mas que se queira casar e ter filhos, e faz muito bem, agindo assim…

Em resumo, podemos dizer que o adiamento do casamento e dos filhos, e em alguns casos a sua renúncia, em troca de uma dedicação exclusiva ao trabalho, tem causado infelicidade à mulher.

É claro que a felicidade não é exclusiva de quem se casa e tem filhos. Homens e mulheres podem ser felizes sem o casamento, mas somente se dedicarem as suas vidas a uma causa nobre e generosa, jamais a uma satisfação individualista.

Como já foi dito anteriormente, na Europa e nos Estados Unidos, já existe um movimento mais nítido de “redução de marcha” que não significa um “retorno ao fogão”. Para o constrangimento, desgosto e protesto das feministas radicais, mulheres que se destacaram no mundo profissional, têm escrito livros, proferindo palestras, estimulando as mulheres a re-valorizarem a maternidade, sem com isso, abandonarem o trabalho fora de casa. Essa saudável iniciativa, resgata a dignidade da Dona de Casa ( agora sem aspas ), que pode se dedicar ao cuidados dos filhos e do lar, pelo tempo que for necessário, e incluir no momento que quiser, quando, e se quiser, um projeto profissional.

Alguns depoimentos dessas mulheres:

“… As mulheres são as únicas que podem ter bebês, e isso leva tempo. E quando você tem um filho, quer ficar com ele, é natural. Esse é o trabalho mais importante que existe” -  Katheleen Parker – colunista e escritora americana.

“…Se eu pudesse voltar a começar, escolheria um marido com um emprego, e ficaria em casa até ter criado cinco filhos ! “Eva Herman – Apresentadora de TV alemã, após 3 divórcios e um filho.

“…O melhor remédio contra a presunção é ir para casa e lavar o chão da cozinha, com as crianças na sala gritando porque querem comida, atenção ou que brinquemos com elas. As tarefas cotidianas da maternidade – e da paternidade – nos fazem humildes e nos lembram que somos insignificantes…” Janne Haaland Matlary – Norueguesa – Catedrática de Relações Internacionais da Universidade de Oslo – Mãe de quatro filhos…

 

Reconhecimento e visibilidade:

Numa reflexão de momento, pode ser constrangedor para uma Dona de Casa, se dar conta de que a sua “produção doméstica” é considerada invisível, pois não entra para cálculo do PIB, como também não entram, os seus serviços prestados. Cada bolo feito, cada banho dado num filho, não aparece em gráficos coloridos, em relatórios e planilhas financeiras das empresas, não figura em balanços divulgados pelos jornais de negócios. Esse é o modo de uma sociedade calculista estabelecer valores, como foi constatado pelo economista inglês, Lord Peter T. Bauer: “ …ironicamente, o nascimento de uma criança, é registrado como uma redução na renda nacional per capita, enquanto que o nascimento de um bezerro, mostra-se como uma melhoria…”

No entanto, cada criança vale mais que todos os bezerros do mundo, como cada criança que ainda está para nascer, vale mais do que ovos de tartaruga… No entanto a sociedade organizada através de suas instituições, está mais preocupada em proteger os ovos…

As “mulheres profissionais” são mais visíveis. Têm de certa forma, reconhecimento e atenções voltadas para si quanto mais sucesso obtém, mesmo aquelas que não ocupam altos cargos e salários, têm sim a sua visibilidade e um sentimento de independência que não querem perder…

Mas devo dizer que para a mulher casada e com filhos, a sua missão principal não está no trabalho, e sim no Lar, no Marido e nos Filhos…

Sabem por quê ?

Porque a missão principal de um homem casado e com filhos, também não está no trabalho, e sim no Lar, na Esposa e nos Filhos…

Pela missão particular e natural da maternidade, a mulher está mais que o homem,   vinculada ao lar, sem com isso isentar o homem de tarefas domésticas e no cuidados dos filhos…

Quero finalmente citar um trecho de um artigo de Sueli Caramello Uliano, mãe de família e presidente do conselho da ONG Família viva:

“ Até que ponto as dores da humanidade não são decorrentes da ausência de mães nos lares? Ou até que ponto os traumas da civilização pós-moderna não decorrem da manipulação da sensibilidade feminina, ultrajando-a na sua peculiar exclusiva capacidade de acolher a vida?

Com famílias apressadas, com poucos filhos ou apenas um, e os pais priorizando os  seus “projetos pessoais”, temos visto jovens cada vez piores e sem rumo, sem certezas. Forjar homens e mulheres de valor, é uma missão valiosa, requer desprendimento e altruísmo, e se pode dizer também que o homem não tem o “direito”, de se dedicar tanto ao trabalho a ponto de deixar a família para segundo plano. Ninguém pode se “orgulhar” de dizer: Não vi meus filhos crescerem ! Se aparecer uma “grande oportunidade profissional”, deve-se ter em conta que não se deve prejudicar a atenção aos  filhos, sob pena de frustração no futuro.  As realizações profissionais passam, os profissionais ficam velhos e deixarão lugar para os mais novos. A Família permanece. Isso vale para homems e mulheres.

Santo André, 08 de maio de 2011

Eduardo.

Publicado por: algosolido | 12/12/2010

Mais filhos para o mundo

O leitor já deve ter ouvido ou lido comentários de ecologistas preocupados com ameaças à natureza em função de uma – discutível – alteração climática :   que não podemos ignorar os problemas, mesmo que daqui a 50 anos possivelmente, todos desta geração não estejam mais vivos. “É preciso preocupar-se com as gerações futuras”, costumam dizer.

Tal preocupação não parece existir com a questão do envelhecimento populacional. Em Artigo da Revista Exame de 17 de novembro último ( Edição 980: “Vinte anos para ficar rico “),  fala-se com euforia do chamado “Bônus Demográfico”: comemora-se o fato de se ter uma população jovem cada vez menor, que apenas consome, contra uma população adulta, que consome e produz.

Essa relação pode significar de fato um PIB per capita cada vez maior, desde que a economia continue a crescer. – Que fique bem claro.

Ocorre que quando se iniciar a redução populacional, ( reconhecida pela própria revista ) surgirão os problemas: Uma enorme população idosa e inativa, demandando recursos da saúde e da previdência, a partir do trabalho de uma população ativa cada vez menor. Muitos desta geração estarão vivos para ver isso.

Isso significa que esse quadro (ou bolha), favorece o crescimento econômico nos próximos anos, mas -  de uma forma aguda e por tempo determinado.

Haverá crescimento em determinados setores da atividade econômica decorrente do envelhecimento da população, como a medicina, a previdência privada e em função de famílias menores, com casais adiando por anos a vinda dos filhos, teremos um incremento de atividades como o turismo, o lazer e cuidados pessoais, caracterizando um crescente culto à individualidade.

Mas um cálculo transparente, deixaria de fora os investimentos em áreas como educação, habitação e vários outros, dado que não são exclusivos do chamado “bônus demográfico”, porque o crescimento populacional ( com aumento da população jovem ) daria conta do crescimento do PIB, com vantagem e de forma duradoura, ( ou para ser moderno: de forma “sustentável” ).

Quando se têm mais filhos…

O artigo de Exame fala em crescimento dos serviços hospitalares por conta de uma população idosa?

- Mas e as mães que vão ao médico quando ficam grávidas e quando nascem os filhos ? Pensemos no crescimento da pediatria…

Lazer e recreação para adultos ?

- Crianças gostam de brincar mais…e têm mais tempo…

Pacotes de viagem para adultos sem filhos ?

- Pergunte ao gerente do hotel se ele não gostaria da mesa cheia e quartos lotados…

Móveis e decoração, materiais de construção, vestuário…com famílias maiores,  como é necessário investir ! Perguntem às famílias com 3 ou 4 filhos em fase de crescimento:   quantos pares de tênis, quantas bermudas e camisetas, materiais escolares, têm que ser comprados ano a ano….!

Em resumo: como se pode ignorar que quanto mais filhos as famílias têm,  mais se favorece o crescimento do PIB, e por consequência, da renda, do emprego e da arrecadação de impostos?

Alguém disse que crianças e adolescentes atrapalham o crescimento de um país porque apenas consomem e não produzem ?

Do contrário: uma série de atividades voltadas para famílias com filhos, perdem espaço quando as crianças nascem em número cada vez menor

A festa está “boa”…

Famílias cada vez menores, muitas viagens, casas cada vez mais confortáveis : benefícios que poderiam se obter ao longo dos anos, são adquiridos rapidamente,  à custa da renúncia aos filhos nos primeiros anos de casamento.  É a festa do “subprime“ populacional.

No momento em que a população brasileira começar a diminuir, poderemos, se confirmadas as projeções, estarmos com PIB e renda per capita a níveis europeus, mas dependendo do “consumismo” e não do “consumo”.

Já me explico :  quando as famílias têm um número de filhos o suficiente tanto para repor como para aumentar a população, precisam comprar mais alimentos, mais roupas, construir mais escolas, aumentar a casas, comprar mais móveis, mais eletrodomésticos, mais materiais escolares, mais fraldas… isso é “consumo”.

Se as famílias assimilarem de vez a cultura do “filho único”, o crescimento econômico dependerá de que as famílias tenham dois ou três veículos na garagem ( numa família de três pessoas ), façam “coleções” de bolsas e pares de sapato, muitas roupas, muitas viagens e refeições fora de casa, um computador para cada pessoa da casa…  isso é “consumismo”.

É por depender do consumismo de uma população envelhecida,  endividada e saciada de todo tipo de bens, que países como a França e Alemanha, já vêm incentivando as suas populações e terem mais filhos para voltarem a ter… consumo.

Portanto, as projeções para o crescimento do PIB por conta do envelhecimento populacional,  deveriam apresentar algumas ressalvas:

1  – Esse crescimento tem data para acabar; ( detalhe que foi reconhecido pelo artigo de Exame);

2 –  Depende do consumismo: uma crise financeira ou no consumo, coloca o país rapidamente em recessão – Vejam os Estados Unidos e principalmente a Europa de hoje: em crise e com baixíssima taxa de natalidade;

3 -  Setores importantes da economia, como o de imóveis e materiais de construção, sofrerão forte recuo, com a possível redução populacional, com efeitos negativos na geração de emprego e renda.

4 – Pode-se alcançar esse nível de riqueza com aumento populacional, de forma mais duradoura e segura;

5 - A redução populacional é de difícil reversão : a diminuição de filhos por casal, gera uma cultura individualista. Os países ricos enfrentam enorme difculdade  para voltar a aumentar a sua população.

Sim… os países ricos estão tentanto reverter a queda na natalidade.

Esse tema não se esgota por aqui. Tantos pelos seus aspectos econômicos, como pelos culturais e sociais,  o tema da demografia será retomado em outras ocasiões neste blog.

Eduardo.

Santo André, 12 de dezembro de 2010

Publicado por: algosolido | 08/12/2010

Este Blog

Caros leitores internautas,

Há tempos venho adiando o início das “atividades” deste Blog. A idéia surgiu no início deste ano, e estando numa época muito atarefada, deixei somente para agora as primeiras palavras.

A motivação

Venho percebendo ao longo dos anos, que a discussão de idéias acaba se desviando do foco ou mais ainda: acaba se perdendo na “negação da certeza”.  Abraça-se a dúvida, como que a um porto seguro e paradoxalmente, dá-se a esta postura um tratamento “dogmático”.  Noutras palavras: o questionamento veio para ficar, mas que a resposta nunca chegue. Tornou-se proibido dizer : “Isso é verdade”. Assim está na imprensa, na vida acadêmica, no parlamento, nos tribunais, nas empresas, até numa roda de amigos. Em alguns casos, ignora-se o que realmente importa em cada assunto, em outros, se conhece mas se pretende evitar. Daí,  passa-se colocar muita areia, muita terra por cima, para que não se veja o essencial de cada questionamento.

São muitas falácias, falsos dilemas, propagados com excessos de informações imprecisas, assuntos de grande relevância são esquecidos ou tratados de forma tendenciosa, enquanto outros, que fazem muito barulho, são postos em evidência, com uma lente de aumento. Isso tudo, impede que as pessoas reflitam um tema na sua profundidade. 

Sim:  a informação hoje, em muitos meios é “seletiva”: conduz a uma única forma de pensar em assuntos como: família, sociedade, comportamento, liberdade, tolerância e preconceito. Na sociedade atual, pode se acreditar no que quiser, desde que não seja com “convicção”.  A ordem é manter a “mente aberta”, senão, recebe-se um carimbo, um rótulo, visando desqualificá-lo para o debate. Tais carimbos são por exemplo : “conservador”, “retrógrado”, “fundamentalista”, ou mais popularmente: “dono da verdade….”,que frequentemente vêm associados aos nomes de religiosos, cientistas, sociólogos, filósofos, historiadores, jornalistas, que ousam fazer um discurso que destoa do “mainstream” dos meios de comunicação.

A iniciativa do Blog, surgiu a partir desta realidade, já que sempre desconfiei de certas “mentes abertas”, embora essa atitude não seja necessariamente ruim: a depender da circunstância ou da relevância do tema, manter a mente aberta pode ser – ou não –  a melhor atitude.

Cabe agora, dar uma explicação ao título que escolhi para o Blog: nas leituras que tenho feito, muito me chamou a atenção, a frase do escritor inglês Gilbert Keith Chesterton:  “Uma mente aberta é como uma boca aberta: não é um fim, mas um meio. E o fim, é a boca fechada mordendo algo sólido”.

Pois será assim, que estarei compartilhando idéias com os internautas, sempre buscando depois de verificar os aspectos acidentais de cada questão, buscar os essenciais : o que há de consistente, o que há de sólido.

No próximo Domingo, vou postar o primeiro texto com tema específico: o assunto já está definido. A partir daí, num primeiro momento, devo estabelecer uma periodicidade mensal ou quinzenal para os posts. Entre um post ou outro, é possível que eu escreva algum texto de poucas linhas, algo a nível de bate papo… algo virtual….mas… algo sólido….

Um abraço.

Eduardo.

 

Santo André, 08 de Dezembro de 2010.

Publicado por: algosolido | 07/12/2010

Este Blog

Início em 08 de Dezembro de 2010

Categorias

  • Nenhuma categoria
Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.