Publicado por: algosolido | 16 de fevereiro de 2021

Manhã sem Carnaval

“Há um momento para tudo e um tempo para todo propósito debaixo do céu, tempo de chorar e tempo de rir; tempo de gemer e tempo de bailar; tempo de calar e tempo de falar” (Ecl 3, 4 e 7b).

“  A mensagem evangélica não condena a alegria. Pelo contrário, ela pode ser – devidamente ordenada – expressão legítima do homem que encontra sua identidade profunda não apenas no trabalho, mas também do que nasce da sensibilidade, na emoção e no sadio prazer. Mais ainda, é assim que a pessoa atinge a sua dimensão espiritual, elevando-a acima do plano meramente animal, onde inexiste o sentimento e tão somente o instinto “ (1)  Dom Eugênio Sales – Cardeal Arcebispo do Rio de Janeiro

A chegada do Carnaval sempre me causou alegria. A princípio por causa dos feriados e das viagens.  Lembro de chegar em casa do trabalho na sexta-feira, para tomar banho e com a mochila pronta,  preparar um lanche rápido enquanto a TV mostrava as marginais congestionadas rumo às saídas da capital paulista. Eu olhava aquelas imagens cheio de expectativas, pois sabia que estaria logo no meio daquela confusão.

Depois – e isso demorou um pouco – comecei a perceber que também gostava de ouvir os sambas enredo. Não entendia o porquê, mas aquele som me agradava: as  melodias, o modo de cantar tão “manjado” ano após ano, nos desfiles das Escolas do Rio e de São Paulo e que pareciam repetitivos, como se fosse sempre a mesma música. Nunca ouvi explicações para essa impressão, mas estou certo que muitos percebem assim.

Esse ritmo não deveria me parecer entediante? Como fã que sou do pop rock inglês e dos mineiros do Clube da Esquina, o que eu encontrava nos sambas-enredo que me agradava tanto?

Assim “de fora”, fica difícil de entender, ainda mais por não ser músico, não ter argumentos técnicos, mas certamente fui captando à distância um pouco daquilo que só quem está dentro é capaz de perceber. No interior daquela monotonia as mensagens são diferentes e neste caso, a repetição chega a ser um mérito, pois um mesmo ritmo é capaz de abarcar diferentes inspirações a cada ano.

A vida é um pouco disso. Talvez esteja aí a beleza.

Por este motivo, principalmente, não sou daqueles que estão zombando das escolas de samba porque os desfiles de Carnaval foram cancelados neste ano. Na verdade, senti falta do som dos ensaios das baterias, ouvidos ao longe já no mês de janeiro. Aqueles compositores e músicos são realmente apaixonados pelo que fazem. Há algo verdadeiro que acontece naquelas quadras e que neste ano, deixou de acontecer. E para quem culpa unicamente o Carnaval de 2020 pela Pandemia, o vírus chinês chegaria ao Brasil de uma forma ou de outra, como chegou em todas as partes do mundo.

Como se percebe, não estou recorrendo ao discurso fácil do saudosismo dos “velhos carnavais”. É possível encontrar algo de positivo no Carnaval de hoje, mas que infelizmente, está sufocado num mar de lama arrastado por duas ondas. A primeira, uma devastadora corrupção moral que se abateu sobre toda a sociedade. A segunda, a ideológica. E esta segunda é pior que a primeira.

Meus elogios ao Carnaval cessam por aqui. Ouvir os sambas é uma coisa. Assistir desfiles é outra. Então era pelo rádio que eu acompanhava os desfiles. E apenas para ouvir os sambas-enredo. Nunca analisei as letras. Farei isso um dia se voltar a escrever sobre o tema. Espero não ter muitas decepções. Mas quanto a assistir os desfiles, recomendo fortemente que não se veja.

Isso porque o  Carnaval é um paradoxo: é como se fosse algo bom, que é melhor não fazer ou algo ruim que deveria ser feito de outro modo. Nosso imaginário percebe o Carnaval como uma festa pagã e pecaminosa e às vezes de sacrílega. E a realidade endossa o imaginário. Então, não se consegue conceber o Carnaval como sendo uma festa alegre e inocente, mas de exibicionismo, orgia e desrespeito ao corpo humano. Essa noção está arraigada em Caetano Veloso, na sua nefasta “Deus e o diabo”:

“Você tenha ou não tenha medo

Nego, nega, o Carnaval chegou

Mais cedo ou mais tarde acabo

De cabo a rabo com essa transação de pavor

O carnaval é invenção do diabo que

Deus abençoou”

Pode-se ter a certeza que de cabo a rabo, Caetano errou. Em primeiro lugar, porque o diabo não cria nada. O que ele faz, é se meter no meio da criação. E na alegria mundana, as pessoas baixam a guarda, soltam as paixões e disso, o diabo entende. Em segundo lugar, pode se dizer que Deus não abençoa aqueles desfiles e muitos bailes que acontecem.

O grande problema é que a beleza das coreografias e dos carros alegóricos é ofuscada por outra beleza que jamais deveria ser exposta publicamente e tão sem pudor. E que acaba sendo reproduzida pelos jornais e pela televisão para que todos dirijam o olhar. Por isso mesmo, é o caso de se passar longe das bancas de jornal, que são transformadas em mural pornográfico até depois  da quarta-feira.

Sabemos o efeito de uma sociedade hiperssexualizada: vida sexual precoce e fora do casamento, filhos que podem ser rejeitados, infidelidades no casamento, frustrações, divórcios e destruição de famílias. Isso não raro, degenera em drogas, alcoolismo e violência, dada a falta de controle dos instintos, deflagrada pelas comemorações do Carnaval. Tudo, porque não se soube cuidar e tratar com reverência, uma realidade particularmente forte e sagrada na vida humana: a sexualidade.

Uma cena do filme “Zarak”(2) ilustra bem: é no momento em que protagonista toma conhecimento que Salma, sua amante, trabalhava numa casa noturna como dançarina do ventre. Seu amigo mais fiel faz a revelação com estas palavras: “A beleza de uma mulher não pode ser compartilhada”.

Sabemos o tipo de reações que uma sentença assim é capaz de suscitar, mas não se pode classificar essa frase como “machista”( que já é uma expressão arbitrária ), pois a beleza é um atributo por excelência da mulher, não se negando nem concedendo “privilégios” ao homem neste sentido. Há virtudes que se esperam especialmente nas mulheres e outras especialmente nos homens, visto que são diferentes e nisto se dá o equilíbrio e a justiça.

Apesar de ainda haver muita exposição corporal, começa a surgir uma tendência paralela de falso moralismo – a segunda onda – de iniciativa do movimento feminista que se opõe a nudez feminina. Isso tal como se apresenta não é para comemorar, pois as feministas não eliminam uma coisa para pôr outra melhor no lugar, muito pelo contrário. (3)

É como se estivessem a dizer: “Se mulher nua agrada os homens, que se acabe a nudez!“

Não é este o caminho. A nudez deve ser reconhecida como falta de pudor e pecado – por mais ultrapassada que pareça essa noção – e neste contexto evitada. A masculinidade e desejo homem pela mulher não podem ser problematizados, mas educados na moral cristã, devendo-se recordar o ensinamento de  São Paulo de que o corpo humano é “Templo do Espirito Santo” (1Cor 6,18-19).  Esse é o verdadeiro e único caminho para o respeito mútuo ( e não unilateral ) entre o homem e a mulher.

A ideologia feminista, opõe o homem e a mulher, apresentando o homem como objetivamente mau e o único responsável pelo respeito. Certas campanhas carnavalescas que condenam a beleza, problematizam a masculinidade e produzem homens inseguros e confusos. Pode se ter certeza que é exatamente isso que desejam as feministas.

Aqui, abro um parêntesis a respeito pelo Carnaval de 2017 (4) em São Paulo, por ocasião dos 300 anos da aparição de Nossa Senhora de Aparecida. Pode-se dizer que é uma questão ainda em aberto, se foi algo certo ou errado, mas os diretores da “Unidos de Vila Maria”, pediram e receberam autorização para desfilarem com a Imagem da Virgem, obedecendo as exigências da Igreja:

1. Respeito à imagem de Nossa Senhora Aparecida, à fé e à religiosidade do povo católico;

2. Fidelidade aos fatos históricos;

3. Apresentação da genuína piedade mariana católica, sem sincretismos;

4. Decoro no desfile da escola, sem exposição de nudez;

5. Supervisão dos preparativos pelo Santuário de Aparecida e pela Arquidiocese de São Paulo.

Tal postura de dirigentes de escola de samba, e em todo o mundo das artes e da cultura, não é comum e precisa ser louvado, independente do acerto ou não da autorização por parte da Igreja. Haja visto uma infestação de representações de diabos nas avenidas, inclusive batendo em Jesus Cristo como ocorreu em 2019, em nome de pretensas alegorias. Depende de quem batesse ou apanhasse, as manifestações das militâncias ideológicas seria certamente feroz.

Mas, não é preciso que se coloque uma imagem religiosa entre os carros alegóricos, basta que se respeite a Moral Cristã, e a Fé do povo brasileiro, mas acredito que apesar de não ser a escola vencedora, o desfile destoou dos demais e uma prova que uma diversão minimamente decente é possível.

Outro fato digno de nota, é sobre a  Escola de Samba “Rosas de Ouro”, que tem seu nome inspirado numa condecoração instituída pelo papa Gregório em 730, em forma de buquê de Rosas de Ouro, para homenagear as virtudes de Princesas católicas. Foi exatamente o que aconteceu com a Princesa Isabel    que recebeu em 1888, do Papa Leão XIII, essa condecoração acompanhada de uma carta (5) da qual destaco um trecho:

“ À muita amada em Cristo Filha Nossa, Saúde e Benção Apostólica.

  …Para te apresentarmos porém esse testemunho, nenhuma oportunidade mais favorável podia dar-se, conforme entendemos, do que a atual. Com efeito, novo esplendor acaba de realçar ainda mais os Teus louvores por ocasião da Lei que aí foi recentemente decretada e por Tua Alteza Imperial sancionada, relativa àqueles que, achando-se nesse Império Brasileiro, sujeitos à condição servil, adquiriram em virtude da mesma lei a dignidade e os direitos de homens livres

Acho justo ressaltar estes aspectos, não pela ingenuidade de achar que voltaremos a tempos de outrora, comparados a hoje, até bem inocentes. Hoje, o Carnaval sofre a influências da ideologia. A avenida virou palco politico, lugar de defesa de governos corruptos que eram simpáticos às suas ideologias, ofuscando os tamborins de jovens que queriam apenas sambar. (6)

Com tudo isso ainda gosto do Carnaval. Também como tempo para ver bons filmes e ler bons livros. Me lembro de um amigo da Faculdade, o Arquimedes, que encontrei em São Bernardo, na Biblioteca do Rudge Ramos, saindo do balcão da “circulante” ( eram os anos 80!) com uns quatro livros na mão. “Estou levando para ler no Carnaval” Um bom programa! Pensei.

O que terá feito o Arquimedes nesse Carnaval?

Pedi o depoimento de um amigo carioca, o Ricardo Coda, que pode finalizar esta crônica com autoridade e conhecimento de causa. Seu depoimento é genuíno e nos transporta para uma Cidade a sua Festa e no que ela se transformou:

“ Quando jovem, para mim o Carnaval era sinônimo de alegria. Momento de extravasar e esquecer dos problemas do cotidiano, muitas vezes ficar 4 dias sem contato com nada do dia a dia, apenas brincar. Lembro de muitos blocos e festinhas com fantasias e adereços que faziam a alegria de todos. Com o tempo, o cenário mudou, alguns viram que poderiam ter lucro e aproveitar desta alegria e exportar esta festa.

Depois dos desfiles que eram realizados entre as Avenidas Presidente Vargas e Rio Branco, grande centro do Rio, onde eram montadas arquibancadas, o governo teve a “brilhante” ideia de cobrar por isso.

Assim nasce a “apoteose”: sinônimo do carnaval nos tempos modernos.

Lembro ainda das mulheres, não as que tinham seus corpos esculpidos e com poucas fantasias, lembro das mulheres que queriam brincar e como não tinham dinheiro, utilizavam o que tinham em casa para poder pular o carnaval e viver esta festa.

Sempre tive uma visão boa do carnaval, alegria era uma delas, que se perderam com o caminhar dos anos. Antes não tinha uma visão cristã, minha fé só veio depois que cheguei a Brasília, mas já tinha a consciência de que o Carnaval se perdeu antes disso.

Confesso que aquela época das marchinhas ainda me fazem sentir saudades, era viver momentos de brincadeiras que não tinham tanta malícia como nos dias atuais. Hoje não assisto mais o Carnaval por ter se tornado um movimento de importação de turistas e exportação de mulheres, onde  que vale é o dinheiro e a ganância “

Obrigado, Ricardo !

Quero finalizar dizendo que este Carnaval também me deixou – e principalmente – saudades dos Retiros e “Rebanhões” em que jovens se reúnem para cantar e rezar. Alguns iam a lugares afastados com seus violões, bíblias e terços na mão. Às vezes , eu passava em frente à uma escola e dava para ouvir os cânticos lá de fora. Não eram sambas, eram louvores. Fazia bem a mim e creio que fazia bem a muitos, que mesmo indo ou voltando de lugares, onde ofenderam a Cristo, se recordavam de que há outro mundo e que Deus os espera de braços abertos.

Ceilândia, Terça Feira de carnaval de 2021

Nota de Rodapé:

  • http://cardealeugeniosales.blogspot.com/2012/05/carnaval-lazer-e-retiros-espirituais.html
  • https://filmow.com/zarak-t102699/
  • Um exemplo perfeito foi a eleição de Miss Alemanha de 2020, que contou com um júri formado somente por mulheres e sem a prova de biquíni!  Ora, estamos falando de um evento laico, sem preocupações de natureza moral, portanto, não se trata de dizer que deve existir desfiles de mulheres de biquíni e homens com olhos arregalados a cobiçá-las, mas que a ausência de homens e biquínia, num evento que não tem compromisso com a moral cristã, é de causar estranheza.  E quanto á beleza, a declaração da vencedora do concurso é outro sintoma da confusão em que estamos vivendo: “Minha percepção de uma mulher bonita é a força, o caráter e a autenticidade que ela irradia” Ora, a vencedora pode ser de fato uma mulher bonita, mas não por estes atributos. Uma mulher forte, autêntica e de caráter, é uma mulher forte, autêntica e de caráter, não necessariamente bonita.  A respeito deste evento o dramaturgo Walcyr Carrasco faz uma critica de rara lucidez no mundo da cultura: https://g1.globo.com/olha-que-legal/noticia/2020/02/18/miss-alemanha-2020-e-eleita-por-juri-formado-so-por-mulheres.ghtml

“Com o argumento de lutar contra a objetificação da mulher, está se criando um novo topo de censura. Qual o problema em uma mulher ser simplesmente bonita?……Nessa toada, onde vão procurar as próximas misses? Nas olimpiadas de Matemática?” https://veja.abril.com.br/blog/walcyr-carrasco/a-beleza-e-proibida/

Publicado por: algosolido | 24 de dezembro de 2020

Todas as Noites do Mundo

Uma crônica sem neve, sem presentes e sem Papai Noel, mas profundamente natalina…

A época do Natal suscita um dilema instigante: como conciliar as comemorações do Natal diante de tanta pobreza? A questão ganha relevância porque o Natal tem um vínculo muito especial com os pobres.

Certamente o Réveillon, o Carnaval e as viagens de férias, também trazem muitos gastos mas, o Natal nos apresenta um Menino Pobre, o que é uma contradição que nos fere a consciência, isso para aqueles que ainda não a perderam.  De fato, quando Jesus nasceu, veio pobre a este mundo, num estábulo onde animais comiam. E o primeiro anúncio do seu nascimento foi para uns humildes pastores, humildes quanto à virtude, pobres perante as riquezas materiais.

Veio pobre e se anunciou primeiro aos pobres. Está clara nesta realidade um sinal da  predileção de Deus pelos pobres. Mas sendo assim, porque eles nos parecem “excluídos” do Natal?

Mas uma pergunta feita dessa forma é tendenciosa e cheia de imperfeições, não abrange a toda a complexa realidade da pobreza, dá margem a conclusões equivocadas, oportunistas, carregadas de frases de efeito e ideias prontas, que são como cartas guardadas na manga. Os pobres não estão excluídos do Natal, a menos que pensemos que o Natal esteja nas lojas de departamentos ou nas suas sucessoras do e-commerce.

Por acaso, o Natal se define como uma mesa bem servida e uma alegre troca de presentes? Não, isso não é o Natal. Por outro lado, não podemos ignorar o fato de haver muitos que não tem uma mesa para se sentar nesta Noite Santa, o que nos causa constrangimento e escândalo.

Falar da pobreza é tarefa espinhosa. Desperta manifestações oportunistas, mexe simultaneamente com sentimentos e ideias, com certeza, bem mais com os sentimentos. Poucos se interessam pelos pobres, mas os pobres interessam a muitos.

Uma abordagem realista deve enfrentar ao menos três desafios: primeiro, evitar se contaminar pelos discursos das ideologias que se arvoram como “defensoras dos pobres”, o que nada mais é que um estratagema para alavancar suas ideias. Afirmam ter a solução para a pobreza, mas não a tem. Quando seus projetos foram postos em prática a pobreza só aumentou. Confrontados com a realidade, tapam os olhos e ouvidos, ( mas não a boca ) e se negam a admitir seus erros.

O segundo desafio está na mentalidade liberal, uma espécie de paganismo laico e egoísta, que endeusa o sucesso financeiro, tratando os pobres unicamente como fracassados. Nesta perspectiva, os mais desafortunados seriam os únicos responsáveis pela sua sorte e nada mais que isso.

O terceiro desafio está no ressentimento dos próprios pobres, não sei se a maioria ou a minoria, mas é uma reação que desdenha os pensadores e suas reflexões de qualquer viés, como estivessem a dizer que “é fácil filosofar sobre a pobreza, quando se está de barriga cheia”…

Certa vez, li num jornal um relato da tentativa de um mexicano de atravessar a fronteira com os EUA. Ele tentou cruzar o Rio Grande  mas foi abordado pela polícia migratória. Estava como se diz, “apenas com a roupa do corpo”, mas carregava um saco plástico com uma troca de roupa que seria como ele disse, a “roupa da Missa”. A sua pobreza, que o levou a este gesto extremo de imigrar ilegalmente pela necessidade de buscar uma vida melhor para a sua família, – um desejo legítimo –  não o impediu de demonstrar com gestos o seu amor a Deus. Aquele pobre homem não era absolutamente tão pobre. Iria procurar trabalho se apresentando da maneira que chegasse ao país estrangeiro, mas ao entrar na Igreja, fazia questão de oferecer o seu melhor ao Senhor.

É o mesmo que já vi em famílias pobres que no fim do ano, retiravam da caixa seus simples presépios (alguns cabendo na palma da mão) e modestos enfeites natalinos, que penduravam luzes coloridas nas janelas, e durante todo o ano, cobriam a sua mesa com uma vulgar capa de plástico, mas no Natal usavam a sua melhor toalha, quase sempre bem simples, mas a melhor que tinham! Nas Igrejas que frequentavam não havia torres nem sinos, as paredes eram pintadas com o dinheiro arrecadado na quermesse, e ao fim da Missa do Galo, reuniam-se com os parentes que muitas vezes, traziam algum assado ou sobremesa para colaborar com a Ceia.

Penso que pobres assim, são como aqueles pastores que receberam o Anúncio do Nascimento de Jesus.

A descrição dessas cenas pode parecer bela, mas os homens sempre estão inclinados a querer algo materialmente melhor. A pobreza, mesmo não muito extrema, não é atraente. Mas quem nunca viveu a experiência de um grave aperto financeiro numa fase da vida, quando desempregado, aflito por conta de uma dívida, ou na urgência de despesas inesperadas? Em situações como essas, achar umas moedas no bolso para comprar um salgado na rua, quando se está com muita fome e longe de casa, é motivo de alegria!

Superada essa situação, vivendo uma situação mais confortável, é possível que se sinta uma certa nostalgia ao lembrar destes momentos difíceis. Soube de um pai de família que chorava na Noite de Natal, porque passou o ano desempregado e não via motivos para estar feliz! Um sentimento totalmente compreensível, mas será que hoje, com a sua vida melhor estabelecida não percebe que naquela noite de Natal estava muito parecido com o Menino Jesus no Presépio de Belém?

“Talvez no futuro, você seja um grande homem, mas jamais se esqueça do que está vivendo agora”, disse o sacerdote, orientando aquele jovem desempregado. E ele nunca mais se esqueceu.

A literatura com seus contos natalinos, não teria o mesmo impacto se não retratasse a pobreza. Perderia totalmente o sentido. Poderíamos imaginar de outro modo, o avarento Scrooge do “Conto de Natal” de Dickens (1) , que recebe a visita de três espíritos na véspera do Natal, com a missão de libertar aquele velho do seu apego ao dinheiro e olhar mais para a necessidade dos outros, sobretudo para o filho doente de seu próprio empregado?

E aquela dramática passagem do livro “Meu Pé de Laranja Lima” (2) , em que o personagem principal, o garoto Zezé, após uma triste ceia de Natal com a mesa praticamente vazia, mas que no dia seguinte, engraxa sapatos até anoitecer, para comprar o cigarro mais caro da “venda” e dá-lo de presente ao seu pai, que sem emprego, não teve dinheiro para lhe dar o mais simples brinquedo?

À essa altura, é preciso dizer que não se trata de modo algum de glamourizar a pobreza. A pobreza é trágica e faz sofrer, especialmente quando é vivida em família, quer falte comida, remédios, ou simplesmente brinquedos. A falta de meios para se viver dignamente, não é algo absolutamente bom, isso é preciso ser dito.

E por outro lado, é lícito ter uma boa comida na mesa, ter ou desejar ter boas roupas e uma casa decorada, ouvir em baixos decibéis uma boa música natalina na hora do jantar ( ainda há que aprecie? ), e depois, reunir a família para rezar ao redor de um belíssimo presépio, feito com materiais de boa qualidade, brinquedos embrulhados em caixas vistosas debaixo da árvore para dar aos filhos, livros para ler com eles,  tudo isso com moderação e sobriedade, é compatível com o espirito cristão, ainda que os pagãos modernos desdenhem, dizendo que é “apenas comércio” e que os devotos do socialismo digam que é apenas uma  “tradição pequeno burguesa”.

Sim, o Natal é lícito celebrar. No entanto, ocorre que vivemos nesta vida um constante paradoxo:  ficamos insatisfeitos quando experimentamos a miséria e insatisfeitos quando experimentamos a abundância. Isso é um sinal claro, que nada se ajusta perfeitamente nesta vida. Não há soluções definitivas para a jornada do homem nesta terra. Tudo é transitório.

Para vislumbrar a verdade, no meio dessa contradição, em primeiro lugar, é preciso deixar de lado a demagogia e a teatralidade comuns na cultura atual. Podemos começar, dando um recado aos pobres:

É evidente que uma reunião de amigos e familiares numa casa de favela (3) onde se gastam os poucos reais que se tem para encher uma caixa de isopor com latas de cerveja, e se assam uns espetinhos, ouvindo uma música alta volume e baixa de qualidade (4) , está tão distante do espirito cristão, quanto uma reunião numa cobertura, em que se ouve jazz em volume baixo, roupas de grife, mesa decorada por um buffet contratado, e nenhuma, nenhuma menção a Jesus nas palavras, pois as pessoas se esqueceram de Deus, e não há presépio nessa casa, isso se não houver um “presépio alternativo” tão em moda nos dias atuais, e é melhor nem citar o que contém

São dois cenários de profunda miséria espiritual. Claro que nenhuma dessas misérias nos aproxima de Deus. Se a riqueza, apesar de desejada, temos a tendência de ver com maus olhos, a pobreza por si só, não é uma virtude. É preciso ter em conta que os pobres que receberam o anúncio dos anjos na Noite de Natal, eram homens humildes tementes a Deus e esperavam a vinda do Messias.

E também é preciso dar um recado aos ricos e formuladores de soluções:

Os pobres não podem ser objeto nem de menosprezo, nem de interesses demagógicos. No Sermão da Montanha, Jesus faz severas advertências àqueles que fazem alarde de sua caridade:

“Guardai-vos de fazer vossas boas obras diante dos homens, para serdes vistos por eles. Do contrário, não tereis recompensa junto de vosso Pai que está no céu. Quando, pois, dás esmola, não toques a trombeta diante de ti, como fazem os hipócritas nas sinagogas e nas ruas, para serem louvados pelos homens. Em verdade eu vos digo: já receberam sua recompensa. Quando deres esmola, que tua mão esquerda não saiba o que fez a direi­ta. Assim, a tua esmola se fará em segredo; e teu Pai, que vê o escondido, irá recompensar-te.” (Mt 6, 1-4)

E Jesus volta a tocar no assunto, ao falar da oferta da viúva pobre:

 “ Levantando os olhos, viu Jesus os ricos que deitavam as suas ofertas no cofre do templo. Viu também uma viúva pobrezinha deitar duas pequeninas moedas, e disse: “Em verdade vos digo: esta pobre viúva pôs mais do que os outros. Pois todos aqueles lançaram nas ofertas de Deus o que lhes sobra; esta, porém, deu, da sua indigência, tudo o que lhe restava para o sustento”
(Lc 21,1-4)

É bom ter em conta de que Deus não faz cálculos. Os números para Deus, são relativos. Pode se agradar ao Senhor, ajudando muito ou ajudando pouco. Conta-se que perguntaram à Madre Teresa de Calcutá, sobre até quanto devemos dispor do nosso dinheiro em favor dos necessitados. Ela respondeu: “Até doer”.

Em março de 1979, numa Audiência Geral, o Papa João Paulo II, tratou especificamente do tema “Esmola e Justiça” e proferiu umas palavras que sintetizam bem os dilemas de diferentes correntes politicas, nas discussões sobre a pobreza:

“ Podemos não estar de acordo com quem dá a esmola, pelo modo como a dá. Podemos também não concordar com quem estende a mão pedindo esmola, se não se esforça por ganhar a vida por si mesmo. Podemos não aprovar a sociedade, o sistema social, em que haja necessidade de esmola. Todavia, o fato mesmo de prestar auxílio a quem precisa, o facto de repartir com os outros os próprios bens deve merecer respeito”

Não temos soluções para a pobreza e não é temerário dizer que ela sempre existirá. O Evangelho de São Mateus nos apresenta uma frase de Jesus que parece ser uma sentença: “Na verdade, sempre tereis os pobres convosco”. (Mt 26,11). Estaria essa Palavra de Cristo nos dizendo que a justiça nunca será plena neste mundo? Sim, com certeza.

Mas jamais será um salvo conduto para abandonar os pobres à própria sorte. No discurso sobre o Juízo Final, Cristo nos apresenta com palavras claras e fortes que devemos ver cada pobre neste mundo como o próprio Cristo :

«Porque tive fome e destes-me de comer, tive sede e destes-me de beber; era peregrino e recebestes-me; estava nu e destes-me de vestir; adoeci e visitastes-me; estive na prisão e fostes ter comigo». Então, os justos responder-lhe-ão: «Senhor, quando foi que te vimos com fome e te demos de comer, ou com sede e te demos de beber? Quando te vimos peregrino e te recolhemos, ou nu e te vestimos? E quando te vimos doente ou na prisão, e fomos visitar-te?». E o Rei dir-lhes-á em resposta: «Em verdade vos digo: Sempre que fizestes isto a um destes meus irmãos mais pequeninos, a mim mesmo o fizestes» (Mt. 25, 35-40).

Podemos e devemos lutar por melhorias na sociedade, lutar por “um mundo melhor”, mesmo sabendo que esse mundo jamais existirá, mas o que importa é que estaremos fazendo o bem. Estaremos sendo aqueles que abrem as portas para o Menino Jesus, que se compadece de todos os pobres deste mundo nesta Noite de Natal e em todas as Noites do Mundo.

” Estando eles ali, completaram-se os dias dela. E deu à luz seu filho primogênito, e, envolvendo-o em faixas, reclinou-o num presépio; porque não havia lugar para eles na hospedaria. Havia nos arredores uns pastores, que vigiavam e guardavam seu rebanho nos campos durante as vigílias da noite. Um anjo do Senhor apareceu-lhes e a glória do Senhor refulgiu ao redor deles, e tiveram grande temor. O anjo disse-lhes: “Não temais, eis que vos anuncio uma Boa-Nova que será alegria para todo o povo: hoje vos nasceu na Cidade de Davi um Salvador, que é o Cristo Senhor. Isto vos servirá de sinal: achareis um recém-nascido envolto em faixas e posto numa manjedoura”. E subitamente ao anjo se juntou uma multidão do exército celeste, que louvava a Deus e dizia: .“Glória a Deus no mais alto dos céus e na terra paz aos homens, por Ele amados” (Lc 2,6-14)


Ao olhar aquela árvore de Natal meio torta, parecia tão sem graça mas à noite, quando as luzes eram acesas, os olhos das crianças brilhavam e nenhuma imperfeição era notada. Na felicidade contida naqueles olhares inocentes, vi o Natal acontecendo.

Ceilândia, 24 de Dezembro de 2020

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Notas:

1 – A Christmas Carol – Charles Dickens – Inglaterra,1843

2 – Meu Pé de Laranja Lima – José Mauro de Vasconcelos – Brasil, 1968

3 – Sim, o nome é esse: favela. A expressão “comunidade” que visa dar uma dignidade artificial aos mais pobres,  não passa de um eufemismo criado por militantes das esquerdas.

4 – A “baixa qualidade” musical se refere às lamentáveis “criações” daquilo que pretende ser chamado de música : os chamados “funk pancadão” e estilos semelhantes, que vêm conquistado jovens de várias camadas sociais. Se lembrarmos que o samba, gênero frequentemente vinculado aos mais pobres, já produziu nomes como Nelson Cavaquinho : “ O sol há de brilhar mais uma vez / A luz há de chegar aos corações / O mal será queimada a semente / O amor será eterno novamente” ( Juizo Final ) ou ainda de Beth Carvalho: “Subi mais de 1800 colinas / Não vi nem a sombra de quem eu desejo encontrar / Ó Deus eu preciso encontrar meu amor, ôôôô / Pra matar a saudade que quer me matar”, (1800 colinas ) percebe-se que existe uma pobreza material e uma pobreza cultural. Nos dias atuais, a pobreza cultural é maior que a material.

Publicado por: algosolido | 27 de outubro de 2020

LOGO ALI À FRENTE


” De vez em quando, Deus aproxima-se de nós de uma
maneira mais imediata, e não há verdadeiro cristão que não o
 tenha experimentado. De algum modo, Deus se deixou tocar “
 
Georges Chevrot

1ª Parte

A Quarentena

Fiquem em casa! É um pedido, mas quase uma imposição. Fiquem em casa, porque estamos em guerra! Mas este, não é um termo apropriado, pois na guerra temos tiros e bombardeios e quando cessam, pode se ir à rua. Mas nesta, se não há bombardeios, também não há trégua. Então por isso, fiquem em casa…

A “guerra” é contra um vírus que os médicos tentam entender e que lhes parece um enigma. Um vírus que cria um cenário já visto em filmes e agora surge na vida real: restaurantes e shoppings fechados; campeonatos de futebol e shows musicais sendo suspensos. As empresas reunindo funcionários às pressas e tomando decisões de última hora. Negócios com anos de existência, tecnicamente falidos em questão de dias. Canais de televisão reprisando programas antigos e o jornalismo em horário estendido, tratando praticamente de um só assunto. Farmácias, supermercados e hospitais, formando a tríade da sobrevivência. As crianças não podem ir à escola e as Missas com igrejas vazias, são transmitidas pela internet. E assim, no mundo inteiro.

Há um misto de terror, indiferença, e esperança. Em que momento de história se deu algo parecido e tão devastador, sem que fosse uma guerra? É como um morrer sem morrer. É como o mundo acabar, mas continuar existindo.

Felipe é um jovem dividido entre o terror e a esperança. Para ele, a indiferença não tem cabimento. Repara em tudo o que está acontecendo e a sua vida entra em revisão.  Ele não aceita a banalidade e o conformismo, presentes no conceito de “novo normal”, que parece querer acomodar as pessoas numa nova rotina e lhes tirar a percepção de que algo muito misterioso e inédito está acontecendo e percebe que de algum modo, terá que virar a página de sua vida. O isolamento se aproxima dos 40 dias, que é quando essa começa essa estória…

– 40 dias amanhã

– “O quê”?

– Amanhã, 40 dias!

– Acabei de pôr a roupa na máquina…

– Tá bom

– A Clélia chega amanhã cedo com o Carlos, a casa fica por sua conta.

– Tem duas sacolas lavadas em cima da máquina. Se precisar sair para comprar alguma coisa, use essas sacolas! Quando voltar, tire os sapatos na garagem e…

O filho ouve atento. Gosta de saber que ficará um tempo sozinho para poder fazer a sua própria agenda. A mãe lhe restringe a liberdade, não porque fique lhe dando ordens, mas porque a todo tempo pergunta: Porquê isso? Porquê aquilo? Ele consegue explicar seus “porquês” para qualquer pessoa, menos para sua mãe. Então, prefere restringir suas iniciativas por conta própria, já que suas melhores explicações não convencerão a mãe a se interessar pelas coisas dele, ou a parar de fazer perguntas carregadas de desdém. Assim, procura forçosamente seguir a rotina dela.

Dona Hilda é prática. Não é de ficar pensando nas coisas da vida, ou se pensa, não fala. Isso que ela chama de “filosofar”, lhe parece perda de tempo. Ocupa-se de fazer as coisas, simplesmente fazer. Bem diferente de seu filho Felipe, que consegue desfiar uma tese simplesmente ao ver um entregador de IFood passar em frente à sua casa. 

Ela irá ao dia seguinte a uma chácara no interior do estado. Sua irmã mais velha a chamou. Está triste e sozinha com o marido há várias semanas. Será uma viagem curta e cheia de cuidados com tudo higienizado: roupas, garrafas d’água, chinelos e toalhas de banho, e álcool, muito álcool. Felipe, que mora sozinho, se mudou para a casa da mãe quando tudo começou…

Mas agora, será como se estivesse na sua própria casa, e poderá assistir um sem número de documentários para entender a geopolítica envolvida na crise do corona-vírus. Depurar as informações no seu cadinho, e eliminar a escória da mentira de cada um dos lados. Isolar a ciência da ideologia, montar seu banco de dados e analisar a cobertura da imprensa de todo o mundo, para ver se há alguma informação que fure a bolha de proteção à Ditadura Comunista da China, montada pelo “consórcio” dos veículos de imprensa do mundo inteiro.

Mas, e depois? Ainda há o temor com a pandemia. Ele vai morrer? Sua mãe vai morrer? Os gráficos da tragédia apontam para cima. Não há outro assunto, ou quase não há. Dona Hilda é pouco carinhosa, mas é sua mãe, e tudo o que ele tem na vida. Há toda uma história de vida que não pode ser sufocada com o barulho das discussões sobre política e economia. O que fará se ficar sozinho? Enquanto a mãe toma seu banho, ele está no sofá da sala olhando ao redor: as poucas fotos de família estão no aparador da sala, junto a um pequeno vaso, um retrato de uma Ceia de Natal, ele mesmo quando criança no colo da mãe, a formatura da Faculdade…

Construída pelo avô nos anos 50, aquela casa que na época não passava de um imóvel comum para uma família de operários, ganha hoje o status de relíquia. A sua proprietária fez aquela casa e boa parte de sua mobília, atravessar intacta por décadas. Se encontrássemos ali uma Frigidaire, uma Telefunken, ou um rádio de doze faixas com os cantos arredondados, poderia se dizer que está numa viagem no tempo.

Às 22 horas ela foi se deitar e Felipe aproveita a privacidade para mandar uma mensagem para Camila, sua melhor amiga. No sofá da sala, sem sono e com a televisão ligada nos canais de notícias, ele se lembra daquela que em várias ocasiões, quase foi sua namorada. “Desta vez, ela não vai se esquivar”.  – pensava consigo. De fato, não havia a menor chance de ele a convidar para sair.  Não seria necessário para ela dizer “não”. Protegida pela trincheira da quarentena será uma grande amiga. E nada mais. Mas isso será tudo.

– Acordada?

– Sim!

– Posso ligar?

– Pode.

– Oi, Camila!

– Oi! Está em casa?

– Não, estou na minha mãe.

– Eu também saí de casa. Meus pais estão com a minha irmã e eu, com a minha tia e da minha Avó no apartamento delas. Precisam de alguém mais jovem por perto…

– Mas, a partir de amanhã vou ficar sozinho.

– Porquê?

– Minha mãe vai para Mairiporã. Para a casa dos meus tios.

– O quê está achando disso tudo? Tem previsões?

– Não tem como prever. A cada semana vem uma notícia nova. Os especialistas estão batendo cabeça, não se entendem. Ficam calibrando os modelos de previsão, revendo tudo, porque estão perdidos. Eu prefiro esperar…

– E a Economia?

– É outro mistério. Todo dia, vejo um economista prevendo uma queda diferente. Quem vai aparecer na TV para dizer: “Não sabemos o que vai acontecer, então estamos dando chutes!” Eles estão no escuro. Tudo é aposta, tudo é tentativa.Na Gripe Espanhola ou na Segunda Guerra, a medicina era outra, a tecnologia era outra, a comunicação também era outra. E mais: as outras crises, principalmente as guerras, quando acabaram, trouxeram com uma onda de felicidade e otimismo, e essa pandemia quando acabar, o que virá depois? Eu acho que restará um grande medo. Um medo estável, permanente. Medo que o vírus volte. Essa ideia de “novo normal” incute esse receio. Querem que nos acostumemos a isso. Eu não gosto dessa frase. Parece que estamos condenados.

– Tenso – comentou Camila

– Eu não queria te ligar pra dizer coisas ruins. Queria ter uma conversa mais agradável…

– Mas, não tem como, e eu também vejo assim, mas você me deu um panorama…

– Bem pessimista…

– Mas quem tem algo uma palavra otimista nessa hora, Felipe?

 – Você…

Camila ficou em silêncio. Felipe sempre fala com ela esperando algo mais. Mas, se não conseguiu nada em outras vezes, muito menos agora.

– Posso parecer calma, mas também estou sofrendo. Não tenho essa facilidade para desabafar. Talvez você esteja certo, despejando tudo o que está sentindo, melhor do que eu, que fico guardando em silêncio. Tenho medo só de pensar como será trabalhar ou se terei emprego daqui a dois ou três meses, fico agitada toda vez que chamo um taxi para levar minha avó ao hospital, ou se quando vou ao mercado fazer compras para casa: posso estar carregando o vírus. São essas coisas. Ando com muito medo. Às vezes choro no quarto. Tenho receio que não verei mais os meus pais. Estou longe deles há mais de um mês, um tempo longo para mim!

– Você vai me estranhar…

– Porquê?

– Tenho sentido certa vontade de ser mais “religioso”. Trouxe uma Bíblia comigo…

– Que bom. Sempre é tempo, Felipe. É preciso se voltar para Deus, nessa hora. Essa crise é um recado dos céus para nós. Tenho ouvido isso demais e não tem como não pensar o mesmo. Se for se apoiar nesses “especialistas” que você fala, vamos perder a paz. Também preciso aumentar a minha fé, entregar tudo nas Mãos de Deus, você está fazendo a coisa certa…

– Mas ainda não estou fazendo.

– Então comece hoje! Antes de dormir, se acalme, desligue a televisão, saia da internet, leia um pequeno trecho do Evangelho, silencie esse barulho que tem por dentro…

– Tem razão. Depois do trabalho em casa, só vejo meus filmes, leio livros…

– Foi pra casa da sua mãe de mala e cuia, mais um monte de livros? – disse Camila em tom bem humorado, tentando fazer a conversa ficar mais leve.

– Se não faço isso eu fico louco. Preciso ter e ver as minhas coisas por perto, para me sentir em casa.

– Você não está no seu espaço…

– Já foi meu espaço um dia. Minha mãe curte as plantas dela e seus programas chatos. É um modo de viver, meio “camponês”, sabe? O trabalho da casa, a sobrevivência, alguma distração, depois vai dormir e no dia seguinte, as coisas se repetem. Mas há outras coisas acontecendo e eu quero abrir a janela e ver o mundo, e saber como tudo está, mas para ela, isso é perda de tempo…

– O seu mundo é diferente. Sua mãe viveu uma vida bem mais simples. As coisas que você gosta, não são importantes para ela…

– Eu sei que é assim…

– Vamos descansar? Já está tarde…

– Espera. Quero falar uma coisa…

– Sim…

– Amanhã vou “quebrar” a quarentena. Vou abrir o portão e passar o dia na rua.

– Pra quê? É perigoso. Estamos no auge!

– Não será. Vou tomar os meus cuidados. Também tenho minhas paranoias com esse vírus chinês, mas estou agoniado. Quero sair destas paredes e ver se encontro um bar aberto, uma banca de jornal, crianças brincando na rua, ver a vida acontecendo! Será que está tudo parado mesmo? Eu não sei. Só faço andar 300 metros e fazer compras aqui ao lado. Vai ser uma espécie de expedição.Não vejo a hora de entrar numa padaria e comer uma pizza no balcão!

– Só isso?

– Sei lá, o que der na cabeça…

– Você acabou de dizer que se sente “mais religioso” e nem fala em entrar numa Igreja e rezar?

– Pois é… – respondeu constrangido…

– Não trouxe uma Bíblia? Leve com você e faça uma leitura!

– Vou fazer isso…

– Eu, no seu lugar, ficaria em casa, mas se sair, não deixe de procurar uma Igreja para estar a sós com Deus, você está precisando! Essa sua “necessidade” de preencher seus pensamentos e sua vida com coisas, é sinal que o silêncio o incomoda, é porque não tem Deus presente na sua vida!

– Isso deve ser verdade…

– E reze por mim, por você, pela sua mãe, pelos meus pais, e tome cuidado

– Tomarei

– Vai mesmo?

– Vou sim

– Tá bom Felipe, vamos dormir… – concluiu Camila suspirando…

– Boa Noite Camila.

– Boa Noite Felipe, durma com Deus.

Não era tão tarde para Felipe. A conversa com Camila lhe pareceu muito piegas, e não acabou com a sua inquietação. Seu desejo era prolongar a conversa até chegar a um ponto interessante. Aquilo para ele, não foi nem o começo. E ela foi a de sempre: contida, breve, distante, apenas um pouco mais atenciosa.

Então, Felipe tentar relaxar de outra maneira: prepara uma xícara de cappuccino e decide ver um filme. Foi até uma caixa de papelão onde colocou seu “tesouro” que trouxe de casa e escolheu um filme de Hitchcock: “O Homem que sabia demais”. “Uma ironia nestes tempos em que ninguém sabe de nada”, pensou.

Lá fora, algumas pessoas passam rindo e falando alto. Deviam estar voltando da casa de uns amigos ou de algum bar que abriu clandestinamente. O vento forte lá fora, fazia aquele som fantasmagórico enquanto as vozes se distanciavam. Era um som que na infância, lhe parecia ser o de “almas penadas”.  Felipe adormeceu diante da TV, sem fazer oração, nem ler o Evangelho como Camila havia aconselhado…

* * *

Pela manhã, Felipe não viu sua mãe. Porque ela teria saído sem ao menos se despedir? Ansioso, saiu logo para a rua. Mas não ficou feliz e animado como imaginava. Seguiu em frente atrás de novidades, e logo, já estava em meio a um descampado. Havia muita neblina lá fora, com frio e umidade. Na ânsia de abrir o portão e ganhar “liberdade”, esqueceu seus sapatos em casa. “Como pude ter saído descalço?” – reclama em voz baixa.

O terreno repleto de pequenas poças de lama vai sujando suas meias brancas enquanto avança pelo caminho. Aquela situação estava muito desconfortável. A certa altura, encontra um par de sapatos de cadarço. Eram como coturnos de cano curto. Estavam sujos e pareciam encharcados, mas como é a única opção, os calça assim mesmo. Por dentro, estavam secos e ficaram bem.

– A Clélia chegou! – veio uma voz lá da sala…

Era um sonho. Felipe se levantou na urgência de dar um abraço em sua mãe, mas também com as imagens do sonho ainda presentes na memória, tentando achar ali um significado e sem saber se foi um sonho ruim ou um sonho bom…

– Estou indo – disse a mãe…

O filho pula da cama, e ajuda a pegar as sacolas. Acompanha a mãe até o portão. Devidamente protegidos com máscaras, seus tios fazem um aceno..

– Não quer vir com a gente? – perguntou Carlos

– Não posso, tio. Trabalho por aqui e posso ser chamado pela empresa nesse meio tempo. E essa casa é térrea. Não é bom deixá-la vazia. Boa Viagem!

Dona Hilda se apressa em entrar no carro enquanto Felipe coloca as sacolas no porta malas.

– Não vai me dar um abraço? – perguntou meio sem jeito.

A mãe também constrangida, abraçou o filho: “Vai ficar tudo bem. Se cuida” – disse ela.

Felipe ficou olhando o carro se afastar até dobrar a esquina. Entrou em casa e sentiu o cheiro de café no coador. Um silêncio perturbador e um sentimento escatológico.. Começou a se lembrar de uma música ds anos 80, que falava de um homem que pedia à sua empregada morta no chão, que se levantasse e fizesse para ele um café, após o fim do mundo.

Porque alguém iria pensar em pedir um café, depois do mundo ter acabado?  Talvez fosse alguém que como ele, desejasse prolongar a vida que vê e se pode tocar com as mãos. Alguém que quando ouvisse falar de Deus e da Vida Eterna, sentisse uma perturbação interior. Que tivesse medo de morrer.

Lembrou-se depois do que sentiu quando o país parou. Parecia fazer muito mais tempo do que o já passado. Ele voltava do trabalho na hora do almoço, no último dia em que esteve no escritório. Os funcionários foram enviados para o trabalho remoto. No rádio do carro, ouvia o ministro da Economia anunciar as ações de socorro do governo. As cifras estavam na casa dos bilhões, e foram a cada dia aumentando. O governo estava gastando um dinheiro que não existia. Um drama sem paralelo nos seus quase 30 anos de vida.

Após o café da manhã, começou a montar a sua mochila. Não havia muito o que levar e nem poderia. Precisava de uma carga leve, porque faria o trajeto de ida e volta à pé: nada de ônibus, nada de táxi. Pensava se iria apenas caminhar no bairro para retornar logo ou se iria até os confins da cidade. A segunda opção era mais interessante. Duas garrafas de água mineral, bastavam. E mais bolachas e um generoso lanche com várias fatias de pão sovado com salame e queijo. E claro: as inevitáveis máscaras e um spray de álcool, os itens mais desagradáveis…

Certamente o tempo iria esfriar, mas sua mãe lavou sua blusa na noite anterior. Foi posta no varal pela manhã, e era a única que havia trazido. Diante do imprevisto, Felipe começa a revirar o guarda roupa da mãe, a ver se encontrava algo que ficasse bem para ele: talvez algum agasalho antigo que ele tivesse deixado lá. Acabou por encontrar uma antiga blusa do seu pai. Uma bela malha de um bege bem claro estava como nova.  

Por que sua mãe a manteve guardada? Com três anos de casamento, ela o pôs para fora de casa, “devolvendo-o” para a sogra por conta da sua fraqueza com a bebida. “Essa casa é minha!” – repetiu para o filho, ao longo dos anos, enquanto procurava se justificar.

De fato, seu pai nunca se manteve constante num emprego. Ele não era um modelo de homem responsável, mas conseguiu convencer aquela jovem a casar-se com ele. Acabaram por morar numa casa dada pelo pai de Hilda. E com a promessa de se emendar e tornar-se um marido exemplar. Não foi assim que aconteceu. Por algum motivo que Felipe não sabia, o pai voltou a beber.

Seis anos depois, faleceu. Nos últimos dias, sua mãe o levou à casa da sogra, para que o pai e o filho se vissem pela última vez. Sob os olhares da mãe, pediu perdão à Deus, à esposa e ao filho. “Não precisa”, respondeu laconicamente a Dona Hilda. O menino, com 9 anos olhou assustado e não disse nada.

Ao longo dos anos, não sabia o que dizer sobre a atitude da mãe. Pessoas não podem ser julgadas, mas as suas ações, sim. E era sobre as ações da mãe que ele não sabia emitir um juízo. O que ela fez, foi certo? Por isso, com 25 anos já havia comprado o seu apartamento e morava sozinho. Ele sabia o que, não imitar do seu pai. Mas buscava descobrir o que nele havia de bom e que fosse visto no filho.

2ª Parte

Além do Portão

O que estás a olhar?

Eram pouco mais de 10 horas quando Felipe saiu de casa. As ruas estavam vazias e as folhas das árvores caídas nas calçadas quando arrastadas pelo vento, reforçavam a impressão de deserto. Mas também notou algum movimento: os carros sendo lavados nas garagens e alguns regando suas plantas. Um homem em cima do telhado ajeitando a antena da televisão. Mais adiante, o carro de um provedor de internet resolvia as dificuldades de uma família com o lazer ou o estudo das crianças. A poucos metros dali, a única “aglomeração” permitida fora dos hospitais: o estacionamento do supermercado.

Havia uma Igreja por perto. Felipe estava ansioso por cumprir logo a promessa feita à Camila, para depois fazer o que realmente desejava. Na mochila trazia um pequeno exemplar do Novo Testamento que ganhou num Encontro de Jovens. Um homem idoso atravessava a rua em direção à Igreja. Somente a porta lateral estava aberta e o estacionamento vazio. Felipe entrou logo após o homem e se portou como um observador:  não era um ambiente estranho para ele, mas com certeza, era a primeira vez que entrava numa Igreja vazia fora de horário das celebrações. Isso sim era totalmente novo.

Começou a andar pelos corredores, onde ficavam pequenos altares laterais com imagens de santos. Que fizeram para ser o que são? Qual o nome dessa mulher com hábito religioso e uma cruz entre as mãos e colada no peito?  Com que idade morreu esse santo tão jovem? Parece que não viveu nada! Bispos fazendo gesto de bênção, e uma imagem de Jesus apontando para o seu coração. Aquelas imagens remetiam à nostalgia do catolicismo eventual da sua família. Ele cumpriu as etapas. Primeira comunhão, Crisma…E depois? Não houve um depois.

Era uma segunda-feira. Aqueles bancos vazios iluminados pelos raios sol que atravessavam o colorido dos vitrais com cenas da Natividade do Senhor, formavam um cenário belíssimo. “Um convite à oração. Quem projeta Igrejas, sabe como fazer”, pensava assim, Felipe enquanto sentava-se num dos bancos olhando as pinturas do teto. Neste momento, o velho homem se aproximou…

– O que estás a olhar, amigo?

O velho usava máscara, mas se aproximou um pouco, para poder falar em voz baixa…

– Olhando qualquer coisa. É bonito aqui. Ajuda a afastar preocupações…

– E o quê te preocupa?

Isso, que faz com que eu e você usemos uma máscara.

Depois de fixar os olhos para o altar, como quem pede respostas a Deus, o homem respondeu:

– A cada dia eu acordo pedindo ao Senhor, que o dia traga notícias boas, que essa doença seja debelada, que os médicos descubram a cura, e o dia acaba com as mesmas notícias de morte, então eu vou dormir, e acordo com o mesmo sentimento de esperança, pedindo ao Senhor que  o dia seguinte seja melhor..

– E o dia seguinte também não será melhor e mais pessoas irão morrer, e nós podemos ser uma destas pessoas.

– Mas, o problema não é morrer, mas como se morre.

– Ah, eu não vou morrer como aqueles santos, ali. Vou ficar desesperado com a vida que ficou para trás.

– Como se chama?

– Felipe.

– Prazer, Felipe! Meu nome é José, mas pode me chamar de Bereco – disse, estendendo o cotovelo.

– O Senhor frequenta essa igreja?

– Sim, eu e minha esposa. Ela é cantora lírica e rege o coral da paróquia.

– Sou católico, mas faz tempo que sequer entro numa Igreja.

– E essa pandemia te fez se voltar para Deus…

– Acho que sim, mas estou vendo que não é tão fácil.

– Mas é por aí mesmo, Felipe. Olhe para Deus como um Pai que cuida de nós.

– Aí é que está: eu não tenho pai – interrompeu Felipe.  “Essa ideia de pai é meio estranha para mim”.

– O que aconteceu?

– Ele morreu quanto eu tinha nove anos. Alcoolismo. Abandonado pela minha mãe. Ela o colocou para fora de casa, quando eu tinha 3 anos. Isso é o que ela me conta. Quase nunca o via. Natal, aniversário, poucas ocasiões, até que morreu…

– Tem mágoa de sua mãe por causa disso?

– Durante muito tempo, eu achei que ela fez o certo. Tudo o que sabia era pela ótica dela. Mas hoje, penso que ela errou. Não sei se é magoa. Ela é uma pessoa um pouco fria. Eu não sou assim, mas com ela, também sou frio. Cresci prestando atenção em famílias com pais alcoólotras: poucos largam o vício, mas é assim: a esposa perde o gosto pelo marido, mas os filhos, não. Não sei direito como era o meu pai. Será que ele era apenas um cachaceiro e nada mais que isso? Minha mãe tem o costume de dizer que eu sou igual a ele, que vivo “no mundo da lua”…

– E ela se refere a esse “igual” de uma maneira negativa?

– Sim, de maneira negativa, mas antes dos 30 anos, eu já havia comprado um apartamento e passei a morar sozinho. Nunca fiquei embriagado. Então, no quê sou igual? Às vezes penso que sou igual em alguma coisa boa e isso a deixe incomodada…

– Seria possível isso?

– Sim! – respondeu com ênfase –  Talvez, uma virtude difícil de ser compreendida por ela, ou que ela ache inútil, mas eu não acharia, se tivesse conhecido meu pai.

– Mas, você tem um Pai, Felipe.

– Eu sei, o senhor está falando de Deus, mas eu não estou nesse nível. Minha inteligência até aceita, mas eu entendo como algo teórico, que não toca o meu coração…

O velho Bereco abaixa um pouco a cabeça e prossegue:

– Eu me lembro da Copa de 70, quando o Brasil foi tricampeão, impossível que não saiba disso.

– Sim, eu sei.

– Quando terminou o jogo da final, o público invadiu o campo e alguns mexicanos queriam levar peças dos uniformes dos jogadores. É famosa a cena de torcedores arrancando as meias do Tostão.

– Acho que já vi isso – emendou Felipe, ensaiando um sorriso.

– O que acha que pretendiam com isso? – perguntou Bereco.

– Queriam uma lembrança.

– Queriam mais que isso. Uma lembrança sim, mas queriam um pedaço daquele momento. Eles tinham consciência de que haviam assistido uma partida antológica, a carreira do Pelé estava quase no fim, eles queriam eternizar aquela partida, que sabiam ser irrepetível por terem a certeza de que nunca mais aconteceria um jogo como aquele, e assim foi. Não era a mesma coisa que ir a Paris e trazer uma réplica da Torre Eiffel.

– É uma linda maneira de descrever aquele acontecimento!

– Há uma beleza muito maior, Felipe. Infinitamente maior.

Felipe retoma o ar sério e sente uma certa apreensão. Estava claro que Bereco voltaria a falar de Deus.

– Houve um tempo no Japão em que a Igreja sofreu uma forte perseguição e foram crucificados vários padres e coroinhas…

– Isso aconteceu? Crucificação? Quando? – interrompe surpreso, Felipe.

– Aconteceu. Foi no século XVI, na cidade de Nagasaki. Vinte e seis ao todo. Os católicos passaram a ser mal vistos e quiseram eliminá-los. O contexto histórico, quem sabe um dia eu te explico, mas o que quero ressaltar é que os martirizados cantavam na cruz e recitavam salmos, na certeza de que estavam indo para o Céu. Depois que morreram, o povo que estava lá testemunhando tudo, correu para aquelas cruzes e arrancaram pedaços das roupas daqueles homens e jovens que haviam entregue a vida pelo Evangelho do Senhor.

– Entendi o paralelo. O que são as meias de Tostão, diante de pedaços de roupas de pessoas que haviam comprado um bilhete de passagem para o Céu?

– E sem escalas – respondeu Bereco – você concluiu muito bem!

– Se a gente tivesse um pedaço de Deus…

– A gente tem, Felipe. Não um pedaço, mas Ele todo!

– Tem? Onde?

Bereco prosseguiu:

– Quando duas pessoas ficam longe uma da outra, costumam enviar algo como lembrança, uma foto com dedicatória, um cartão de Natal… Hoje isso tudo se perdeu, os celulares tomaram conta, mas continua a ter um certo encanto, o poder tocar. Eu tenho um filho morando na Alemanha, e não tem uma semana que ele não ligue para mim e para a mãe, e eu o vejo pelo celular com casaco de frio, a esposa e meu neto no colo, e a neve ao fundo. Eu tenho fascínio pela neve! Mas mesmo assim, eu faço questão de receber um Cartão de Natal pelo correio, para poder tocar algo que veio das mãos dele, e aproveitar para guardar também os selos com todo cuidado. Eu sou colecionador de selos!

– Que legal! Isso ainda existe?

– Para velhinhos do século XX, sim! Mas, o que eu queria dizer Felipe, é que Deus pode o que não podemos. Se a distância for a morte, pode-se deixar um objeto como lembrança, um relógio que foi do pai, uma corrente que foi da mãe, mas ainda assim, será uma coisa, um objeto, mas Deus… Deus deixou Ele mesmo! Está lá no altar ! Podemos conversar com Ele! Podemos tocar em Deus! Agora, não se trata das meias de um jogador, nem mesmo – algo que é muito superior  – pedaços de roupas de pessoas que morreram como santos, mas do próprio Deus!

Felipe ouve em silêncio. Já não consegue responder. Bereco o aproximou mais de Deus do que ele imaginava, ou mais do que ele estava disposto. Àquela altura, aquele velho homem entendeu que bastava. De agora, em diante seria entre o jovem e Deus.

– Deixa me dizer mais uma coisa, Felipe: Há aqui, uma capela lateral, com uma pequena luz acesa, Vá até lá antes de sair. Aquela luz indica a presença do Senhor. É ali que Ele está. Escondido no pão, mas realmente presente. O Deus que você pode tocar.

Felipe olha em direção à capela, enquanto Bereco se despede:

Filho, preciso ir. Foi bom te conhecer. Espero que possamos nos ver de novo. Se eu demorar aqui, minhas filhas irão me buscar, e eu vou levar um puxão de orelha da minha esposa.

– Também gostei de te conhecer, “seu” Bereco. Obrigado pelos ensinamentos.

– Se me permite mais uma coisa – emendou Bereco – se existe alguma mágoa, perdoe a sua mãe. Não sei se o que ela fez foi o melhor, mas foi o que ela achou o certo naquele momento, e você só tem a lucrar se perdoar sua mãe. Sempre devemos perdoar nossos pais.

– Tá certo, mas antes, gostaria de perguntar uma coisa…

– Diga.

– O que acha disso tudo? Desse “fechamento”, quarentena, o que seja? Mas, independente de política, ciência, economia, mas de um ponto de vista, digamos…religioso.

Bereco franziu a testa olhando para o nada. Não estava preparado para responder essa pergunta aos olhos da Fé.

– Se é para salvar vidas e acredito que todos querem, tanto os que são contra, quanto os que são a favor da quarentena, então está bem que haja este fechamento desde que tenhamos um horizonte. É uma questão em aberto, não sei o que dizer à luz da Fé mas pense numa coisa – é minha opinião – se esta pandemia se mostrar permanente e realmente perigosa como parece, o que faremos se atravessarmos 2021 do mesmo jeito? Digo porque é certo que este ano, ela não será vencida. O que faremos? Talvez seja o caso de corrermos o risco sem descuidar, sem “tentar a Deus”, mas retomando a vida normal, o normal de sempre não esse “novo” que se fala na imprensa. Se essa pandemia veio para tirar um milhão de vidas e nada pode ser feito a respeito, cedo ou tarde isso acontecerá.

– Alguns querem que aconteça agora.

– Depende do que há no coração deles, alguns podem estar sendo corajosos e outros, apenas egoístas. As duas situações são possíveis. Bem….eu vou deixar você à vontade para continuar a sua oração. Até!

– Até!

Felipe ficou dentro daquela Igreja, mais tempo do que pretendia. Essa última parte da conversa o agradou: ele queria tirar o foco da sua vida interior, mas temia não conseguir fugir de Deus por muito tempo. Ficar sozinho novamente, lhe trouxe alívio, mas também uma certa culpa. Ele tinha consciência de que no seu íntimo, havia feito pouco caso dos conselhos que recebeu. Retirou então, rapidamente o Evangelho da sua mochila. Quanto antes fizesse aquela leitura estaria “livre” para sair para a rua. Era o que queria fazer.

Foi folheando até que escolheu essa passagem do Evangelho de São Marcos:

“Seis dias depois, Jesus tomou consigo a Pedro, Tiago e João, e conduziu-os a sós a um alto monte. E transfigurou-se diante deles. Suas vestes tornaram-se resplandecentes e de uma brancura tal, que nenhum lavadeiro sobre a terra as pode fazer assim tão brancas. Apareceram-lhes Elias e Moisés, e falavam com Jesus. Pedro tomou a palavra: “Mestre, é bom para nós estarmos aqui; faremos três tendas: uma para ti, outra para Moisés e outra para Elias”. Com efeito, não sabia o que falava, porque estavam sobremaneira atemorizados. Formou-se então uma nuvem que os encobriu com a sua sombra; e da nuvem veio uma voz: “Este é o meu Filho muito amado; ouvi-o”. E olhando eles logo em derredor, já não viram ninguém, senão só a Jesus com eles. Ao descerem do monte, proibiu-lhes Jesus que contassem a quem quer que fosse o que tinham visto, até que o Filho do Homem houvesse ressurgido dos mortos.”

Felipe conhecia essa passagem. Lembrava que essa visão dos apóstolos havia ocorrido num lugar chamado Tabor. Era a sua “reserva espiritual” da breve formação que teve entre retiros e encontros.. A frase dita por Pedro: “Mestre, é bom estarmos aqui!” certamente seria dita por ele, se estive ali presente. Tudo o que queria para si era um “Tabor”: um sentimento tão bom que pediria a Deus, para que deixasse tudo como está, sem que nada mudasse, que se eternizasse aquele momento…

Fechou o livro. Antes de sair, foi à capela como pediu Bereco. Uma pequena luz vermelha estava acesa no altar. Deus estava ali. Ele acreditava. Só não sabia o que fazer a respeito. E foi embora.

O Mendigo

Assim que saiu da Igreja, colocou a mochila nas costas. Nada de orações ou palavras de esperança. A realidade, boa ou ruim, estaria agora se apresentando diante dos seus olhos. Ainda era outono e as folhas caindo no chão apesar de trazer um espetáculo visual também faziam pensar na morte. Quem quer ser uma folha caída?

Enquanto estava distraído com esses pensamentos, percebe alguém correndo em sua direção. Era um mendigo:…

– Eles estão te controlando! Gritava o homem vindo em sua direção. Felipe deu uns passos para trás, um pouco assustado…

– Tá com medo do corona, né? Foram eles!

– Eles quem?

Felipe queria saber o que aquele homem tinha a dizer. Quem sabe? Quem sabe de onde menos se espera, venha alguma palavra que seja alentadora ainda que fosse pelo seus rasteiros critérios humanos? Ele não desprezava a fé, e até sentia uma certa “inveja” daqueles que realmente a viviam e por isso, experimentavam a paz naqueles dias difíceis, mas não era o caso dele. A sua busca ainda continuava. De algum modo, necessitava aprender a lidar com tudo aquilo. O otimismo artificial do “vai passar” era irritante: dava a impressão de que a imprensa de certo modo, estava até gostando disso tudo, porque se sentia associada aos cientistas, como porta-vozes de um mundo novo. Isso lhe parecia terrível.

– Eles quem? – insistiu Felipe.

– Os chineses.

– Aí, sim! Nisso estamos de acordo.

– Tá vendo? Eu “tô” falando! Eles criaram o vírus num laboratório secreto!

– Vamos esperar a vacina, então…

– Eu não quero essa vacina! É a segunda parte do plano!

– Que plano?

– Ela vem com chip

– Acredita nisso?

– É verdade! O chip vai ser uma forma de controlar a gente e instalar o comunismo!

– Ah, essa é a segunda parte…

– Claro, não deixe o jornal enganar você!

– Explica melhor, meu amigo, está ficando interessante.

– É pra deixar a gente casa, então o governo assume o controle, sabe por quê?

– Por quê?

– Os comunistas querem um povo obediente. Ficar em casa e usar máscara é obediência!

– Isso até faz sentido, mas e o chip na vacina?

– É para espionar quem conspira contra o estado comunista, acabar com a nossa liberdade!

– Estou vendo que andou se informando bem. – prosseguiu Felipe

– Eu tenho uma biblioteca…

De fato, havia uns livros empilhados no carrinho em que ele carregava, suas “tralhas”, mas aquela versão dos fatos só se achava na internet. E era tratada como noticia mentirosa. Como teria chegado a ele? Certamente pessoas se aproximavam e ele puxava uma conversa…

– Qual o seu nome?

– Aristeu! Filho de Apolo, foi um profeta e protetor dos caçadores…

– Disso eu não sabia ! O senhor deve gostar de Mitologia Grega…

– Eu leio muito! E o seu nome, amigo?

– Felipe.

– Também é de origem grega! Quer dizer: “Aquele que ama cavalos!”. É um nome importante, vários reis se chamaram Felipe, até no Brasil, o Príncipe Luiz Phillipe, descendente de D.Pedro I, também tem Apóstolo de Jesus, e São Felipe Neri, o santo do bom humor e da alegria!

– Espetacular! Disso eu não sabia ! Eu também me interesso por essas coisas teóricas que todo mundo acha inúteis!

– Tá errado, não é inútil não! Chesterton dizia que quanto pior estão as coisas, mais necessários são os homens teóricos, e de preferência os mais distraídos! São eles que enxergam a origem do problema!

– O Senhor está me lavando a alma! É a primeira vez na vida que ouço alguém dizer que as coisas que gosto não são inúteis!

– Pena que veio de alguém que nem tem sapatos nos pés! – emendou Aristeu num sorriso aberto…

Felipe olhou para os pés encardidos de Aristeu. Como contrastavam com tanta cultura! Todo aquele conhecimento não lhe dava meios para ter um lugar para morar, roupas limpas e sapatos nos pés? Ou Aristeu, seria um homem como seu pai, tão cheio de fraquezas, que impediam que fossem vistas ou anulassem as suas forças?

– E o senhor está aqui sozinho? Onde está a sua família?

– Meus irmãos me expulsaram de casa para não dividir a herança…

– Herança?

– Minha família tem terras Bahia. Terras a perder de vista, mas não deixaram nada pra mim.

– E veio pra São Paulo por isso?

– Sim. Para procurar um advogado

– Espero que consiga resolver isso…

– Vou conseguir sim! Tenho muita gente importante para me ajudar. Eu sou primo do Papa João Paulo II…

Felipe sentiu pena. Aquele cérebro privilegiado também tinha seus danos. Mas, há muita gente, cuja razão parece estar em ordem, que diz coisas muito mais insanas, talvez, não por ignorância, mas por cinismo ou cegueira ideológica.

Quando Felipe, fez menção de prosseguir seu caminho, Aristeu procurou retê-lo um pouco mais…

– O Senhor tem uma ajudinha pra me dar? Estou com o estômago vazio desde cedo….

Nesse momento, bateu um certo “arrependimento” em Felipe: “Porque fui dar atenção a ele?”. Sempre havia alguém a lhe mudar os planos! Que faria? Entregaria as bolachas? Quando sua mãe decidiu ir para a casa da irmã, lhe veio aquela sensação de alívio: “agora, é comigo!”, mas a Camila lhe pede para rezar, o Bereco o segura dentro da Igreja, e agora, um morador de rua lhe toma a comida. Quando é que executará seus planos sem interferências? Voltaria pra casa e faria outro, ou segue em frente? Ou quem sabe encontra uma padaria aberta?

“Lá se vai meu almoço”, lamentou interiormente enquanto oferecia seu sanduíche de pão sovado, queijo e salame italiano ao pobre Aristeu. Eram várias fatias, mas Felipe entregou tudo. E mais uma garrafinha d’água para aquele pobre homem não engolir a seco.

Ao receber, Aristeu o surpreende e beija a mão de Felipe em agradecimento. Aquele mendigo falante e orgulhoso dos seus conhecimentos estava ali agora, expondo a sua miséria, naquele gesto de genuína humildade. Não houve tempo para reagir. Foi verdadeiro e comovedor. Felipe começou a reparar nas roupas encardidas daquele homem, nos seus pés descalços e suas mãos sujas.  Tanta coisa lhe faltava! E ficou envergonhado dos seus sentimentos. Os seus problemas eram pequenos, pequenos demais, diante de um homem repleto de livros que achou nas ruas, mas de pés descalços e sem nada para comer…

– Deus lhe pague!

– Tá bom! Fica com Deus!

Com a outra garrafa e um pacote de bolachas na mochila, ainda sustentado pelo café da manhã, Felipe se afastou e dobrou a esquina. Ele tinha certeza – não sabia como – de que se houvesse uma só pessoa na cidade sem o vírus, essa pessoa seria o Aristeu. E não quis limpar as mãos. Não naquela hora…

Os Garotos

Seguiu adiante o seu caminho contemplando a rua vazia. Era estranho e belo de se olhar. O medo realmente reteve as pessoas em casa. Poucos carros passavam nas ruas e como não era dia de coleta de lixo, as calçadas estavam bem transitáveis. Observava as portas e as janelas das residências e tentava imaginar o que se passou com cada família: aqui nesta casa, será que alguém perdeu o emprego? E nesta outra? Tem alguém doente? Quantos filhos estão longe dos seus pais? Quantos idosos esperam o dia em que poderão abraçar seus netos? E naquele hospital lá adiante, quantos morrerão até o fim do dia?

Pensava nestas coisas quando viu uns garotos a jogar bola num campo de várzea. Pareciam estar disputando um “campeonato de cobranças de falta”. Eram 5 garotos, de idades bem próximas. Uma mulher os observava sentada num banco de cimento numa pequena praça em frente. Parecia ser a mãe de um deles. Era um espaço improvisado, feito pelos moradores, que aproveitaram o terreno baldio. As traves não tinham medidas oficiais, nem o pequeno campo, que em tamanho, se aproximava de uma quadra de futebol de salão.

Os meninos se preparavam para mais uma “cobrança de falta” e formavam uma barreira. A cena renderia uma boa crônica sobre crianças que estão alheias a esse mundo perturbado pela pandemia, porque eles, ao que parece, além de não serem as vitimas “preferenciais” do coronavírus, sobretudo, queriam brincar.

Felipe parou para olhar e tirar umas fotos com seu celular, mas antes, faz aos garotos um gesto como quem pede um consentimento. A mulher de longe, só olhava. Os meninos permitiram. Sentado em outro banco, os observou a brincar por quase meia hora. Eles chutavam, faziam gols e olhavam para Felipe. O goleiro se esforçou em defesas que pretendiam ser uma “ponte”, e Felipe gostou de registrar aquela alegria.

Depois, dois meninos se afastaram e foram em sua direção, enquanto os outros continuavam brincando. Um deles era o mais velho do grupo e estava curioso:

– Você é repórter?

– Não. Só gosto de tirar boas fotos.

– Mas você faz o quê?

– Eu trabalho num escritório. Faço cálculos…

– Então você não ficou em casa?

– Fiquei sim. Só aí hoje para andar um pouco…

– Mas você não tem medo do corona?

– Claro que tenho. Por isso estou de máscara!

– Minha mãe é professora. Está dando aulas pela internet…

– E o que ela acha desse vírus?

– Ela vive dizendo que é a oportunidade de um mundo melhor

– Melhor por causa do vírus?

– Mais ou menos. É que não sei explicar.

Acho que sei do que ela está falando…

– O pai dele é fascista! – continuou o menino – Sai todo dia para trabalhar – disse apontando para o mais novo…

– Não diga uma coisa dessas! Você não tem a menor ideia do que significa isso! – Advertiu Felipe

– Minha mãe disse que os fascistas não acreditam no vírus!

– Agora, tenho certeza que sei do que a sua mãe está falando – respondeu Felipe…

– Você sabe?

– Garoto, todos acreditam no vírus, mas cada um age de um jeito. Não chame o pai do seu amigo de fascista.

– Ele não reclama…

– Mas, pode deixar de ser seu amigo! Temos que respeitar os nossos pais e os pais de nossos amigos. Deixem os adultos brigarem. Vocês só devem brincar…

– E seu pai? Perguntou o pequeno, interrompendo o silêncio…

– Meu pai já morreu…

Ao ouvir isso, o menino mais novo, correu em direção à mãe dizendo “O pai dele morreu”

A mulher se aproximou com olhos arregalados…

– Foi o Covid? – perguntou curiosa.

– Não. Foi outra coisa. E faz tempo.

– Ah, desculpa. É que quando a gente ouve falar de morte…

– Eu sei. O caso do meu pai foi a bebida

– O meu marido também bebia…

– Mas ele morreu?

– Não, ele está bem agora…

– Meu pai nunca parou…

– O meu marido conseguiu parar. Eu ajudei muito!

– Você foi forte, então…

– Não, eu não fui forte. A força vem de Deus! Ele não desiste da gente!

– Que pensamento bom….

– Moço, dá licença. Está na hora dos meninos entrarem…

A mulher se afastou e chamou seus dois garotos. Um deles ainda estava brincando com os amigos. Felipe ficou a pensar sobre como as coisas poderiam ser diferentes. Mas já estava com fome. Abriu sua mochila e começou a comer suas bolachas. Com o pacote na mão, seguiu seu caminho. A morte, a vida, Deus, a fé, e o amor…, tudo isso que ouviu de Camila, do Bereco e daquela mãe, era importante, ele acolhia com gosto, mas ao mesmo tempo, lhes pareciam preocupações adiáveis, talvez para quando ficasse mais velho…

A realidade presente, visível, com seus números, com sua materialidade, era a única coisa que o movia. O mundo lhe era fascinante, os seus sons, suas imagens, com a sua passagem do tempo, mas talvez,  se pudesse ver uma imagem do Céu, não do céu azul com suas nuvens, mas do Céu onde mora Deus, com seus Santos, com Nossa Senhora, não seria mais fácil?

Mas, agora o mundo era ameaçado por uma pandemia. E era possível que ele viesse a morrer. Isso levava a pensar em Deus. O problema era que se via de “calças curtas”. Não se sentia preparado.

Na Lanchonete do Duarte

Já passava das 3 horas da tarde, quando a fome bateu forte. No próximo quarteirão, avistou uma lanchonete com uma das portas de aço meio aberta. Era conhecida, a “Lanchonete do Duarte”. O dono não era propriamente um amigo, mas o conhecia do tempo em que morava no bairro e eventualmente passava por lá. Avistou entrando, um rapaz de máscara que parecia ser um funcionário. Felipe se aproximou…

– Estão atendendo?

– “Mais tarde” – disse um jovem – Lá pelas 18:30hs começam a fazer pedidos, e os motoboys fazem as entregas…

– Meu…Estou morrendo de fome…

Nesse  meio tempo, apareceu o Duarte que ouvia a conversa…

– Oh, rapaz! Tudo bom? Está sozinho?

– Sozinho, e com um buraco no estômago…

O dono saiu para a calçada e olhou ao redor, para ter certeza que não estavam sendo vistos.

– Entra que eu te atendo, mas por aqui não. Entra pela porta lateral…

Duarte abriu a porta. Alguns comerciantes haviam sido multados por permitirem que pessoas entrassem, e a porta lateral que dava acesso a casa no andar de cima, também tinha uma passagem para a lanchonete. Felipe agradeceu e pediu para ir ao banheiro. Observou que a lanchonete passou por uma boa reforma…

– Não sei dizer não a um freguês. Como é mesmo, o seu nome?

– Felipe. Posso pedir uma pizza? Aqui no balcão mesmo?

– Pode, mas espera o pessoal montar, ainda está cedo. Já que é só pra você, tenho que montar um tamanho menor. A menos que aguente os oito pedaços….

– Não, faz  seguinte: prepara uma menor, meia portuguesa e meia margherita. E sem catupiry na borda!

– Não gosta?

– É brega!

– Brega? Existe isso pra comida?

– Existe. Apenas para mim, mas existe ! Catupiry não tem nada a ver. Parece invenção de adolescente…

– Tá bom… responde sorrindo – “Vem aqui. Vem ver a cozinha”

Duarte – orgulhoso – levou Felipe para ver a cozinha. Explicou que precisou vender seu melhor carro para bancar a reforma. Não quis pensar em empréstimo e nem se o retorno compensaria. O imóvel era próprio, não pagava aluguel. Valia a pena apostar. A cozinha ganhou uma janela panorâmica para que o seu pessoal fosse visto trabalhando e também uma certa sofisticação, deixando à vista também as panelas penduradas em ganchos. A cores dominantes eram branco e creme, que ficavam muito bem com a madeira nova das mesas e cadeiras, que substituíram as de plástico.  Somente a pedra do balcão, com belas luminárias pendentes, contrastava com o claro. Não se tratava mais de uma simples lanchonete, mas de um pequeno restaurante ou um bar sofisticado. Os funcionários ganharam uniformes e usavam a indispensável máscara. No salão, uma fileira de mesas foi retirada, para que as pessoas circulassem mais livremente. Teve que trocar o piso por outro que facilitasse a lavagem. Os banheiros ganharam acionamento fotoelétrico na torneira e saboneteira, aliviando a tensão do uso das mãos…

– Mas, isso ficou espetacular! – disse Felipe

– Obrigado. Eu pensei assim: se o ambiente é limpo, espaçoso, se tudo em volta tem qualidade, os fregueses devem acreditar que é seguro. Quero estar preparado quando tudo voltar…

– Você contratou arquiteto ou decorador? Tudo aqui é de muito bom gosto!

– Não, isso ia ficar muito mais caro. Eu e minha esposa compramos revistas de decoração, consultamos sites, e as ideias foram surgindo…

– Tem tudo para dar certo…

– Nunca imaginei passar por algo assim

– Quem poderia? – respondeu Felipe, retornando ao balcão.

– Aqui neste bairro, três comércios fecharam em definitivo. Uma papelaria e dois bares.

– Essas reduções de salário e adiamento dos impostos, não ajudam muito…

– Muito pouco. Depois vai ter que pagar, não é?

– Eu até agora, não tive prejuízo. Estou recebendo meus salários

– Você trabalha no quê?

– Numa consultoria financeira. Tenho executado minhas rotinas em casa…

– Assim fica fácil, né?

– Enquanto os clientes pagam. Não tenho como colocar uma janela panorâmica para ganhar a confiança dos clientes. São outros desafios

– Alguém deu calote?

– Sei que alguns pediram redução nos honorários…

– Eu pedi redução para o meu contador…

– É onde todos têm algum poder de barganha. – respondeu Felipe…

Depois de uns minutos, chegam as pizzas. Sem borda de catupiry, como pediu. Foram rapidamente colocadas na estufa. Poderiam ir direto para o balcão, já que seria para o único cliente, mas o protocolo era seguido como se estivessem abertos ao público. Era uma sensação de alegria e de retorno à normalidade. Como fazia falta, sair de casa tranquilamente, entrar em qualquer lugar e pedir um café, experimentar um sapato, ou vasculhar livros numa livraria!

Felipe tirou a máscara. Mais um símbolo desta pandemia era deixado de lado, ao menos por uns minutos. Foi agradável ouvir o som das xícaras de porcelana sendo colocadas nos pires depois de lavadas e enfileiradas com cuidado pelo balconista. Era mais uma rotina de um dia normal que ele voltava a ver.

Em seguida o balconista – sob o olhar atento do dono – lavou as mãos na sua presença e também o prato e as talheres com água quente, num procedimento quer seria lento demais se o restaurante estivesse lotado. Fez o mesmo com o copo e a lata de cerveja. Era um retorno em “grande estilo”…

– E esse covid, acha que acaba logo?

– Eu não chamo de “Covid”, eu chamo de “Síndrome da China”…- responde Felipe

– Orra…boa definição…

– Na verdade, a “Síndrome da China” é uma hipótese sobre o que aconteceria se um acidente em usina nuclear nos Estados Unidos, derretesse o reator, que ficaria muito quente, fazendo o material atravessar o centro da terra até chegar à China…

– Isso já aconteceu alguma vez?

– Não, isso é teoria. Não tem como atravessar quilômetros de rocha maciça até chegar do outro lado.

– Você estuda essas coisas?

– Não. É que tem um filme sobre isso. Ai eu fico curioso e procuro ler sobre o assunto…

– Qual é o filme?

– Síndrome da China”. Esse é o nome.

– Tem no Netflix?

– Acho que não. É de 1979…

– Vou procurar na internet. Fiquei curioso.

– Eu tenho o DVD. Te empresto.

– Legal. Ai você aproveitou o nome e…

– Sim,  tem a ver com a China

– E você acha que a China tem culpa?

– Tem sim. É a única certeza que tenho.

– Os caras falam que veio dos morcegos que se come por lá…

– Olha, pode ter sido isso ou coisa pior, mas a gente nunca vai saber a verdade, ai ficamos discutindo as teorias…

– Ou as “Fake News”…

– O próprio discurso dos que defendem a China já é uma “Fake News”

– Cada vez entendo menos… – respondeu entediado

Felipe entendeu que estava diante de uma pessoa “prática”, que como a grande maioria, se interessava pelos problemas que estavam postos na mesa para resolver e pelas contas a pagar. Ele não dava a mínima para as “teorias de conspiração” Seus pensamentos estavam no seu negócio e se ele iria sobreviver a toda essa crise que ia derrubando as empresas uma a uma…

– Você entende do seu negócio, e isso é o mais importante.

– Eu fiz a minha aposta. Não posso nem pensar em fechar isso aqui…

– Você já tem boas vantagens: não paga aluguel, não fez dívidas… De resto, é esperar que a abertura venha logo.

– E o governador? Fez certo em fechar tudo? Adiantou alguma coisa? Olha o que tem de gente morrendo…

– Eu penso assim: com todo esse isolamento bem feito ou mal feito, pode ser que morram 50 mil, 100 mil, tem várias previsões, para mim é tudo chute, ainda que exista algum método, estão chutando esses números, mas vamos lá: quantos morreriam se estivesse tudo aberto? 500 mil?

– Mas o desemprego vai matar muito mais – insiste Duarte

– Ok, vamos aceitar isso. Se o desemprego matar um milhão de brasileiros – e estou exagerando – vamos abrir a economia para deixar morrer “apenas” 500 mil, sob  pretexto de salvar 1 milhão, contra os possíveis 100 mil com esse isolamento, aí eu pergunto: e se nestes 400 mil a mais estivermos eu e você?

– Que merda…

– Olha: os mortos pelo desemprego ainda não morreram, eles podem e muitos serão salvos pelo socorro do governo, até porque é mais fácil correr atrás de cesta básica do que de leitos nos hospitais…

– Mas você já viveu de cesta básica? Sabe como é isso?

– Não, eu nunca passei fome, nunca precisei de auxílio do governo, nunca precisei de cesta básica, mas eu estou falando de decisão. O governante precisa tomar uma decisão, e trata-se de uma questão moral: é correto um governante expor uma pessoa em perigo de morte agora, porque achamos que podem morrer outras duas depois?

– É difícil responder isso.

– Eu penso que devemos tomar a melhor decisão a cada momento. Não é só você que pode ser prejudicado. Eu posso ficar desempregado e tenho o financiamento de um apartamento para pagar, eu não estou filosofando em cima de um baú repleto de dinheiro…

– É o seu ponto de vista…

– O que eu estava tentando dizer, é que não se trata da minha posição nem da sua, mas do que é certo. Tem que existir algo que é certo e que vale para todo mundo, senão estamos perdidos!

– Então faz uma coisa: No fim desta rua tem um lugar que vai deixar você pensativo – é a Rua Ápia -conhece?

– Conheço. Meu primeiro emprego foi lá…

– Ótimo! Você vai ver que está bem diferente do tempo em que trabalhou lá. Ali virou um deserto. Todas as empresas faliram. É claro que já estava assim há um bom tempo, mas ainda havia uma transportadora e um boteco. Os dois fecharam. A quarentena foi o golpe de misericórdia e acabou com o que restava. Aquilo parece um cenário de Mad Max, você que gosta de filme, pesquisa para comparar, tá igualzinho. Ali vai ser fácil de pensar o que é certo

– Eu já assisti esse filme…

– Meu! Você só gosta de filme antigo?

– Estava demorando eu voltar a tocar nesse assunto, mas vamos lá – emendou Felipe meio que sorrindo – eu gosto de filmes antigos porque são do tempo do meu pai. Ele morreu quando eu era pequeno, e eu nem o conheci direito, então fico pesquisando filmes e músicas do tempo dele, para ficar imaginando como era o seu jeito, se ele gostava dessa ou daquela música, deste ou daquele filme, trazer um pouco do mundo dele para mim…

– E sua mãe? Não fala nada dele pra você?

– Quase nada. Eu prefiro não perguntar muito. Meu pai era alcoólatra, ele é uma lembrança ruim para ela…

– Que chato, meu….então nem vai lá.. Você vai ficar meio pra baixo. Já vi que falar do seu pai deixou você meio triste.

– Não, meu amigo. É justamente isso que vou fazer. Vou esticar a minha caminhada Vou até aquela rua…

EPÍLOGO.

A Gruta

Apesar de ter realizado um grande desejo, Felipe saiu da lanchonete com uma sensação desagradável. Não pelo teor da conversa. A discussão até que foi estimulante. Mas quando ele decidiu sair para a rua, pensava exatamente em estar num lugar como aquele e o encontrou! Ele teve o que queria, então, porque se sentia tão insatisfeito? Estar num balcão de padaria lembrava a saída do trabalho, uma happy hour solitária, uma rotina que seguia religiosamente.

Seria pela falta de pessoas ao redor? Seria por isso? Não, não era por isso, ele sabia. Ele estava em busca de um oasis de normalidade e rotina, nada além disso. E ele esteve nesse oásis. E não obteve nem a pequena amostra de normalidade e satisfação que desejava, como uma clarabóia que o fizesse sair daquele isolamento por alguns minutos! Do contrário, a sensação foi amarga. Pegou seu celular e pensou novamente em Camila. Ela não havia mandado para ele nenhuma mensagem até aquele momento. E se sentia ridículo por esperar que ela o fizesse. Faria ele, então. E daria a Camila simplesmente e nada mais o que tinha:

– Você já desejou muito conseguir uma coisa e quando a conseguiu, desejou que não a tivesse conseguido?

Só essa pergunta. Assim a seco. Em seguida, Camila retornou:

– O que aconteceu, Felipe?

Ele não respondeu. Sua expectativa agora era nenhuma.

A Rua Ápia ficava a pouco mais de 10 minutos. Passava das 5 da tarde, mas ele estava disposto. Talvez não fosse o caso de ir atrás da beleza das coisas ou das sensações agradáveis, mas exatamente o oposto, o feio e o sujo da destruição. Sair para a rua o deixou na mesma. Ou ainda pior. “Então, tratemos de piorar um pouco mais” – pensou.

Com efeito, ao chegar ali, viu exatamente o que Duarte descreveu. Havia inclusive um ônibus abandonado. Os pneus estavam tão gastos, que ninguém se deu ao trabalho de arrancá-los. A fábrica em que Felipe iniciou a sua vida profissional ficava logo na esquina. A portaria estava abandonada. Apenas uma mensagem numa placa: “Cartas: entregar no número 450”.

A cerca de arame farpado estava danificada num ponto. Por ali, entraria uma pessoa. Certamente, era uma passagem aberta por ladrões, atrás de fios de cobre ou chapas de aço, para vender no mercado negro. Felipe decidiu entrar. Alguém se daria ao trabalho de instalar câmeras naquele lugar? Nunca invadiu uma propriedade, mas não pretendia se apoderar de nada, senão de algumas lembranças do passado.

O pátio que levava ao refeitório externo estava cheio de folhas de árvores no chão e alguns envelopes que jamais foram abertos. A porta de vidro do escritório estava trancada. Todos os galpões estavam trancados. A sujeira e a falta de iluminação, não permitiam sequer ver como estava lá dentro. Somente um lugar estava acessível: o estacionamento da Diretoria. Era um espaço onde os operários costumavam tirar um cochilo ou tomar sol após o almoço, e apesar do estado de abandono, tinha o mesmo aspecto de outrora. O piso, agora sujo e manchado, era de cerâmica antiga que naqueles tempos era frequentemente encerada. Ficava num ponto alto dos fundos do terreno, permitindo ver a cidade ao longe. Era até uma arquitetura ousada, pois era constituído de um pequeno vão sustentado por elegantes colunas que ficavam abaixo de uma parte do escritório permitindo que os carros ficassem à sombra.

Felipe até havia se esquecido daquele (ainda) belo e pequeno espaço retangular onde cabiam não mais que quatro ou cinco veículos na sua parte coberta e, que tinha num dos seus lados, uma parede totalmente coberta com pedras. E nesta parede, uma pequena gruta com a imagem de Nossa Senhora de Luján.

Não era uma imagem comum, feita em gesso como muitas, mas parecia ser de porcelana pintada. Tinha cores suaves e o nome escrito em tinta dourada:“Virgen de Luján”. Uma linda imagem trazida da Argentina, país dos antigos donos daquela empresa.

Aquele lugar parecia estar protegido por Nossa Senhora. Não tinha como não notar que onde a imagem estava, ainda se conservava alguma beleza. Foi feito para ser assim, ele sabia disso. Não se tratava de um “milagre” mas, se aquele espaço foi pensado para preservar durante anos algum sentimento de Fé e de Esperança, o objetivo foi alcançado.

Felipe soprou cuidadosamente a imagem para que saísse a poeira. Beijou os pés de Nossa Senhora, coisa que teria vergonha de ser visto fazendo dentro de uma Igreja. A beleza da Virgen de Luján, agora mostrava todo o seu esplendor. Ele ainda não percebia claramente, mas estava se sentindo bem.

Era hora de seguir adiante ou voltar para casa.

Logo ali à Frente

Novamente na rua, Felipe lançou um derradeiro olhar para frente. Era um lugar que conhecia, mas jamais andou por lá, pois mesmo em outras épocas, se tratava uma rua meio deserta, onde praticamente só havia  indústrias e agora, galpões vazios. Mais para frente, a divisa da cidade, a estrada, e alguns prédios altos. Num daqueles prédios, ele sabia que estava Camila. Felipe decidiu caminhar até lá. O tempo começou a esfriar e Felipe vestiu a blusa que era do seu pai

A divisa da cidade lhe daria a noção que completou seu trajeto. Depois, a volta para casa e o retorno a tudo o que estava vivendo nos últimos 39 dias. Não encontrou nada do que procurava – a tal da “vida acontecendo” – mas encontrou um pouco de paz. O suficiente para começar tudo  novamente.

O final da Rua Ápia dava num imenso terreno. Outrora também ali, existiu uma indústria, mas demolida há anos. Havia muito mato, e nenhum muro ou cerca. Mas no meio do terreno viu uma grande cruz. Devia ter uns sete metros de altura. Uma cruz cercada de uma vegetação que em alguns pontos, ia até a altura dos joelhos.

Felipe parecia sentir um chicote invisível o impulsionando a ir até lá. Precisava ver de perto. A visão de um lugar tão extenso, plano e com uma cruz solitária, era misteriosa e magnetizante. Ele não sabia qual, mas aquele cenário trazia algum recado. Tirou uma foto antes de se aproximar, para registar aquele momento. Felipe sabia, tinha certeza, de que estava vivendo um momento singular, único, que não esqueceria jamais, e precisava estar perto para poder entender.

Ao chegar, notou que a cruz devia estar lá há muitos anos. Estava bem fincada, com vegetação ao redor, sem sinais de pegadas ou alguma atividade recente, como uma escavação. Não havia pegadas e a madeira estava um pouco esverdeada com fungos. O terreno úmido, certamente pela proximidade com um córrego ao lado da estrada.

Olhar para cima causava um princípio de medo e vertigem, que era rapidamente seguida de tranquilidade e paz interior. É como se essa paz, fosse a recompensa por resistir ao medo inicial, como quem vence o medo de um mergulho na piscina ou de um vôo de asa delta, mas não se tratava simplesmente de uma experiência cognitiva. Não era isso. Os seus efeitos iam além da realidade temporal, restrita a um olhar meramente humano.

Aquela cruz parecia olhar para a cidade e para o mundo. Sentiu ali a Presença de Deus a dizer : “Pode deixar, Eu sei de tudo o que está acontecendo”. E se Ele sabe, não há porque se preocupar.

Felipe sentou-se no chão, e colocando a sua mochila no colo, escorou naquela cruz. Queria repousar ali. E disse para si mesmo:

“Encontrei o meu Tabor”

Permaneceu ali por longos minutos. A noite se aproximava e a cidade começava a acender seu mar de luzes. Toda a sua história, todas as suas grandes preocupações e lembranças do passado, começaram a desfilar nos seus pensamentos. Mas junto àquela cruz, a percepção da realidade era outra. As perspectivas eram outras. Os mesmos problemas, os mesmos desafios, mas agora, com um panorama novo. E uma imensa certeza de que o Felipe que cerca de uma hora havia chegado lá, já não era mais o mesmo…

Quantas preocupações caíram por terra! Quanto desejo de buscar segurança nos seus próprios projetos como se se bastasse a si mesmo, quantos planos feitos para sua vida, esperando de Deus que apenas os executasse!

É possível viver à margem de Deus, como se Ele ficasse restrito a um porão da consciência? Como se as realidades humanas fossem definitivas, bastando apenas, não pensar na morte? Todos os dias morrem pessoas, mas agora, os mortos passam a ser contados. E contados diariamente. Não era mais possível silenciar a morte.

Já estava escuro quando decidiu voltar para casa. Eram quase 19 horas. Voltaria como veio: à pé. Não estava com medo. Precisava ficar só. O silêncio era necessário, não queria chamar um táxi e se dispersar numa conversa sobre futebol ou política. Precisava estar recolhido para saborear, rememorar a experiência que viveu.

Quem daria valor ou veria algo de espetacular numa cruz em meio a um terreno baldio? Talvez muitos tivessem passado por ela e nem a tivessem notado. Outros, talvez rezassem ou fizessem um sinal da cruz e continuassem a seguir seu caminho. Mas ele viu e parou, pois para ele foi um encontro. Talvez a melhor definição para explicar o que viveu: um Encontro.

Voltaria então, para casa guardando para si só, aquele momento. As mensagens chegavam pelo celular, ele notava. Não havia a menor disposição para ver o que estava recebendo. A escuridão não causava nenhum medo, nem o deserto das ruas o incomodava pois sequer, reparava ao seu redor. Talvez se cruzasse no seu caminho com um grupo suspeito de pessoas, passaria por entre eles sem notá-los, tão absorto que estava com a recordação daqueles minutos em que esteve no seu “Tabor”.

O trajeto de volta durou cerca duas horas e trinta minutos, que sequer foram sentidas.

Ao entrar em casa, olhou a foto que tirou. Ficou com uma boa recordação que queria reviver e planejava voltar lá no dia seguinte. Tudo o que começou aos pés daquela cruz, haveria de continuar. Percebeu então, várias mensagens enviadas por Camila. Neste momento, sentiu o desejo de compartilhar com ela:

– Camila, estou bem. Acabei de chegar em casa. Na verdade, nunca me senti tão bem

Camila rapidamente, fez uma chamada de voz:

– Oi…

– Felipe! Estava preocupada. Você escreveu aquela frase estranha, depois não fez mais contato, nem respondeu…

– Entre aquela mensagem e agora, minha vida virou do avesso…

– O que aconteceu?

– Olha, passei por momentos bem diferentes hoje, fui a uma igreja, tive uma conversa muito boa com um senhor que se aproximou de mim, me deu conselhos…

– Nossa, que bom…

– Pois é, mas até então, não tinha absorvido aquelas palavras todas…

– Não “mexeu” com você…

– É, eu disse isso pra ele. Que gostei das palavras, mas não estavam causando efeito, e depois, quando saí da Igreja, fui abordado por um mendigo!

– Olha só! – emendou Camila, achando graça e agora curiosa pelo desenrolar da história.

– Meu, um cara meio louco, mas muito inteligente!

– Isso não é raro entre moradores de rua…

– Verdade O cara estava antenado com esses papos de Covid. Ele é chegado nessas teorias de conspiração, se bem que muito do que ele fala eu concordo…

– Eu também – respondeu Camila..

– No final, ele acabou pedindo o meu lanche!

– Nossa! Ficou sem comer até agora?

– Não, eu encontrei uma lanchonete aberta e muito boa, reformada, mas antes fiquei uns minutos conversando com uns meninos que vi num campinho jogando futebol.

– Você disse que queria ver algo assim.

– Depois veio o momento em que te mandei aquela mensagem

– Isso, me explica o que aconteceu.

– Eu tinha acabado de sair da lanchonete, na verdade, estava fechada, ainda ia começar a fazer entregas, mas ganhei um atendimento exclusivo, o dono era um conhecido, reformou tudo ali, tudo limpo, foi seguro..

– Olha que bom…

– Matei a fome, a vontade de ir ao banheiro, recarreguei as baterias, conversamos bastante, mas quando saí de lá, fiquei com aquela sensação, fiquei me perguntando porque estava tão triste, tão insatisfeito, mesmo tendo achado o que procurava…

– Os problemas ainda existem, Felipe…

– Mas, existe algo mais….

– O quê?

– O Duarte, o dono da lanchonete, me falou de uma rua muito extensa, que praticamente ficou deserta quando veio a pandemia, é a Rua Ápia, eu conheço, trabalhei ali.

– O prédio da minha tia fica depois dessa rua. É onde estou agora…

– Eu sei. Eu estive ai…

– Ah é? Caminhou até aqui?

– Sim, mas antes percorri a Ápia. Entrei no pátio da empresa onde trabalhei, fiz por fazer, não esperava ver nada interessante, mas no estacionamento da Diretoria, vi algo que já sabia que existia, mas havia esquecido: uma imagem de Nossa Senhora, numa pequena gruta feita na parede do prédio…

– Que Benção! E isso te fez bem…

Felipe faz uma parada na narrativa. Não sabia se iria conseguir transmitir à Camila a experiência que viveu depois. E mesmo que conseguisse expressar muito bem, não sabia como a sua história seria recebida por ela. Era como se estivesse de posse de um tesouro e ninguém desse valor. Temeu ficar abalado se ouvisse de Camila que ele viveu algo comum, que se tratava apenas de uma cruz, e o resto foi apenas efeito da emoção do momento. Mas, não! Ele sabia que não era isso!

– Camila, na verdade, aquela imagem de Nossa Senhora, aquela presença de Nossa Senhora, apenas me preparou o caminho…

– Felipe, você nunca falou assim. Está até me assustando…

– Eu também estou sentindo medo

– Mas, o que aconteceu?

– Eu segui adiante até o fim da Ápia e parei naquele terreno, onde existia uma fábrica que foi demolida, bem em frente aos prédios, onde você está. Lá eu vi uma enorme cruz bem no meio, muito alta. Você pode vê-la daí. Eu me aproximei da cruz e fiquei acho, que quase uma hora por lá. Sentado no chão, encostado nela. Acho que foi a primeira vez que falei de verdade com Deus…

– Felipe, você fala de uma cruz nesse grande terreno de frente à Via Anchieta? – retrucou Camila num tom de ceticismo e decepção…

– Sim, acho que dá para você pode ver de onde está…

– Claro! E não tem nenhuma cruz ali…

– Como não, Camila! Vai lá e dá uma olhada! Será que janela do apartamento da sua tia não fica para o outro lado?

– Não Felipe. Estou de frente com a Via Anchieta. Daqui eu vejo todo o terreno!

Felipe estava certo que Camila fazia alguma confusão. Andava pela casa e olhava pela janela, como se no horizonte pudesse visualizar aquela cruz…

– Eu tenho uma foto, vou te enviar agora!

– Isso, manda – respondeu Camila ansiosa.

Camila recebeu a imagem e ficou surpresa ao ver uma cruz exatamente no local em frente ao prédio onde ela estava, a poucos quilômetros de distância

– Felipe, você fez uma montagem?

– Para quê eu faria isso?

– Não sei, você está abalado, falando diferente, nunca te vi assim.

– Mas, esse sou eu agora, não posso ser o mesmo depois de tudo o que se vivi há poucas horas…

– Você não viveu nada! Eu vou tirar uma foto agora e a gente vai conversar depois..

– Manda, eu quero ver

Felipe recebeu a foto de Camila, que por sua vez, mostrava exatamente o cenário que ela descreveu. Já estava noite, mas as luzes da Via Anchieta iluminavam bem o terreno: não havia nenhuma cruz.

– Chegou?

– Chegou.

– E então?

– Camila, não vou dizer que você fez uma montagem. Acredito na sua foto. Mas tem algo acontecendo.

– Você está abalado…

– Abalado talvez, mas estou lúcido. Vivi uma experiência real. Ninguém pode tirar isso de mim…

– Não quer tomar um banho, descansar, depois a gente conversa mais tarde, ou amanhã?

– Não sei Camila, preciso desligar

– Fica bem…

– Eu preciso desligar…

– Tá bom, se quiser conversar depois, estarei aqui.

– Tchau Camila…

Felipe ficou um pouco irritado com Camila, mas entendia que ela nada fazia por mal. Ao mesmo tempo que tinha certeza de tudo o que viu, se sentia meio sem chão. Era uma contradição que precisa ser esclarecida. Ele e Camila, com certeza, estavam dizendo a verdade, mas diziam coisas diferentes! Resolveu seguir o conselho da amiga: tomar um banho e descansar. Amanhã seria outro dia. Seu coração vibrava com aquela experiência diante da cruz, mas ao mesmo tempo, uma nuvem de dúvida pairava sobre sua cabeça. Viveu algo real?

Foi à máquina de lavar colocar a roupa antes de ir ao chuveiro. Ao tirar a blusa, notou na parte das costas umas manchas esverdeadas, como que de fungos…

São da Cruz! Só podem ser da cruz!

Sua certeza agora, era ainda mais forte. Resolveu ligar novamente para Camila:

– Oi Felipe…

– Camila, aconteceu uma coisa: a cruz deixou marcas na minha blusa. Tem umas manchas esverdeadas. São os fungos que estavam na madeira e marcaram a blusa que eu estava usando…

– Não seria de outro lugar…?

– Não. Eu só vesti essa blusa quando estava na Ápia, minha mochila foi lavada na véspera, aqui se lava tudo. Foi da cruz. Não é de outro lugar!

– Ah meu Deus – respondeu Camila. Ela estava trêmula, pois neste momento, estava inclinada a crer na história de Felipe.

– Estou indo para lá agora. Vou de carro!

– Leve a blusa para eu ver! Vou me encontrar com você!

– Sim, você vai ver. Estou indo agora…

Felipe colocou a blusa com muito cuidado no banco do passageiro, enquanto se lembrava das palavras do Bereco que ouviu na igreja pela manhã: “poder tocar”, “poder tocar em Deus”. Já eram quase 22 horas, quando estava na rua novamente. Felipe chegou em pouco mais de 20 minutos. Camila Já estava no local, com os olhos fixos na direção de onde estava a cruz na imagem enviada por Felipe.

Ela usava um vestido florido e por cima, uma pequena blusa de botões, pois já estava no início do inverno. Sua figura era frágil e delicada. Seus cabelos curtos que mal cobriam o pescoço, se moviam com o vento. De braços cruzados, olhou para o lado quando viu o carro de Felipe se aproximar. Era um lugar mal iluminado, mas no ponto em que se encontravam, a luz do poste estava acesa.

– Você está sem máscara – disse Camila

– Você também…

– Acho que isso não importa agora, não é?

– Não, não importa – respondeu Felipe

– Me diz como foi…

– Ali naquela direção, havia uma cruz – disse Felipe apontando para o meio – Vamos lá? Trouxe uma lanterna..

Os dois caminharam para o meio daquele terreno abandonado. De longe, se via alguns poucos carros passando pela Via Anchieta. Até chegar ao ponto indicado por Felipe, caminharam cerca de duzentos metros. Era agradável para eles estar ali. Afastados de tudo. Naquele lugar não havia problemas. Não havia pandemia, nem notícias de pandemia. Só a escuridão, umas poucas estrelas do céu poluído de São Paulo, o barulho dos carros ao longe e o vento frio balançando aquele matagal disperso entre trechos de terra e os vestígios de um pátio onde outrora havia uma fábrica.

– Agora só tem mato. – Disse decepcionado –  Não há sequer, marcas no chão…

Camila ficou em silêncio. Queria saborear a paz de estar ali…

– Trouxe a blusa?

– Está no carro. Vamos ver.

Voltaram para o carro. Felipe tinha consciência de estar vivendo um momento que jamais esqueceria na sua vida e que a mudaria para sempre. Abriu a porta do seu carro e mais uma vez olhou a blusa: lá estavam as marcas. Entregou-a então para sua amiga. Camila olhou bem e desta vez, viu o mesmo que Felipe. Beijou a blusa e imediatamente a apertou-a contra o peito. Ficou um certo tempo de olhos fechados.

– É verdade, Felipe. É tudo verdade. – disse devolvendo-a – O que será de você agora?

– Camila, me aconteceu algo diferente esta tarde, quando estava sentado ao pé da cruz. Eu ouvi uma voz – não era bem uma voz, porque não dava para definir um som – mas me veio como uma frase, que eu percebi de forma nítida, sem que estivesse pensando em algo específico…

– Você estava distraído ou acha que chegou a dormir?

– Não, eu não dormi. Foi num momento em que eu me via absorvido por estar naquele lugar, por eu ter visto o que vi, e na verdade, eu estava repousando naquela cruz, sentindo uma paz. Naquele momento, eu não buscava respostas.

– Isso que você me fala, deve ser uma locução interior. Já ouvi falar dessas manifestações. Era Deus dizendo algo só para você…

– Parece uma boa definição. Era algo interior, mesmo…

– E o que você ouviu? Pode me dizer?

– Eu ouvi, ou recebi, exatamente essas palavras: “Eu te escolhi desde a Eternidade”. Depois daquele momento, essa frase não saiu mais da minha cabeça…

A emoção tomou conta de Camila. Seu amigo viveu um momento único na sua vida. E ela era testemunhava daquele momento.

– Então, é hora de procurar respostas – disse Camila com voz emocionada.

– Sim. E a única certeza que tenho no momento, é que Deus quer que eu continue o que comecei hoje. Que eu continue a caminhar. Eu saberei logo o que o Senhor quer de mim. Basta seguir. A resposta estará logo ali à frente…

– E você irá à Frente?

– Sim, eu irei

– E onde é esse lugar? – perguntou Camila, com um certo medo da resposta.

– Se eu não me afastar do Senhor, saberei quando chegar lá..

– Tenho certeza que saberá…

– Vou fazer o que sempre fiz, só que agora não faço mais sozinho.

– Que bom…

– Engraçado, mas agora vejo a Deus como um Alfaiate…

– Alfaiate? Como assim? – estranhou Camila

– Sim, um Alfaiate Divino que fez uma roupa sob medida para mim. Então o que Ele me pede, tem “caimento” perfeito, eu posso fazer, é sob medida!

– São seus talentos, seus dons…

– Sim, mas ainda sinto um certo medo

– Então, não lhe para trás. Não deixe a dúvida barrar o seu caminho! – incentivou Camila num gesto de desprendimento.

– Amanhã irei à rua novamente. Mas, desta vez, só quero encontrar uma Igreja aberta!

– Vai se encontrar com aquele seu amigo?

– Se ele estiver lá, vai ser muito bom, mas como disse, não estarei mais sozinho. Vou conversar com um Amigo que está lá onde há uma luz acesa no altar…

– Logo ali à frente – responde Camila, já com lágrimas nos olhos…

– Camila…

– Preciso que você vá, Felipe! – interrompe Camila – Gostaria imensamente de ficar mais tempo com você, mas preciso que você vá e você também precisa ir…

– Vou deixar você em casa…

– Tá bom..

Felipe abre a porta do carro para Camila e a leva para casa. São poucos metros até a portaria do prédio, mas a noite avança e o local é deserto. Ao saírem do carro, Felipe olha para Camila, que percebe que ele tem algo a dizer:

– Camila, você vai viver! Você vai viver e seus pais também!

– Oh! Meu Deus, obrigada! Obrigada meu Deus! – irrompe Camila olhando para o céu, num choro compulsivo…

Em seguida, corre e abraça fortemente Felipe. Depois de um tempo abraçados, Camila diz olhando nos olhos do amigo:

– O que Deus quiser, será o melhor

– Sim, será o melhor…

– Só me mande uma mensagem pra dizer que chegou bem…

– Mando, sim

Os dois jovens se despedem e Felipe espera que ela passe pela portaria.

Camila espera o carro de Felipe dobrar a esquina. Com o coração leve e cheia de paz, ela entra no elevador. Há um grande silêncio e ouve apenas o barulho de seus passos. Ao entrar em casa, vê que a Tia e a Avó já estão dormindo. Há uma mistura de sentimentos, mas uma grande alegria. Prepara uma xícara de chá, senta-se numa poltrona ao lado da janela, esperando chegar o sono. Seus olhos estão fixos naquele terreno da fábrica que foi demolida. Lá longe, os carros passam pela Via Anchieta.

A caminho de casa, Felipe dirige sem pressa. As ruas estão desertas. Algumas janelas nos prédios e nas casas, ainda estão acesas. “O que fazem estes que estão acordados?” – pensa consigo mesmo. “O que pensam em fazer de suas vidas?”O que achariam se eu lhes contasse o que vivi neste dia?” No seu relógio, passa da meia noite.  Já perto de casa, faz um pequeno desvio e para na Igreja, onde pela manhã, teve aquela conversa com o Bereco:

– Até amanhã, Senhor! – diz olhando para as grandes portas da Igreja, ansioso para que se abram..

Retomando o rumo de casa, em certos momentos, se pergunta em silêncio: “Senhor, o que queres de mim?”, “O que queres de mim, Senhor?”.  Ele sabe que a resposta virá. Junto com a certeza de que estará embarcando numa aventura. Só que uma Aventura Divina…

FIM

Ceilândia, 25 de Outubro de 2020

                      22hs :37 min.

Este conto é uma ficção, mas faz homenagem a José Sebastião Guimarães, o Bereco, falecido neste ano a poucos dias do início da Pandemia no Brasil. Eu o conheci em 1979, como então Diretor da Equipe de Teatro da Paróquia São Judas Tadeu em São Bernardo-SP que naquele ano, encenou a Paixão de Cristo. Foi uma fase muito importante e decisiva na minha vida, da qual fizeram parte o Bereco, bem como sua esposa Auxiliadora, realmente uma cantora lírica. Ali fiz amizades para toda a vida. Agradeço à D. Auxiliadora e seus filhos, também amigos de longa data: Ellen, Lilian e Vinícius, que autorizaram usar o nome do pai em um dos meus personagens. Há outras citações, como a Lanchonete do Duarte e a Gruta da Virgem de Luján, que realmente existiram. São referências autobiográficas, que fazem jus a pessoas que fizeram e fazem parte da trajetória da minha vida.

Mais uma vez, agradeço ao meu amigo Humberto Rodrigues, fotógrafo de São Caetano do Sul, pela belíssima arte que ilustra esse conto.

Publicado por: algosolido | 13 de setembro de 2020

Crônica de uma Noite de Domingo

A Noite de Domingo não me deixa entristecido. Já deixou noutros tempos, quando era mais jovem.

Os chamados “dias úteis” iriam começar e isso significava menos horas de sono e mais de estudo. Saíam de cena a televisão e as brincadeiras, e entravam exercícios álgebra, história e gramática. Com o tempo, a coisa ficou mais séria e o domingo à noite, era para ficar com saudades da namorada, pois quem pensa em formar uma família tem pela frente o trabalho e os estudos que continuam… O sentimento predominante era do “acabou-se o que era doce“, como se dizia antigamente –  e o prenúncio de uma semana repleta de compromissos enfadonhos, com chefe chato, salário baixo, ônibus lotado, enfim: a dura realidade da vida..

Mas, o passar dos anos nos fazem muito bem, isso me permitiu aprender algo com a vida. Aprender a notar que na noite do Domingo, temos um elemento essencial da nossa vida: o ciclo do tempo. Há uma atmosfera escatológica, mas provisória, num ritmo que vai se repetindo a cada 7 dias.

São momentos finais de algo bom e que precisa ser bem aproveitado. As famílias e os amigos já se viram e agora, estão todos em suas casas. O jogo de futebol também já acabou. Talvez seja o momento para ler aquele livro que a imprevisibilidade do próprio fim de semana, não permitiu. Podem ser poucos minutos, mas serão valiosos.

Talvez seja para ver um bom filme em família, desde que não acabe tão tarde. Pode ser para mandar uma mensagem para algum amigo que não vê há tempos, só para perguntar como ele está. Se existem desculpas e justificativas ao longo da semana, elas se acabam numa noite de Domingo, talvez o único momento da semana realmente seu. E não quero pensar que só se lembrou de Deus nesta hora, mas se foi assim, não deixe de falar com Ele…

Vistas da avenida, as janelas dos prédios insinuam movimentos calmos:  as leituras na cama, a lancheira que a mãe prepara, a marmita guardada na geladeira, o saudável “silêncio das línguas cansadas”… (1)

Num Domingo à noite, as pessoas nas ruas fazem de tudo: se algumas avenidas estão desertas, há o imprevisível dos hospitais que atendem as emergências, contrastando com os bares que reúnem os últimos boêmios. A vida segue assim e no fim, tudo se acalma e se recomeça. Mas gosto de reparar naqueles que saem das Igrejas, ao fim da última Missa do Domingo. Afinal, é Dia do Senhor!

Boa Noite de Domingo

Essa crônica foi originalmente escrita em Janeiro de 2019 e enviei para amigos pelo WhatsApp. Ampliei um pouco o texto, mas quanto à pandemia, que não havia na época, decidi não incluir e deixar assim.

(1) Nota : trecho da música “Casa no Campo” de Tavito e Zé Rodrix (1971)

Publicado por: algosolido | 28 de agosto de 2020

O Filão de Pão

sourdough+baguette

No último capítulo da novela Estúpido Cupido exibida no ano de 1976, João –  personagem vivido por Ricardo Blat –  passa a noite em claro e chega na casa dos pais já com o dia amanhecendo. Ele se senta na soleira da porta e encontra lá um filão de pão e uma garrafa de leite. E começa a matar a fome ali mesmo, sem a menor cerimônia.

Essa cena já se perdeu no tempo. O pão e o leite já não se entregam na porta. E pãezinhos ocuparam o espaço do filão.

Claro que temos a sofisticada baguette, mas não é deste pão que estou falando e sim, do chamado “filão” de pão, barato e popular, como assim era denominado na São Paulo dos anos 60 e 70. O pão que era comum nos lares. Um só pra toda a família.

E por ser um só, era para repartir. Havia aqueles que gostavam do “bico” do pão, e numa família de 5 ou 6 pessoas – o que era comum na época – se todos tivessem a mesma preferência, teríamos ai, ocasião para um aprendizado da generosidade e esquecimento próprio. Na mesa do café da manhã, já se via uma oportunidade para o exercício das virtudes.

Devia-se acordar cedo e escolher um pão com bom aspecto, para não correr o risco do padeiro deixar em cima do muro um pão queimado. Na época do Natal, o pão era doce e com frutas, para celebrar a alegria destes tempos.

O café da manhã em nossa casa, era assim preparado: o meu pai fazia o café no coador de pano, e seguia uma espécie de “linha de produção” e quando a gente acordava, já havia açúcar em todas as xícaras. Minha mãe era mais artesanal: ia fritando um ovo por vez e colocando num prato pequeno ao lado de um pedaço filão de pão já fatiado. Isso quando não era queijo ou a insubstituível manteiga paulista. Mas, o que importa, é que tudo era a partir do mesmo pão.

Não me recordo quando os pãezinhos começaram a substituir o filão, mas com certeza, coincidiu com uma onda de individualismo que foi se consolidando ao longo dos anos. O certo, é que com o tempo, foram se multiplicando as ocasiões do “cada um para si”. Lembro-me de uma tarde, – quando tinha 12 ou 13 anos – cheguei da escola, e imediatamente liguei a TV para assistir uma partida amistosa da Seleção Brasileira. A minha irmã chegou logo em seguida, baixou o som da TV e colocou um disco do Barry Manilow, para comemorar romanticamente o primeiro mês de namoro que ela completava naquele dia.

Era apenas uma televisão e apenas um aparelho de som. Uma situação impensável nos dias de hoje. E ela tinha que ouvir aquela música naquele momento: a música tema dos dois…

Mas, o que eu tinha a ver com isso? Eu queria ver o jogo. Tive que esperar

Poucos anos depois, surgiu o walk-man e minha irmã com fones de ouvido, não teria “atrapalhado” meu jogo. Mas até que ponto se ganha com isso? Hoje, uma menina adolescente chega da escola, com o fone de ouvido, joga a mochila no chão e entra no quarto. E talvez, ninguém ficará sabendo o que se passa com ela. Há poucos anos atrás, eu estava no ponto de ônibus com fones de ouvido ouvindo o noticiário. Ouvir notícia pela manhã, é a minha “cachaça“. De repente, uma senhora se aproximou e me fez perguntas sobre as linhas de ônibus. Eu tirei os fones, respondi para ela e rapidamente, coloquei os fones de novo. Mas, ela fez uma nova pergunta. Eu tirei novamente e respondi, quando então ela me disse: “Agora, pode colocar os fones”. Que vergonha!

Um pão para cada um, uma TV para cada um, um telefone para cada um. Cada um no seu ambiente, com a sua música, com os seus gostos. Dizem que a nostalgia é um equívoco e cada época tem os seus desafios. E que o mundo do passado não era necessariamente melhor que o de hoje. Não deixa de ser verdade.

Mas recorrer à nossa memória, nos proporciona bons momentos e que podem ser bem aproveitados para um gesto de gratidão ou simplesmente de aprendizado. Foi o que aconteceu no ano passado, quando com poucos meses de casado, eu e minha esposa, nos mudamos para o apartamento que havíamos comprado. Eu desci pelo elevador para ir à padaria comprar pão para o nosso café da manhã. Ao me dar conta de que era a primeira vez que comprava pão para a nossa casa, vi que estava fazendo o que meu pai fez por anos! Lembrando disso,  liguei imediatamente, ali mesmo na rua, para o meu pai e disse a ele: “Pai! Estou indo comprar pão, pela primeira vez, do mesmo modo que o senhor fazia para nós todos os dias !” Não era para mim, uma coisa banal. E para minha alegria, também não era para ele: o “velho” soltou uma gargalhada.

Percebi nitidamente que ele estava emocionado. Esse episódio me fez lembrar de verso de uma música do Claúdio Zolli : “…Mas os momentos felizes não estão escondidos, nem no passado, nem no futuro!”

Publicado por: algosolido | 11 de julho de 2020

Crônicas

Boa noite amigos,

Tenho utilizado este blog para publicar meus ensaios, sempre longos, mas penso que aqui, também pode ser um espaço para as minhas breves crônicas que costumo enviar pelo WhatsApp e Facebook. Elas estarão aqui a partir de agora.

Crônicas são como um bate-papo, uma boa conversa, geralmente de poucas linhas, com uma abordagem que preza mais a reflexão do que o excesso de informações.

Espero aqui, proporcionar boas leituras, como quem serve um bom café!

Até!

Ceilândia, 11 de Julho de 2020

café

Publicado por: algosolido | 8 de julho de 2020

Os Alquimistas estão voltando….

 

( Segunda parte do artigo: “O Corona visto de Longe )

 

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“Trazem consigo, cadinhos, vasos de vidro, potes de louça. Todos bem e iluminados”  “Os Alquimistas estão Chegando” – Jorge Bem Jor

Os alquimistas eram um tipo de esotéricos da Idade Média. Viviam de buscar as “soluções” para os males da humanidade. Através de suas receitas secretas, buscavam encontrar a “pedra filosofal”, mediante a qual, acreditavam ser possível transformar diversos metais em  ouro…

 

Na batalha de narrativas do coronavírus, duas vias ficam evidentes no debate : uma é “fisiológica” e a outra “ideológica”.

A via fisiológica é a que contrapõe saúde x economia. Aqui, se trata de ser contra ou a favor da Quarentena. Quem é contra, defende que os mais jovens e saudáveis devem levar – no que for possível – uma vida normal, dando continuidade às atividades de comércio, indústria, serviços e viagens, a fim de impedir uma recessão e a perda dos empregos. Não se diz expressamente, mas a verdade é que apostam na juventude e num bom convênio médico. Acreditam que caso infectados, não morrerão.

Em geral, os opositores da quarentena são de direita e apoiadores do presidente Bolsonaro. Não é comum nesse grupo se falar muito nos pobres, mas agora, os mais pobres – que são mesmo as principais vítimas da crise econômica – se transformaram em ponto de apoio de seus discursos pragmáticos. Para sustentar seus argumentos, procuram modelos de sucesso em outros países que não adotaram isolamento, mas acabam se frustrando: tais “modelos” não existem. Não no momento.

Por outro lado, a esquerda é maciçamente a favor da quarentena. Defendem que “a economia deve esperar”, enquanto se busca uma vacina ou a pandemia termina. Enquanto isso, defendem que o Estado deve prover as necessidades básicas dos mais pobres, enquanto todos ficam em casa. Adotam um discurso hipnótico permeado de frases como “vai passar”, e a manjada “fique em casa”. A verdade é que eles têm condições financeiras para se manter confinados longo tempo…

Majoritariamente, os dois grupos são compostos de ricos ou classe média, em condições de bancar as suas posições, pagar suas apostas. Mas a direita ficaria em casa, se o vírus se tornasse mais perigoso e letal. Não adianta ganhar dinheiro e morrer em seguida. E a esquerda sairia para a rua, caso o dinheiro acabasse. Bem…essa hipótese é um tanto esdrúxula. Muitos da esquerda vivem ao abrigo do Estado, ou seja: dos impostos pagos pela produção de bens e riquezas por parte da direita…

Os mais pobres também se encaixam fisiologicamente numa das duas posturas, conforme se sintam mais seguros, mas em geral, são pressionados a sair de casa. Não têm a segurança de um emprego estável. E não há clima para se discutir argumentos, quando se precisa correr atrás de dinheiro para pagar o aluguel e por comida em casa. Em geral, todos querem viver. Esse é o ponto em comum.

A outra via, a ideológica, acompanha e sustenta as posições de direita e esquerda. É nessa hora que tudo se encaixa, apesar de tornar o cenário mais confuso. Temos por um lado, a direita, que está convicta de que o coronavírus é uma arma química, criada intencionalmente no laboratório de Wuhan, para deixar o mundo em pânico e parar a economia. A quarentena então, seria um ensaio de uma sociedade obediente ao Estado, controlada por um governo único, o que seria a Nova Ordem Mundial. Por isso, deve-se rejeitar a quarentena para não cairmos no controle do comunismo chinês. Até as máscaras que usamos para nos proteger de contaminações seriam, segundo essa suspeita, parte desse ensaio de obediência e não falta quem se negue a usá-las numa postura política mais radical. Algumas confusões tem ocorrido por conta dessa recusa em usar máscaras.

É isso mesmo?

Essa narrativa é tão fantástica quanto verossímil. Basta olhar para o outro lado: a esquerda. Há um misto de euforia e expectativa entre os ideólogos esquerdistas ao ver governos se endividando e até em países ricos, literalmente dando dinheiro para seus cidadãos. Seria para eles, a falência do capitalismo e do liberalismo econômico e a “redenção” do Estado.

A queda do muro de Berlim em 1989, o evento mais significativo da falência do comunismo e do bloco soviético, é uma ferida aberta no coração da esquerda, que agora espera se reabilitar. Duas declarações recentes, no Brasil, são exemplos inequívocos deste sentimento. Uma é do ex-presidente Lula, em 19 de maio:

“…ainda bem que a natureza, contra a vontade da humanidade, criou esse monstro chamado coronavírus…” (1)

O “ainda bem” dito por Lula, é bastante significativo. Mas para aqueles que minimizam a frase do ex-presidente, alegando que foi improviso ou mero casuímo, temos as palavras de uma notória militante de esquerda, Ilona Szabó, em sua coluna na Folha de São Paulo:

“...a Covid-19 é um lembrete do papel central dos estados-nação e das cidades como primeiros socorristas. As pessoas recorrem aos seus governos — e não ao setor privado — em tempos de crise. …  … ( a Covid-19) … deve ser encarada como uma segunda chance de organizar a governança global, nacional e subnacional voltada para o interesse público. Não haverá uma terceira” (2)

Ilona Szabó é diretora-executiva do Instituto Igarapé, ONG brasileira, financiada por países europeus e por entidades parceiras da ONU. Formula políticas públicas ligadas às drogas (simpática à liberação) e à violência. Todas entidades, estão em sintonia com o pensamento de esquerda. São países estrangeiros pretendendo influenciar nossa forma de pensar passando por cima dos nossos valores. Quando Ilona se refere à “segunda chance”, a primeira, foi o pós-Segunda Guerra Mundial, momento traumático da história da Humanidade quando se criou a ONU e se redigiu a Declaração Universal dos Direitos Humanos. Aqui, ela faz um paralelo com o Pós-Covid. Falaremos sobre isso mais adiante.

A China tem algo a esconder

( as informações deste tópico, vieram na sua totalidade de fontes insuspeitas, todas da mídia tradicional, que vêm fazendo um cerco de proteção à China, mas que deixaram algumas pontas soltas… )

Não há como negar que coisas estranhas rondam a China. Não se sabe se tudo o que se diz a respeito é verdade, mas é altamente suspeito ver a mídia ocidental, tão ciosa da democracia, demonstrar tamanha conivência com um governo que desrespeita os direitos humanos, e se posicionar severamente contra governos que fazem oposição ao gigante asiático, como os Estados Unidos e recentemente o Brasil. Não custa perguntar se os jornais brasileiros, americanos e europeus, têm alguma simpatia pelo regime comunista chinês.

Há a conveniente “desculpa” do comércio internacional, afinal, a China é um grande comprador mundial de commodities, e sustenta boa parte do nosso agronegócio, mas sequer se vê na imprensa um movimento forte de alerta, ao menos em nome do pragmatismo econômico – exceto opiniões isoladas – para o risco desta sino-dependência, tanto comercial quanto tecnológica.  E mais: se a Economia deve esperar até que nos libertemos do coronavírus, poderíamos fazer também a economia esperar até que nos libertemos da China.

O documentário “Tracking Down the Origin of  Wuhan Coronavirus” (3) ( Produzido pela “The Epoch Times” e traduzido no Brasil como “Rastreando a Origem do Coronavírus ), levanta a suspeita de que o “corona” não tem origem no mercado de animais, mas na mesma cidade, há uns poucos quilômetros distante, dentro do laboratório P4 de Wuhan, o nível mais alto de biossegurança. A princípio, pode se dizer que esse documentário é verossímil, ou seja: pode ser verdadeiro o seu conteúdo.

É um vídeo de pouco mais de 50 minutos, extremamente bem feito e suficientemente forte para levantar suspeitas contra China, mais precisamente contra o Partido Comunista Chinês. Epidemiologistas são entrevistados, documentos são apresentados e se forem verdadeiros, a suspeita deverá ser levada a sério, ainda que algumas de suas suposições pareçam exageradas. Talvez não sejam.

A tese de que o coronavírus tem origem em laboratório e não surgiu de forma natural num mercado de animais silvestres, tem o aval de nada menos que o francês Luc Montagnier, vencedor do Nobel  de Medicina de 2008.  Mas são poucas autoridades científicas de grande prestígio que dão a cara para bater. A maioria, prefere estar alinhada com imprensa, a OMS e com as autoridades do Partido Comunista da China. Uma tríade altamente suspeita.

A China claro, nega. Alega que fez uma investigação no Mercado de Wuhan e afirma que lá está a origem do vírus. A imprensa internacional insiste em acreditar nos chineses, sem sequer ter acesso aos laudos. Não cobra nada. Não questiona nada.

Certo é, que o médico chinês que fez o primeiro alerta de que havia um vírus perigoso se espalhando, foi censurado pelo governo do seu país, não deixando dúvidas de que a China tinha algo a esconder. É também de estranhar o silêncio dos ambientalistas – sempre a esquerda !- que querem proibir restaurantes do mundo todo de servir o foie grass, mas encaram com naturalidade o costume dos chineses de comer animais selvagens em condições insalubres.

Destoando de quase a totalidade da imprensa, em Abril, um colunista do The Boston Globe, Niall Ferguson, furou o bloqueio midiático montado para proteger o PC Chinês e lançou uma pergunta pública ao primeiro-ministro chinês Xi Jinping, questionando por que ele proibiu as viagens domésticas partindo da província de Hubei, cuja capital é justamente Wuhan, mas não fez o mesmo para viagens para fora da China.

A bem da verdade, as viagens internacionais também foram proibidas, mas somente 3 dias depois, criando um hiato de tempo longo demais, dada a velocidade de propagação do vírus-chinês ( sim, e essa expressão escandaliza a imprensa, não os erros das China! ) .

Teria sido apenas um “erro administrativo”?

Se os diretores de Hollywood não simpatizassem tanto com o comunismo (um dia escrevo sobre isso), fariam um blockbuster só de imaginar no que pode ter ocorrido nos aeroportos do mundo inteiro nestes misteriosos três dias…

A pá de cal pode ser um estudo publicado pela revista Cell em 02 de Julho, concluindo que o vírus que saiu da China, já não é mais o mesmo que entrou na Europa e nas Américas. Sofreu mutação e é mais contagioso. Isso explicaria o número relativamente baixo de mortes na China. Falando claro: o vírus ficou mais perigoso depois que saiu da China. A que se deve essa mutação?

Se estiver desconfiado da China, continue. Não sabemos o que eles fizeram, mas foi algo muito errado. Não é necessário “apelar” para “Teorias de Conspiração”.

O jornalista francês Gilles Lapouge, colunista do Jornal “O Estado de São Paulo” há mais de 50 anos, escreveu em abril, uma crônica(4) intitulada A sombria origem do coronavírus”. É mais um exemplo de furo no bloqueio que protege a China: prende bem a atenção contando a misteriosa história da construção do laboratório P4 de Wuhan, um relato cheio de pontas soltas. Houve participação do governo francês que foi gradativamente descartado nas fases posteriores da conclusão da edificação. É um texto sóbrio. Vale a pena ler. A crônica de Lapouge coincide em parte com a história contada no documentário “Rastreando a origem do coronavírus” mencionado acima.

Aqui vale abrir um parêntesis: as ações da China e a reações dos movimentos de esquerda: ongs, partidos políticos, imprensa, durante essa pandemia do coronavírus, são eventos independentes!

As palavras de Lula: “a natureza, contra a vontade da humanidade” e de Ilona Szabó:uma segunda chance de organizar a governança global” revelam uma espontânea reação de surpresa. É uma irresponsabilidade criminosa apontar “sócios” da China numa eventual ação genocida, onde eles não existem. Uma ação desse porte seria ultrassecreta, restrita até dentro do país, a poucos membros de um partido ou facção. Toda essa simpatia com o comunismo chinês, todos esses equívocos e conceitos errôneos defendidos por nomes da esquerda brasileira e mesmo internacional, são de natureza ideológica. Estou certo de que se soubessem de uma possível arma biológica, a repudiariam com veemência.

O bloqueio midiático em favor do governo chinês, é facilitado porque uma série de mentiras são contadas por blogueiros amadores de direita. Isso desmoraliza qualquer narrativa de suspeita contra os comunistas chineses, e seria preciso encontrar provas cabais de uma arma biológica: elas não existem no momento. Isso tem permitido a esquerda se apegar às suas crenças. A China tem se revelado a face do mal. Já tivemos um Hitler e um Nazismo no passado, e talvez a história esteja se repetindo hoje.

E para os jornalistas que gostam tanto de apontar o Nazismo para a direita, vale lembrar que o Nazismo é híbrido, tem seu abrigo político em grupos radicais de direita, mas seu “embrião”, sua matriz ideológica é de Esquerda. Fico com as palavras do personagem de Karol Wojtila, futuro João Paulo II, no filme “Karol, o Homem que se tornou Papa” : “ O Comunismo é o Nazismo com outro nome ”

A Esquerda, a ONU e a Nova Ordem Mundial

Comunistas, Socialistas, Globalistas, Esquerda… São variantes de uma mesma raiz: o Marxismo. Nem sempre na sua vertente econômica, mas sempre na sua vertente cultural, frequentemente nomeada como “agenda de valores ou costumes”. Quando você liga o rádio, acessa a internet, portais da grande mídia,  assiste um telejornal de canal aberto ou lê jornal ou revista impressos, ouve-se o voto de um juiz, lê um livro de história indicado nas universidades ou colégios de ensino médio, ouve uma sexóloga orientando jovens, assiste praticamente qualquer filme americano, europeu ou nacional dos últimos 30 anos, assiste entrevistas de cientistas políticos, educadores, médicos, psicólogos, filósofos, historiadores, e lamentavelmente, alguns religiosos escolhidos “a dedo” pelos jornais e TVs ( eles sempre sabem quem entrevistar ), faz uma pesquisa acadêmica na área de humanas, quase sempre estará absorvendo um conteúdo que estará com algumas variações, em conformidade com as ideias de toda essa turma que citei acima: comunistas, socialistas, globalistas, esquerda…Ou seja: você está cercado.

Anos atrás, li um artigo do jornalista Joelmir Betting, em que ele descrevia ( não sei se sua a reflexão original ) que o século XIX foi o século dos Engenheiros, o século XX, dos Economistas e o século XXI, dos Artistas. Me pareceu ótima essa distribuição, mas eu faria uma alteração: o século XXI está sendo o século dos Alquimistas.

Na Idade Média, os alquimistas elaboravam receitas secretas para encontrar “pedra filosofal”, capaz de transformar o chumbo em ouro, e em certo sentido, é o que fazem hoje os ideólogos de um “mundo melhor”, da pedra filosofal da “governança global” a que se referia Ilona Szabó. A pandemia do coronavírus é vista neste sentido como a “segunda chance”.

Essa “Governança” é uma expressão muito diluída, geralmente relacionada às ações da ONU, FMI, OMC, OMS, sempre em parceria com ONGS de diversos países, que visam propor soluções muitas vezes, uniformes para todos os países, também invocada por outro nome: Multilateralismo.

A princípio, não se trata de algo ruim, visto que propõe ações como a erradicação da miséria, doenças ligadas à falta de saneamento básico, proteção a pessoas em situações vulneráveis, como no caso de crianças exploradas pelo tráfico de drogas ou pela prostituição, acesso de países pobres à educação de qualidade, mediação para evitar conflitos bélicos entre países, controle na fabricação de armas, sobretudo armas químicas, etc…

Visto que há países extremamente pobres, com péssima infra-estrutura, governos frágeis e população em extremo sofrimento, como não achar louvável que países do mundo inteiro se reúnam para formular legislações e tomar iniciativas de apoio que visam o bem comum?

Mas quando pessoas se reúnem para discutir problemas que afetam gravemente a vida de cada pessoa, precisam ter em conta que há um princípio em comum presente na consciência de cada homem neste mundo. É o que o Cristianismo chama de Lei Natural, conforme ensina o Catecismo da Igreja:

“ Presente no coração de cada homem e estabelecida pela razão, a lei natural é universal nos seus preceitos, e a sua autoridade estende-se a todos os homens. Ela exprime a dignidade da pessoa e determina a base dos seus deveres e direitos fundamentais” ( ponto: 1956 )

O mesmo texto do Catecismo ainda reforça seu ensinamento citando um pensador da antiguidade, o filósofo romano Marcus Tullius Cicero, que escreveu 54 a.c. :

“ Existe, sem dúvida, uma verdadeira lei, que é a reta razão; ela é conforme à natureza, comum a todos os homens; é imutável e eterna; as suas ordens apelam para o dever; as suas proibições desviam da falta. […] É um sacrilégio substituí-la por uma lei contrária: e é interdito deixar de cumprir uma só que seja das suas disposições; quanto a ab-rogá-la inteiramente, ninguém o pode fazer “ (5).

A Declaração Universal dos Direitos Humanos, em 1948,  redigida pela recém Criada da ONU ao fim da Segunda Guerra Mundial, obedeceu em certa medida a Lei Natural, conforme seu primeiro artigo :

“ Todos os homens nascem livres e iguais em dignidade e direitos. São dotados de razão e consciência e devem agir em relação uns aos outros com espírito de fraternidade ”

Mas os redatores da “Declaração” cometeram um erro capital ao recusarem a menção a Deus no texto da carta, algo que nem os iluministas da «Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão» de 1789, ousaram fazer. A menção a Deus foi pedida pela Igreja Católica e também pelo Brasil, mas foi recusada pelos representantes dos países aliados, vencedores da Segunda Guerra Mundial, que se encarregaram de elaborar o texto.

Não se trata de uma mera especulação filosófica. A ONU com o passar dos anos foi pouco a pouco abandonando suas declarações baseadas na Lei Natural, substituindo-as por consensos políticos de motivação ideológica, claro, de esquerda, que passaram a ser “atualizadas” conforme novas “modas” foram surgindo. Sendo assim, surgiram novos “direitos”: uniões sexuais do mesmo sexo, aborto, à eutanásia, eugenia. Todas essas politicas são apresentadas em forma de declarações formais destinadas a constranger os paises membros da ONU a adotarem em seus paises com força de Lei.

Um exemplo claro e atual está presente na “Agenda 2030 da ONU: 17 objetivos para transformar o Nosso Mundo” O documento contém uma série de propostas demagógicas, ou seja, de fácil aceitação, como erradicação da pobreza, cidades limpas, água potável para todos, crescimento econômico permanente, algo que a humanidade busca a milênios sem sucesso e a ONU, com sua alquimia ideológica, finalmente espera que os paises alcancem nos próximos 10 anos……

Nada contra as “boas intenções”. O problema está na ideologia escondida em meio às belas palavras, tal como está descrito no Objetivo 5 (um dos 17)

“ Alcançar a igualdade de gênero e empoderar todas as mulheres e meninas “

Dentro deste objetivo 5, temos o tópico 5.6 que explica os detalhes :

Assegurar o acesso universal à saúde sexual e reprodutiva e os direitos reprodutivos, como acordado em conformidade com o Programa de Ação da Conferência Internacional sobre População e Desenvolvimento e com a Plataforma de Ação de Pequim e os documentos resultantes de suas conferências de revisão “

Traduzindo: saúde sexual e reprodutiva, significa simplesmente, ABORTO

É de ressaltar que a ONU, também distribui para seus organismos laterais, o detalhamento de seus objetivos, de tal forma que seus documentos principais apresentem um caráter mais palatável. Neste sentido, a UNESCO, órgão da ONU voltado para Educação e Cultura, assim declarou em 2016, sobre outro aspecto que é uma obcessão para as militâncias de esquerda: A ideologia de Gênero nas Escolas Infantis.

“ A Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) no Brasil reafirmou nesta terça-feira (7) seu compromisso com a garantia dos direitos das mulheres e da população LGBT, posicionando-se de forma contrária a toda forma de discriminação e violação dos diretos humanos em qualquer circunstância e, em especial, em espaços educativos “

Sempre sobre o “manto” do combate à violência e dos direitos humanos. Bem diferente é ensinar para crianças a relativização da sexualidade, ensinando que a diferenciação de masculino e feminino é meramente cultural, uma “imposição da sociedade”, nada tendo a ver com a natureza humana. A negação da Lei Natural já se faz presente.

Esse é o panorama politico. A ONU está empenhada em desconfigurar e destruir a família. E tudo sobre o pretexto chantagista dos “direitos humanos”. Isso aconteceu porque se perdeu o referencial: Deus. A consciência “comum a todos os homens, imutável e eterna” foi substituída pelos “desejos” de uma sociedade anti-cristã, que foi se organizando e dominando a cena política a partir da chamada “revolução sexual”

Neste objetivo, a ONU encontra um obstáculo: a Igreja. Como neutralizar a presença do Catolicismo no Ocidente, sem ferir princípios de “liberdade religiosa”, sem contradizer seus próprios discursos?

Numa palavra: consenso. O ONU vem tentando esvaziar a doutrina da Igreja sem um ataque frontal, mas numa atmosfera relativista, como ocorreu no ano 2000 com “cúpula dos Lideres Espirituais Religiosos”, quando se lançou a “Iniciativa Unida das Religiões”, uma disfarçada tentativa de se criar uma religião universal, etérea, sem dogmas, apenas afirmações consensuais (sempre o consenso), mantendo as Religiões, “respeitando”, seus lideres, mas enfraquecendo sua autoridade perante os fiéis. O representante do Vaticano,  Cardeal Arinze,  não assinou o documento, que na verdade negaria os dogmas da Igreja e se criaria um ambiente religioso e politico desejado pelas Nações Unidas para dar andamento aos projeto, que agora podemos chamar de NOVA ORDEM MUNDIAL.

Tal iniciativa, sorrateira e disfarçada, não impediu iniciativas isoladas ao redor do mundo de constranger a Igreja e os cristãos em geral, tal como aconteceu com o Padre José Augusto da TV Católica, “Canção Nova”, que em Homilia, numa rara manifestação clara e pública de um sacerdote sobre o assunto, condenou abertamente as tentativas de legalização do aborto e do “casamento gay”, defendidas pela Esquerda e pelo Partido dos Trabalhadores, e justamente num ano de eleições. 

Aquilo foi um murro no estômago da Esquerda, que respondeu com força. O Sacerdote foi silenciado e mantido afastado da TV por um bom tempo. A Canção Nova foi obrigada a se retratar. O Partido dos Trabalhadores governava o Brasil e venceu as eleições naquele ano. Os bastidores até hoje são misteriosos. Não é difícil deduzir o que o governo petista fez naquele episódio.

No ano seguinte, na rádio Band News, num discussão sobre a presença de religiosos no congresso nacional, entre os jornalistas Ricardo Boechat e Monica Bergamo, notórios simpatizantes da esquerda, Boechat se saiu com essa:

“todo mundo hoje no mundo moderno, sabe que ter uma forma de se comunicar com muita gente, é talvez mais eficaz do que ter um pequeno exército. Se você não admite a hipótese de que pequenos exércitos sejam constituídos no Brasil com autonomia de ação, porque o poder do Estado não vai ser dividido nessa área do exercício da força, você tem que também discutir se é razoável que grupos específicos e sempre religiosos, detenham tal poder de fogo na área de comunicação “

Boechat apenas revelou o nítido desejo dos movimentos de esquerda de calar ou submeter a Igreja para se ver livre de um obstáculo. Pode-se ter a certeza que não esperam declarações “consensuais” da ONU para tomarem suas inciativas. A Nova Ordem Mundial é isso: não tem sede, não tem estatuto, nem prédio, nem emblema, senão vários. É composta de iniciativas ora isoladas ora conjuntas, com vários líderes, dispersa entre os países e ao longo da história recente. É uma onda, uma tendência: só que do mal..

Esse mal foi percebido e alertado pelo Papa Bento XVI, no livro-entrevista “Luz do Mundo” ao jornalista alemão Peter Sewald:

“ A verdadeira ameaça diante da qual nos encontramos, é a de que a tolerância seja abolida em nome da própria tolerância. Há o perigo de que a razão, a chamada razão ocidental, afirme finalmente ter descoberto o que é justo e apresente uma pretensão de totalidade que é inimiga da liberdade. Creio que seja necessário denunciar com força esta ameaça. Ninguém é obrigado a ser cristão. Contudo, ninguém deve ser constrangido a viver segundo a nova religião, como se fosse a única e verdadeira, vinculante para toda a humanidade “

Talvez o exemplo mais concreto do que a ONU gostaria de implementar no mundo, seja uma nova versão de Nowa Huta, um projeto de “Cidade sem Deus” que o governo comunista polonês, durante a guerra fria idealizou, como “modelo” de sociedade marxista. Lá era proibido construir Igrejas. Mas os operários da cidade resistiram e levantaram uma cruz de madeira num terreno onde gostariam que fosse construída uma Igreja. Um bispo polonês, conseguiu dobrar os comunistas, celebrando uma missa campal na Noite de Natal de 1963 : Karol Wojtila.

Claro que esse modelo caducou. Não se pensa mais em derrubar Igrejas ou proibir suas construções, mas em anular o Cristianismo em particular, a Igreja Católica, fazendo-a rezar a cartilha de uma sharia laica,(6) relegando à Igreja, o papel, como disse o Papa Francisco no início de seu Pontificado, de uma “ONG Piedosa”.

Entre Respiradores e Cestas básicas

É grande a tentação de apresentar dados com projeções sobre os efeitos na renda e no emprego, mas a Economia nunca esteve tão sujeita ao imponderável como agora. Em duas semanas as tabelas e gráficos projeções precisam ser refeitos.

Num primeiro momento, pareceu mais prudente parar a atividade econômica e dar socorro financeiro às pessoas e às empresas, pois aumentar o número de leitos nos hospitais e comprar respiradores é muito mais difícil, do que fornecer cestas básicas. E os doentes já estavam morrendo.

Saindo do Plano Piloto em direção a Ceilândia, eu ouvi no rádio do carro, naquela tarde de Março (7), o Ministro Paulo Guedes anunciando R$147 bilhões de socorro emergencial. Para se ter uma ideia, a meta de déficit primário para 2020 era de R$124 bilhões antes da pandemia. Somente essa soma anunciada por Guedes, ( que foi só a primeira “remessa” ) jogava o déficit para o espaço! Quem conhece a cidade de Brasília, sabe como é o céu por aqui: não há montanhas e o horizonte é largo. O firmamento, depende de onde se está, parece que vai desabar.

Naquela tarde, a sensação era essa: uma sensação de fim de mundo e do céu desabando. Com um pequeno flash na história, eu tive a certeza de que essa era a maior operação de salvamento já feita na economia brasileira e certamente, do mundo.  O Plano Marshal (8), certamente havia ficado para trás. Uma sensação de “fim de mundo” e o céu ainda mais agora, parecendo desabar.

Claro que esse socorro foi insuficiente, chegou atrasado e foi mal distribuído. Não evitou muitas falências. Economistas de grandes instituições começaram prevendo algo nos níveis da crise de 29. Creio que essa comparação é anacrônica. É diferente o consumo e a produção, é diferente a tecnologia e a velocidade em que as mudanças acontecem.

Mas isso pode nos trazer surpresas. Um grande salto na tecnologia nacional e a necessidade de buscar soluções de produção e serviços, de um modo melhor que o planejamento dos governos, pode trazer mais oportunidades de trabalho e renda do que as que estão desaparecendo. Deus permita que o saldo seja positivo…

O Brasil já está gastando um dinheiro que a rigor, não existe.(9)  Os planos econômicos, também  não deixam de ser alquimias feitas para preencher todas as lacunas que surgem, com essa quebra brusca e em larga escala na renda e no emprego.

No máximo, o governo pode atualizar os números e calibrar as projeções, depois planejar e dar incentivos, mas isso, não garante a recuperação. Com esse movimento generalizado de pessoas retendo dinheiro pelo temor do futuro, temos como resultado um forte freio no consumo e no investimento.  São os chamados choques de demanda e de oferta

As recessões anteriores,  trouxeram ao seu fim, em particular, na Segunda Guerra, uma onda de otimismo e euforia, mas essa, traz o medo. Agora me lembro do slogan do Governo Sarney em 1986, por ocasião do lançamento Plano Cruzado: “Tem que dar certo”. Não deu certo.

Slogans são motivos de piada no Brasil, como está sendo agora, com o “fique em casa”.

No artigo anterior, coloquei em descrédito os “especialistas”, não nas suas competências, mas nas suas supostas capacidades de taumaturgos e vou continuar assim. Economistas renomados, afirmam que não é tão preocupante, o governo se endividar, desde que a relação PIB/ Dívida pública se mantenha estável ao longo do tempo, ou seja: que a demanda por títulos públicos se mantenha constante para o governo poder rolar a sua dívida e que o PIB se mantenha no mesmo patamar ou aumente na medida em que aumente a dívida.

Mas como e PIB pode crescer com as pessoas receando gastar ( isso levando em conta os  que não perderam renda ) e os empresários receando investir? Ficamos dando voltas…

Prefiro ficar apenas – ao menos para o futuro – com três certezas econômicas:

1 – As pessoas, mesmo as mais pobres e as empresas, mesmo pequenas, precisam guardar algum dinheiro, ainda que pouco;

2 – Em relação ao Brasil, não vale a pena ter tantos direitos trabalhistas. À essa hora, os demitidos não teriam FGTS, nem 13°, nem Aviso Prévio, mas teriam mais rápido seus empregos de volta. Com tantas amarras legislativas, com tantos custos adicionados à contratação e empregados, alguém acha que os empregos irão voltar no mesmo ritmo em que caíram?;

3 – O Governo é caro demais. Não faz sentido num país tão pobre, uma categoria de funcionários públicos tão numerosa e com salários tão altos e emprego vitalício. Os governantes precisam discutir esse assunto com coragem.

E por fim uma grande certeza. Seria a número quatro, mas aqui a trato como um “bônus”, de quão especial e infalível que é: As famílias brasileiras precisam ter mais filhos. Um baby boom no Brasil e no Mundo salvará a Economia!.

Não deixa de dar um certo sinal de esperança, que as crianças e os mais jovens, estejam menos sujeitos à covid-19, e diante de tantas pessoas morrendo, o nascimento de uma criança é um sinal de esperança renovada.

Veríamos o aumento do consumo de fraldas, vestuário e mobiliário infantil, brinquedos, materiais de construção, casas maiores, carros maiores, o PIB crescendo de maneira sustentada, a arrecadação de tributos crescendo sem aumento de carga tributária! Isso traria desafios de infra-estrutura com certeza, mas que desafio bom!

E agora, que nos ouçam as feministas e os ecologistas ( não serão mais os únicos a falar ) que acham que uma criança é uma “ameaça” ao planeta, quando ao contrário é a salvação. 

Fica aqui esta palavra de esperança.  Tenho minhas dúvidas se o que nos espera lá adiante, é apenas a morte e a miséria. Não precisa ser assim.  Esse é o meu presente para o leitor que me acompanhou nesta leitura até o fim: esta dúvida.

 

                                         Ceilândia, 08 de Julho de 2020

 

 

Com minha gratidão ao meu amigo e historiador Edison Minami que me deu uma valiosa orientação para entender os meandros da Geopolítica e da Nova Ordem Mundial, ao meu irmão Leandro por guardar com cuidado meus arquivos, o que valorizou muito este ensaio e à minha esposa Josi, ( te amo ) que suportou com paciência as incontáveis vezes em que eu disse a ela que o artigo estava quase pronto. Quando eu disse que havia terminado, ela respondeu: “estouraria uma champagne se tivesse agora”

Notas de Rodapé:

(1)https://www.bol.uol.com.br/noticias/2020/05/20/lula-entrevista-coronavirus-ainda-bem.htm

(2)https://www1.folha.uol.com.br/colunas/ilona-szabo/2020/04/o-mundo-pos-covid-19.shtml

(3)https://www.youtube.com/watch?v=3bXWGxhd7ic  / https://youtu.be/3bXWGxhd7ic

(4)https://internacional.estadao.com.br/noticias/geral,a-sombria-origem-do-coronavirus,70003278504

(5)Marco Túlio Cícero, De re publica, 3, 22, 33: Scripta quae manserunt omnia, Bibliotheca Teubneriana fasc. 39.ed. K. Ziegler (Leipzig 1969) p. 96.

(6) Sharia: Código de Leis Islâmico. Presente em alguns países de maioria muçulmana, é baseado no Alcorão, Livro Sagrado do Islã e que rege não somente a vida religiosa, mas a vida civil dos cidadãos, inclusive os não islâmicos, afetando gravemente a liberdade religiosa.

(7) https://veja.abril.com.br/economia/coronavirus-paulo-guedes-anuncia-r-147-bilhoes-em-medidas-emergenciais/    https://www.camara.leg.br/noticias/663987-ministerio-projeta-deficit-primario-em-r-5405-bilhoes-devido-a-pandemia/

(8) https://www.infomoney.com.br/economia/o-que-foi-o-plano-marshall/

(9)Uma interessante entrevista com Henrique Meirelles sobre “imprimir dinheiro” : https://www.bbc.com/portuguese/brasil-52212033

Links de reportagens relacionadas ao tópico sobre a China:

https://www.cell.com/cell/fulltext/S0092-8674(20)30820-5

https://www.uol.com.br/vivabem/reuters/2020/06/15/mutacao-em-novo-coronavirus-aumenta-chance-de-infeccao-diz-estudo.htm

Mutação em novo coronavírus aumenta chance de infecção, diz estudo

https://globoplay.globo.com/v/8672928/

https://www.bostonglobe.com/2020/04/06/opinion/chinas-three-body-problem/

https://oglobo.globo.com/mundo/contexto-china-tentou-abafar-alarme-sobre-coronavirus-no-inicio-mas-depois-retardou-sua-disseminacao-global-24314761

https://noticias.r7.com/saude/nobel-de-medicina-diz-que-novo-coronavirus-surgiu-em-laboratorio-17042020

https://www.hipercultura.com/conheca-o-foie-gras/

https://www.infomoney.com.br/colunistas/economia-e-politica-direto-ao-ponto/fatos-mostram-que-o-governo-chines-tem-responsabilidade-na-pandemia-do-covid-19/https://www.poynter.org/fact-checking/2020/the-2019-coronavirus-virus-lands-in-the-u-s-after-killing-17-and-taking-eight-to-prison/

https://noticias.r7.com/saude/nobel-de-medicina-diz-que-novo-coronavirus-surgiu-em-laboratorio-17042020https://veja.abril.com.br/mundo/coronavirus-faz-china-suspender-viagens-para-o-exterior/

Publicado por: algosolido | 7 de junho de 2020

O Corona visto de Longe.

anjo no topo da cidade

Sobre os ombros do anjo…

Não sei se estou mais perto do paraíso, mas parece o inferno lá embaixo.  Essas ruas nunca foram pavimentadas com ouro.Bem-vindo à cidade mais solitária do  mundo. Não é bom pra você, querido, não é bom pra você agora.
Continue subindo as escadas. Não sei se vai me amar por isso, mas acho que não deveríamos sofrer. Só há uma coisa que podemos fazer a esse respeito. Me leve para o topo da cidade…e me ponha sobre os ombros do anjo.
Veja como aquele prédio ali está próximo. Há uma grande chama ao norte da cidade, vejo você caminhando na rua com ela.Vejo suas luzes acendendo e apagando. Ela não te faz bem, querido, ela não te faz bem agora.
Olhe, estou aqui com a escada.Me leve para o topo da cidade Me leve para o ponto mais alto da cidade, a mais um passo para o ponto mais alto da cidade,
…e me ponha sobre os ombros do anjo.”
Top of the City – Kate Bush

Quando olhamos de longe, de preferência de um ponto muito alto, podemos alargar nossa visão dos acontecimentos  e ganhar perspectiva. Talvez,  fique mais fácil enxergar onde está a verdade. Já que de perto, parece impossível.

Certo dia, um amigo me apresentou a seguinte alegoria: duas pessoas discutem por muito tempo, cada uma com suas certezas, sem ceder um só “milímetro” até que se forma um “muro” entre elas, encobrindo a visão. Para se ver novamente, será necessário um afastamento. Então se pede que cada uma leia o mesmo livro e discuta sobre o texto, não sobre elas mesmas. As conclusões neste caso,  seriam desapaixonadas, diferente da que teriam se colocassem os holofotes sobre si mesmas. Gostaria de propor aos leitores esse afastamento.

Uma história real ocorrida há pouco mais de 30 anos, servirá como ponto de partida : uma jovem casou-se com um rapaz que logo no inicio, se revelou  homossexual. A moça – católica – procurou um tribunal eclesiástico para pedir à Igreja o reconhecimento da nulidade. O rapaz era mesmo homossexual. Tudo  ia “bem”, na medida do possível, até que a esposa resolveu “inventar” uma testemunha: pediu a um amigo de infância que testemunhasse no tribunal dizendo ser “amante” do seu marido. Acertadamente, o amigo recusou. Felizmente, a Igreja acabou por reconhecer a nulidade, sem que fosse utilizado o expediente nefasto.

Nesta crise do coronavírus, estamos vendo algo semelhante: pessoas que mesmo dizendo verdades, também estão mentindo. Isso causa imensa confusão. Muitos relatam o que ouviram ou leram, repassando aos outros, sem se importar com a veracidade, talvez desconfiem, mas não se importam: essas estórias reforçam as suas narrativas, e isso basta para eles. Dizer a verdade, apenas com argumentos sólidos, não parece ser apaixonante.

Publiquem os resultados!

Cada vez me parece menos confiável a expressão “especialista”. O que significa ser um especialista, quando cada lado confere protagonismo a um estudioso que afirma o contrário do outro?

Não o contrário no todo é claro, mas afirmações antagônicas sobre a gravidade da pandemia, a forma de tratamento e a conveniência ou não do isolamento social. Ainda que eu fosse um infectologista de renome internacional, o que acabaria importando, tanto para a imprensa, quanto para boa parte dos chamados influenciadores digitais, é com qual corrente política me identifico. É a partir deste critério que uns são considerados especialistas e outros, não.

Assim, na mídia mainstream, determinados estudiosos sequer são entrevistados, mas ao contrário, é a imprensa que dá seu veredicto, atestando se estamos diante de um especialista ou um de um “charlatão”. Talvez se trate mesmo de um charlatão, – ou não –  mas não é o jornalista ou o canal de TV que está em condições de dar uma palavra final, sobre uma área de conhecimento que não domina e ainda por cima, está em pleno estudo. Outras vozes precisam ser ouvidas.

Aqui, se deve dar nome aos bois: a mídia dominante, a que chamo de “mainstream”, é de  esquerda e o governo atual, de direita. A guerra de narrativas está instalada. Guerra que já existia antes da pandemia e era cultural, focada nos valores e costumes, não tanto na economia, se bem que nesta crise do coronavírus, abriu-se um flanco também no debate econômico.

E a “ciência” se tornou uma espécie de nicho particular de grupos de esquerda, que pretendem se sentir legitimados perante a opinião pública, para empurrar de “baciada” a propagação de suas ideias criminosas quanto ao aborto e à ideologia de gênero. A pandemia se apresenta então, como uma oportunidade de ideólogos marxistas de reforçarem e consolidarem a sua posição.

Tal panorama,  motiva grupos de direita a usar todos os tipos de armas, para derrubar a hegemonia esquerdista na formação da opinião pública. Só que os instrumentos nem sempre são corretos. A mentira é um atalho perigoso: “funciona” para a esquerda, que mente repetidamente e de forma “profissional”, pois já conta com know how e estrutura ( quase toda a imprensa,  universidades e ambientes culturais, estão a serviço da esquerda ) para enganar com “elegância” e aparência de verdade. Já para a direita, a mentira desmoraliza, pois quando mentem , o fazem de forma tosca, “amadora” e facilmente são desmascarados.

Há muitas análises comparando estratégias de contenção de contágios, curvas de mortalidade, etc. Sobre tudo isso, arrisco apenas um palpite “técnico” : Não há modelos de análise confiáveis. Poderemos quando muito, saber depois, qual seria a medida mais acertada e não antes.

A mera comparação dos contágios e mortes entre um país que adotou e outro que não adotou o isolamento social, durante a pandemia é inconclusiva. Essa comparação só faria sentido entre dois países exatamente iguais, um adotando quarentena, e outro não, sendo que um é praticamente a duplicação do outro:

  • A mesma população;
  • A mesma pirâmide demográfica,
  • O mesmo clima;
  • O mesmo PIB; (1)
  • O mesmo IDH; (2)
  • A mesma renda per capita;
  • A mesma estrutura hospitalar;
  • O mesmo percentual de população testada;
  • O mesmo tipo de tratamento (cloroquina para todos ou cloroquina para ninguém…)
  • De preferência, dois governos que pensam exatamente a mesma coisa (sim….”surreal” neste caso);
  • …e rigorosamente, o mesmo momento em que o coronavírus contaminou o primeiro cidadão.

Tal situação não existe. Não se pode colocar um pais num laboratório. As melhores estudos, têm sua utilidade, mas seriam limitados. Tudo o que se pode fazer no momento, são escolhas. E escolhas pela prudência. Não sabemos o que é rigorosamente científico.

Usemos um modelo imaginário para avaliar os efeitos sobre a Economia. Claro, com e sem Quarentena, ou com medidas de isolamento bem limitadas. Estou considerando que existe sim, dicotomia entre saúde e economia. Sejamos transparentes : não se pode atuar com 100% de dedicação nas duas frentes. Portanto, entre doentes e desempregados, em qual grupo morrem mais pessoas?

A resposta a essa pergunta, poderia ser a chave para se decidir pelo desligamento ou não da Economia.  O que faríamos com a resposta? E se a mortalidade fosse maior no grupo dos desempregados? Deixaríamos de dar total atenção ( isso significa sim, relaxar ) no controle da pandemia, assumindo a possibilidade de um número maior de mortos, neste momento, pela expectativa de um número muito maior de mortos que viria depois?

As equações seriam essas :

Sem saber o futuro, tal como está ocorrendo na realidade :

Cenário 1 : Atenção Preferencial à Saúde e Secundária à Economia: Número de mortos, incerto nos dois grupos.

Estimando o futuro : sem interrupção das atividades econômicas, garantindo o foco na produção e emprego, adotando em segundo plano, as melhores medidas possíveis na prevenção da pandemia:

Cenário 2 :

Número de mortos MAIOR na Pandemia e MENOR no desemprego

Cenário 3 :

Número de mortos MAIOR na Pandemia em relação ao cenário 2 da Pandemia, e;

Número de mortos MENOR no Desemprego, em relação ao Cenário 2 do Desemprego.

Os cenários 2 e 3 são os resultados dos modelos de análise que acabei de afirmar que não existem. São hipotéticos, apenas para reflexão. No cenário 2, teríamos o respaldo técnico para a postura adotada na maior parte dos países. No entanto, os críticos do isolamento social, rejeitam essa possibilidade. No cenário 3 , temos um resultado que nos parece racional: o número de mortos pela pandemia, aumenta e o número de mortos pelo desemprego, diminui. Isso é obvio, pois fazendo a economia funcionar, haverá menos desemprego e com isso, menos fome e finalmente, menos mortes. Trata-se de uma análise “vertical” ( cenário 3 em relação ao cenário 2 ).

Mas, omiti a análise horizontal ( que fiz para o cenário 2 ), pois qualquer dos resultados, traz um grave problema de ordem moral: aumenta o número de mortos pela pandemia e diminui o número de mortos pelo desemprego, não considerando neste caso, a comparação lateral entre os grupos. Aceitando a premissa dos críticos da Quarentena, repito a pergunta: A expectativa futura de morte de um número maior, justifica AUMENTAR a expectativa presente de morte de um número menor?

Aqui se impõe uma questão politica, também. Alguns grupos de direita são contra qualquer medida de controle, pois se trataria de um ensaio de ditadura comunista. Logo, quarentena é comunismo, lockdown, é comunismo, uso de máscara ( sim, máscaras!), também é comunismo.  Claro, que neste parágrafo, estou saindo um pouco do caminho da racionalidade, mas no “filme” desta pandemia, a paranóia tem sido um grande coadjuvante.

E quanto ao tratamento ? Há uma grande resistência ou má vontade no tocante às pesquisas sobre a cloroquina. No entanto, os defensores deste remédio, deveriam parar de se espernear por essa terapia. Passam a impressão de que estão interessados mais no casuísmo politico do que na salvação de vidas. A “bola” está com a OMS, que é um organismo formal da saúde.

– “Ah, mas a OMS é comunista!”. – Que seja!

Confiar na comunidade médica que lida com pessoas, não é o mesmo que confiar na comunidade científica queem parte –  pode sim atuar com viés ideológico, pois lida com ONGs feministas, governos de esquerda, bilionários de interesses escusos  que financiam ( bancam! ) pesquisas de empresas e universidades e mesmo a OMS, um organismo incompetente, marxista, e portanto, criminoso (3), portanto, não deve causar espécie que em alguns casos os médicos digam o mesmo que a OMS. Nem tudo é conspiração. É preciso ter discernimento. O uso de máscaras por exemplo, é uma medida sanitária e não ideológica, ainda que cause euforia nos seguidores de Marx e Fidel Castro….

Estariam os médicos deixando morrer  pessoas conhecendo e não ministrando um medicamento que poderia salvar vidas, só para derrubar um  governo de direita?  O interesse ideológico da esquerda existe. Eles “adoram” a ideia da quarentena. Isso é para eles, um simulacro de controle estatal, ( por isso os paranoicos, tem sim alguma razão ), mas o foco da esquerda se situa em particular no Pós Covid-19. É aí que deve se concentrar o debate.

Não é de hoje que a ciência adota um viés politico com aparato cientifico. Talvez, esteja fazendo isso agora. O tempo dirá.  Aquelas ilustrações de Louis Pasteur, solitário em seu laboratório, entre microscópios e frascos de vidro, correspondem a uma visão romântica que não pertence mais à realidade. E as universidades estão “sequestradas” e são hoje um território da ideologia marxista.

Em 1988(4), uma polêmica sobre o Santo Sudário, ilustra bem essa situação e pode servir de norte: o famoso lençol que teria sido a mortalha que envolveu Jesus – submetido ao teste de carbono14 – seria uma peça da Idade Média, segundo conclusão dos pesquisadores. Foi um experimento cercado de procedimentos suspeitos. Mas a Igreja – interessada no assunto – o que ganharia questionando os cientistas? Era tudo o que a imprensa queria. E isso foi observado na época.

Ao ser notificado,  o Papa João Paulo II, serenamente teria dito: “Publiquem os resultados”. Cinco anos depois, a própria comunidade cientifica considerou o teste falho. Em 1998, numa visita pastoral à Arquidiocese de Turim, numa visita de Veneração ao Santo Sudário, o hoje, São João Paulo II, pronunciou estas palavras:

 “O fascínio misterioso exercido pelo Sudário impele a formular interrogativos sobre a relação entre o Linho sagrado e a vicissitude histórica de Jesus. Não se tratando duma matéria de fé, a Igreja não tem competência específica para se pronunciar sobre essas questões. Ela confia aos cientistas a tarefa de continuar a indagar, para chegar a encontrar respostas adequadas aos interrogativos conexos a este Lençol que, segundo a tradição, teria envolvido o corpo do nosso Redentor quando foi deposto da cruz.

A Igreja exorta a enfrentar o estudo do Sudário sem posições preconcebidas, que dão por comprovados resultados que tais não são; convida-os a agir com liberdade interior e solícito respeito quer pela metodologia científica quer pela sensibilidade dos crentes”

É uma lição de sabedoria.

Ceilândia – Distrito Federal, 07 de Junho de 2020.

Neste artigo tratei de assuntos que necessitam um olhar mais aproximado, como quem usa uma “lupa.” As teorias de conspiração tem uma base verdadeira que merece ser depurada. A China não pode ser ignorada. O futuro da Economia e do Emprego, as disputas políticas, e sobretudo, compreender o que Deus quer de todos nós com essa Crise Mundial. Há muitas dúvidas, mas também existem certezas. Não estamos “sem chão”. Há um material já escrito que será condensado em mais dois ou três artigos, à guisa de continuação, e será publicado nos próximos dias.

Meus agradecimentos a Humberto Rodrigues, fotógrafo de São Caetano do Sul e grande amigo, pela arte na imagem do anjo, que ilustra a tensa e belíssima letra de Kate Bush…

Top of the City – Kate Bush:

https://www.youtube.com/watch?v=C27omnj0m9k

NOTAS:

(1) PIB – Produto Interno Bruto : é a soma de todos os bens e serviços finais produzidos por um país, ou região, expresso em valores monetários.

(2) IDH – É um medidor de qualidade de vida de uma população. Composto de uma “cesta de índices”, que inclui expectativa de vida, PIB, renda per capita e escolaridade. De acordo com a fórmula estabelecida, seus resultados variam de 0 a 1. Quanto mais próximo de 0 o IDH de um país, pior o qualidade de vida, quanto mais próximo de 1, melhor a qualidade de vida de seus cidadãos.

(3) https://pt.aleteia.org/2020/04/06/oms-considera-o-aborto-como-servico-essencial-mesmo-na-pandemia-de-covid-1- 9/

(4) Revista “PERGUNTE E RESPONDEREMOS” – Edições “Lumen Christi” – Rio de Janeiro – Nºs: 320/Jan-1989;  322/Mar-1989; 329/Out-1989; 341/Out-1990 e 378/Nov-1993

 

Publicado por: algosolido | 23 de dezembro de 2015

Para um Bom Natal

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O fim do ano sempre me alegrava. Um pouco triste, se despedir da professora e dos colegas de classe, mas estava chegando o Natal. Logo os pais voltariam das fábricas carregando suas cestas com castanhas, panetones e vinho. Ao andar pelas ruas à noite, podia-se se ver de dentro das casas, as árvores iluminadas através vitrôs e janelas meio abertos por causa do calor. Os jingles de TV e de rádio, com melodias tão inspiradas, eram autênticas canções natalinas. Ainda mais hoje, depois de décadas, já purificados do motivo comercial.

Na manhã do dia 25, eu e meus irmãos achávamos nossos brinquedos debaixo da cama. Ainda havia um livro e bombons e balas que raramente víamos ao longo do ano. Da cozinha, vinha o cheiro do pernil assado e nas ruas, as crianças estreavam seus brinquedos. Não havia padarias. O pão e o leite eram entregues na porta de casa antes de clarear o dia e no Natal, vinham acompanhados de pão doce recheado com frutas. Eu não precisava me preocupar com nada. O Natal era bom por si só. Bastava tirar boas notas na escola e aguardar.

Claro que eu não sabia que o Papai Noel, era a empresa onde meu pai trabalhava e descobrir isso, não estragou minha alegria. Com o passar do tempo, a festa natalina se resumiu a uma boa mesa. A árvore muito velha foi jogada fora e um “vácuo natalino” se instalou. Foi quando decidi comprar um pinheiro natural (gosto de árvore, feita de árvore) e começar tudo de novo. O Natal não mais aconteceria por si só. Para ser bom, eu precisava fazer algo. Para mim e para os outros. Estava começando a entender o Natal pelo seu sentido.

*  *  *

– É Natal! É Natal! Canta o coro infantil no shopping.

– Natal é só comércio! Dizem.

– Adeste Fidelis! Canta o coral da Igreja!

– Natal é uma farsa capitalista! Continuam.

São um tipo particular e bem moderno. Gostam de caviar e falam muito dos pobres, mas uma filantropia que olha o corpo e ignora a alma. Pairam o olhar, como que levitando por cima das pessoas, que enchem seus carrinhos no supermercado com calóricos produtos da época, ou saem das lojas com sacolas cheias de camisas e sapatos novos. Brinquedos, não muitos : por falta de filhos, estão ficando escassos. Estranho, para uma festa que existe por causa de uma criança.

Claro que estas cenas não traduzem o Natal, mas menos ainda, essas caras melancólicas, aborrecidas com a proximidade do dia 25. Se estivessem convencidos de que isso não é sinal de inteligência, talvez começassem a sorrir.

Vivemos tempos sofisticados: já se deram conta que atacar o Papai Noel nem sempre é bom negócio. Para quê atacar aquele que pode ser um aliado? A artilharia pesada se volta agora contra o Menino Jesus. Tudo sob o manto da “liberdade de expressão”. Agem como um Herodes, apegado ao seu reino e com medo de uma criança.

Outros, preferem mostrar um Natal disperso e confuso : “magia” para o comércio, “ação social” para as ideologias.

Sentimentos tão contraditórios não acontecem por pouca coisa.

Com o Carnaval, é diferente. Os que gostam, entram na festa, os que não gostam, ignoram. O que é “sagrado” para o carnaval está preservado. Há uma atmosfera de consenso. Os carnavalescos do alto de suas cátedras, não são contestados. Os quatro dias de festa pertencem a eles. O Natal no entanto, muitos querem se apropriar, num esforço para adulterar, abafar as consciências e tornar obsoleto o sentido religioso.

Um sinal disso, vemos nas Crônicas de Natal. Entre os autores de prestígio, predominam textos amargos e irônicos. Em 2011, o escritor Ivan Lessa, então colunista da BBC, escreveu uma anti-crônica — também não gostava de Natal — jogando “areia na presepada”, ao dizer que até os grandes nomes da nossa literatura, quando escreviam sobre o Natal, faziam seus piores textos do ano. De fato, lendo Ruben Braga, “.se deixando ficar sozinho ( na noite de Natal ) numa confortável melancolia. “, Drummond de Andrade, sugerindo a idéia de um Menino Jesus assaltante de rua, e a celebrada Clarice Lispector, brincando com o nascimento de Cristo, apresentando uma personagem que engravida — sem saber como — e vive com o marido, a fantasia de serem Maria e José, numa crônica sangrenta e cheia de dor; vejo que Lessa tinha razão.

Tristes autores. Nada lhes inspira a escrever sobre um personagem como o avarento Ebenezer Scrooge, do excelente Conto de Natal, de Dickens. Scrooge tão apegado estava com o seu dinheiro, que a sua total indiferença não lhe permitia hálibis ideológicos quando os tres espíritos o visitaram na noite de Natal.

Paradoxalmente, isso o ajudou a mudar totalmente a sua vida. Por isso, — convertido — não se contentou apenas em ajudar um menino pobre, mas também em pedir perdão ao sobrinho rico, e aprender com ele a ficar feliz e celebrar o Natal. Essas duas redenções de Scrooge são importantes. Scrooge era culpado e pronto. Não tinha subterfúgios.

A vida real também nos conta uma bela história de Natal. Durante Primeira Guerra Mundial, quando soldados alemães e britânicos, pararam para uma trégua. Entrincheirados na neve, estavam muito próximos. Uns 100 metros. Era Noite de Natal, e os alemães começam a cantar “Noite Feliz”. Os soldados ingleses ouviram a música e gritaram, “Feliz Natal!”, ao que os alemães respondem a mesma saudação e pedem : “Nós não atiramos, vocês também não”. Durante seis dias, enterraram os mortos, rezaram o Pai Nosso. Havia um padre capelão do lado inglês. Celebraram o Natal juntos. E jogaram várias partidas de futebol. Nas semanas seguintes, passaram a dar tiros para o alto, não queriam mais se matar. O fato histórico virou filme.

Tudo começou com o desejo de celebrar o Natal. Não buscaram a paz. A paz foi conseqüência.

Uma grande lição para pessoas e nações, que hoje — sem sucesso — buscam uma paz sem Deus. Todos os acordos que fazem são inúteis. A paz é como o prazer : não existe isoladamente. A paz é consequência de Algo maior. Busca-se a paz, como se busca a satisfação, como se fosse um item na prateleira. Buscam a paz e não a acharão.

A Paz do Natal não vem das frases de efeito, mas da celebração do nascimento de Jesus. Do contrário, será apenas “espirito de natal”, essa coisa genérica que não sei o que é, mas deve estar dentro das caixas de perfume que se abrem e saem luzes, nos ônibus iluminados dirigidos por um Papai Noel, nas decorações dos shoppings que evitam os Presépios para não incomodar os laicos.

No ano passado, perguntei a um amigo, como lembrar as pessoas distraídas com presentes, conversas em dia e pratos na mão, como lembrar as pessoas que é Natal, o verdadeiro Natal :

“Caprichar no Presépio”, ele respondeu.

Não esperava uma resposta tão simples e certeira. Pode-se escrever um poema, uma crônica, ou mesmo um Tratado de Teologia, simplesmente ao olhar para o Presépio. Talvez você não veja a hora da ceia acabar e todos irem dormir para ser o último a olhar para o Presépio — à essa hora, talvez no único lugar iluminado da casa — e dizer algumas palavras em silêncio. Que esse momento não seja prejudicado pelo péssimo costume de anos recentes de soltar fogos à meia noite — não podem esperar o Reveillon ? — Afinal, um menino nasceu, e o silêncio deveria ser quase que uma Liturgia.

Uma das mais belas mensagens de Natal que já li, faz referência a essa necessidade de recolhimento interior que o Presépio deve nos provocar. Foi escrita na Noite de Natal de 1902, pelo seminarista Angelo Giuseppe Roncalli, que viria a ser eleito como Papa João XXIII:

“Caiu a noite; as estrelas claras e brilhantes cintilam no ar frio; vozes altas e estridentes vindo da cidade chegam ao meu ouvido, vozes dos boêmios deste mundo que celebram com alegria a pobreza do seu Salvador. À minha volta, nos seus quartos, meus colegas dormem. E eu, continuo acordado, pensando no Mistério de Belém. Vinde, vinde Jesus, espero por ti “

Não posso me esquecer de que estar feliz no Natal, pode não ser nada fácil. Pense na situações de muitos, talvez possa ser a sua: se neste ano lhe faltou dinheiro, emprego, faltou saúde, faltou convivência famiiar, se faltou amizades, se muita coisa deu errado, se você não ganhou presentes ou não tem dinheiro para comprar para ninguém, ou não tem nem a quem dar um presente, e no entanto, está diante de pessoas comemorando o Natal, segurando taças de champagne na mão, sorrindo e comemorando seus lucros, porque neste ano lucraram amizades, lucraram dinheiro, lucraram sucesso, lucraram promoções no emprego, lucraram saúde e em tudo isso você só perdeu, talvez por culpa sua e talvez sem culpa nenhuma.

Isso não importa agora. Diga a Jesus: ” Meu Senhor, o meu Natal está sendo pobre, igualzinho ao seu. Que bom que vieste ao mundo assim, entre palhas e animais, assim não me sinto sozinho. Me sinto como esses pobres pastores ”

Nestes tempos de lojas lotadas, precisamos pensar num bom remédio para o consumismo, que é ajudar quem necessita. Em que medida ? Se não me engano, perguntaram à Madre Teresa de Calcutá, sobre quanto deveriamos ajudar: “Até doer” — respondeu ela.

No mais, esperar que não haja murmurações em família. Que não haja comparações, no caso de reuniões de famílias grandes, sobre quem colaborou mais para o jantar. Isso vai ajudar muito. Também será uma boa ocasião para ver bons filmes, ou ler livros com temas natalinos, nestes dias que antecedem o Natal.

Perdoar o pedir perdão. Que presente acessível ! Custa, mas todos temos a moeda para comprar !

Por isso, é bom lembrar que além de errarem conosco, também erramos. Mas, tudo é mais difícil quando se apaga a noção de culpa; doença dos dias de hoje, que faz muitos pensarem que os culpados são sempre os outros: os que destroem os rios, os que roubam os cofres públicos, os que maltratam as crianças — ( deixaram de fora quem pratica aborto ), os que derrubam florestas e extiguem animais. Num mundo assim, “sem culpa”, desaperece a percepção da necessidade da salvação, e a vinda de Cristo na terra se torna incompreensível.

Eu vou escandalizar, mas..como é bom sentir culpa ! Espero que me entendam. Não quis dizer que é bom praticar o mal, mas reconhecer que erramos.

Que fazer?

“Bora” fazer uma boa confissão, para estar preparado para este Natal.

Um Feliz e Santo Natal a todos !

Publicado por: algosolido | 17 de agosto de 2014

Caros Leitores,

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Sonhos e projetos no caminho…

Este blog não encerrou as atividades. Há muito ainda o que escrever mas estou em outros projetos que me impedem de produzir um texto com qualidade. Não gosto de escrever por escrever, me preocupo com o conteúdo e a fundamentação dos argumentos. Vejo com decepção que muitos blogs estão parados há três, quatro anos ou mais, o que significa praticamente a extinção. Há uma super oferta de textos na web para se ler diariamente o que acaba causando indiferença e as pessoas – mesmo, muitos leitores que prezam a qualidade – adiam as leituras indefinidamente preferindo conteúdos rápidos e instantâneos para consumir de imediato, muitas vezes superficiais. A falta de leitores desanima quem escreve e depois, tem a vida real propriamente dita : um blogueiro também tem que trabalhar, estudar, cuidar da família e se o blog não for o seu trabalho remunerado ( raramente o é ), acaba ficando para depois….

Mesmo assim, ter um dom ( cada um tem o seu ), implica numa missão. Espero neste fim deste ano, publicar mais um Conto de Natal e ainda outro ensaio que a exemplo dos já publicados, examina o comportamento da sociedade moderna, impregnada de ideologias que visam desfigurar a família. Essa é a missão dos meus textos: defender a Família. No ano que vem, deverei escrever mais que nos anos anteriores, até atingir outros temas. Quem sabe depois disso, publicar os textos em livro. Não vou me preocupar com o número de acessos e comentários. Gosto de pensar que alguém achou o Blog por acaso e encontrou algum sentido no que leu.

Um grande abraço !

Eduardo

Santo André, 17 de Agosto de 2014

Publicado por: algosolido | 20 de dezembro de 2013

A PEQUENA LOJA

 

 

Embora este Blog seja de ensaios, resolvi publicar um conto. Minha primeira ficção:  um Conto de Natal.

Aproveito para desejar a todos os leitores, um Feliz e Santo Natal…

 

 

 

A PEQUENA LOJA

PRESENTE

 

-Vítor, que brinquedo é esse?

-Não é um brinquedo, é um presépio. A gente monta quando chega o Natal, para comemorar o nascimento de Jesus…

-Natal é nascimento de Jesus?

-É. Você não tem presépio na sua casa ?

-Não…

 

 

* 23 de Dezembro *

Os dias quentes do verão demoraram a chegar este ano, pois até a metade de dezembro as chuvas traziam ventos frios e ainda podia se ver pessoas carregando algum casaco . Mas agora, a dois dias do Natal, o calor chegou de vez e as pessoas se apressam para as últimas compras de fim de ano:  a ceia, os presentes, a roupa nova, a viagem…. Os pontos de ônibus estão lotados de pessoas com sacolas. Ladrões andam por toda a parte de olho nas sacolas, bolsas e mochilas de pedestres desatentos. As lojas estão lotadas e se é difícil ser atendido, é facil ouvir os que as pessoas dizem, como marido brigando com esposa, dizendo que o enfeite do Natal do ano passado, ainda acende as luzes e não precisa comprar outro….( na verdade, ele está irritado, pois quer voltar logo para casa, lavar o carro e abrir uma lata de cerveja…). Uma moça bonita de óculos escuros, carrega um livro esotérico de auto-ajuda e pode-se ouvi-la dizer a uma amiga “ Odeio essa época, odeio Natal ! “

Os taxistas também reclamam : apesar de receberem muitos chamados de quem vai ao aeroporto ou às compras e chegarem ao destino já sendo aguardados por um novo passageiro, enfrentam um trânsito muito mais lento e acabam deixando de atender muitas chamadas: não ganham todo o dinheiro que poderiam ganhar nessa época de pessoas com os bolsos recheados. Sem contar aquelas mulheres que entram nos seus carros com suas amigas ou seus filhos, lotadas de sacolas e todos tomando sorvete e sujando os bancos…

Também há pessoas alegres, pois nem todos ficam deprimidos, estressados ou imersos no consumismo. Amigos de trabalho organizam “amigos-secreto” nas empresas. No final de expediente, os bares preferidos dos jovens, ficam lotados para as happy-hours onde bebem e cantam alegremente entre pacotes de presentes. Ao final do encontro, alguns trocam abraços demorados, pois só se verão novamente no ano seguinte… As lojas e as casas são enfeitadas, montam-se as árvores, deixando ambiente mais bonito para receber os parentes. Pessoas fazem planos, promessas, planejam viagens….As avenidas e ruas mais importantes, são especialmente iluminadas, e se não fosse pela ausência da neve, poderia se confundir com um cenário de filme natalino americano. Os porteiros de prédios ganham panettones e os balcões das padarias, ganham um componente inevitável: uma caixa de sapatos embrulhada em papel de presente, com alguns enfeites, uma pequena abertura, e um recado bem legível “CAIXINHA DE NATAL, OBRIGADO!” Cada um à sua maneira, com muito ou com pouco dinheiro, sabe viver essa época com alegria, sem reclamar muito…

Finalmente temos aqueles que,  mais do que dizer “ O Natal está chegando “, dizem: “Estamos no Advento”. São amigos, famílias, casais de namorados, grupos de jovens estudantes, religiosos, crianças e idosos, que se reúnem para as novenas nas casas ou nas paróquias. Também trocam presentes e decoram a casa. Também saem com os amigos e passam aborrecimentos no trânsito, mas a cada Domingo, quando o padre acende mais uma das quatro velas da Coroa do Advento, vivem uma expectativa interior: Jesus está chegando…

* * *

Nas travessas da Rua Marechal Deodoro, o centro antigo da cidade, existe todo tipo de estabelecimentos: lanchonetes, farmácias,      consultórios dentários e escritórios. A Marechal e os seus arredores, perdeu muito do seu  prestígio a partir dos anos 90 com a “invasão” dos shoppings em outras áreas da cidade. Um lugar que era passagem obrigatória para se comprar presentes, tomar um sorvete na praça Lauro Gomes ou comer pipoca na Praça da Matriz,  viu seus frequentadores tradicionais, preferirem o novo comércio que surgia na cidade. Ainda assim, o centro resiste, com agências bancárias, artigos populares importados e redes de lojas que garantem um grande movimento de pessoas, sobretudo no Natal. Alheio a tudo isso, Paulo só pensa em descansar. Ele não  comemora o Natal,  mas espera ansioso o fim do ano, pois a cidade fica vazia, o trânsito fica melhor e fica mais fácil suportar o calor. Pode ler seus livros e ver bons filmes. Da janela do seu escritório, olha o movimento das pessoas apressadas e pensa : “Amanhã depois do churrasco com o pessoal do trabalho eu realmente vou descansar, mas esse povo não”…

 * *

– Paulão, se você acreditasse em Deus, que milagre iria pedir ?

– Eu pediria para nascer meus cabelos de novo….

– A gente poderia fazer um acordo: você pede um milagre para nascer cabelos e eu,  para sumir a barriga….

– O seu “milagre” é fechar a boca, mas o meu…

– Deve ser chato pra você essa época, não é Paulão? Todo mundo desejando Feliz Natal, mensagens religiosas…

– Não precisa ser tão politicamente correto, Joel. Faça como os outros: considere-me um infeliz – disse rindo Paulo – dando a entender que não se incomoda com as mensagens natalinas que “inundam” a sua caixa de e-mails…

– Sei lá. Só quero respeitar você…

-Você já me respeita, mas para um cara que diz acreditar em Deus, e eu sei o que isso significa para quem acredita, você encara o meu ateísmo, como algo assim: “acreditar ou não em Deus”, “gostar ou não de futebol” Isso não me parece racional.

– Mas o que o “racional” tem a ver com religião ? – pergunta Joel, pondo toda sua capacidade do cérebro para trabalhar….

– As pessoas dão importância para a religião, meu caro. Na “vida eterna”, como eles dizem, não teremos jogos de futebol, mas teremos Deus, portanto se eu gosto ou não de futebol, não fará diferença lá no Céu,  mas se eu não acredito em Deus, posso ir para o inferno….

– Que isso cara ! Você é gente boa. Deus tem um lugar pra você lá no Céu…

– Você estava falando, Joel, de ficar cansado ou aborrecido com tanta mensagem religiosa no fim do ano, mas na verdade, eu me canso é de ver tanto Papai Noel. Não noto tanta religiosidade nas pessoas, apenas quando tem alguém doente na família ou precisam arrumar um emprego. Ora, se Papai Noel é uma lenda e o Menino Jesus, uma realidade, porque eles mostram tantos velhinhos barbudos vestidos de vermelho e escondem aquele que chamam de “aniversariante“ ?

– Porque para eles, o Menino Jesus é uma lenda e o velhinho de vermelho é uma realidade…!

– E para mim, tudo é lenda, Joel….

* * *

No fim da tarde, aquele clima de que o ano acabou, tomou conta de todos naquele escritório. O dia estava muito claro por causa do horário de verão, e Paulo sai sem pressa do escritório. Enquanto se dirige ao estacionamento, vai olhando o movimento das pessoas, quando passa em frente a uma pequena loja, um bazar, misto de papelaria, armarinhos e loja de presentes, onde lê este aviso na entrada:

 

FALTAM DOIS DIAS

PARA JESUS NASCER !

 

 

 

Paulo passa a andar devagar como quem vai parar. Quer olhar, ler por alguns segundos mais, mas segue andando. O recado o impressiona, não tanto pelo conteúdo em si,  pois falava de algo que é para ele uma lenda,  mas por que se afirmava de modo seguro.  “Quem escreveu”, pensou “parecia de estar falando de uma criança que se pode pegar no colo, que tem nome, uma criança de verdade“.

Paulo tem uma bela esposa e um menino de 7 anos. Priscila é de família católica, mas não se incomoda com o jeito de ser do marido e até vê “vantagem” em não ter que acordar cedo no domingo para ir à Missa.  Basta repetir de tempos em tempos, a fórmula “Deus está em toda parte”, que consegue dormir tranquila. Casaram-se não muito jovens e não conseguiram ter um segundo filho. Eles não querem mimar o menino, mas sentem grande dificuldade: o garoto é a alegria da casa. Por serem muito organizados, a casa está sempre em ordem. Impecavelmente em ordem. Assim, conseguem tempo para ler ou assistir a um filme juntos, após o garoto pegar no sono.

No quarto do pequeno Zezinho,  Paulo começa a mexer nos cadernos e desenhos do filho, enquanto Priscila está fazendo em alguma coisa na cozinha: há desenhos de árvores de natal e papais-noéis.  Começa a pensar que levam uma vida muito simples, na verdade, sem complicações. Seu filho não vai ganhar presente de Natal, portanto ele não precisa se preocupar com isso. Mas volta e olha para os desenhos e pensa em comprar um presente para o garoto, que já tem idade suficiente para comparar a sua vida com a de outros amiguinhos da escola ou do bairro. Quer ver o seu filho ter a alegria de receber um presente na noite de Natal – apenas isso –  mas prefere não contar sua intenção para a esposa, afinal, será apenas um presente…

* * *

* 24 de Dezembro *

Pela manhã na ida ao trabalho, Paulo passa em frente à loja que viu no dia anterior. Haveria algum presente que poderia comprar para o filho naquele lugar tão pequeno ? Não pensava em outro lugar, mas unicamente ali. A loja lhe causou ótima impressão. Tinha um estilo antigo; algo que ele via na infância: um tipo de comércio que foi sufocado pelas lojas de departamentos e depois pelos shoppings. Neste dia, trabalhará apenas no período da manhã. Raras ligações de algum cliente, que na verdade, eram desejos de boas festas em sua maioria. No mais, havia a expectativa pela confraternização de fim de ano.

– Bete, que horas fecha o comércio de rua no dia de hoje ?

– Depende. Algumas lojas acompanham os shoppings e ficam abertas até às 6 da tarde, outras fecham logo depois do almoço…

– Não posso sair tarde daqui..

– Mas o que precisa comprar ?

– Um presente

– Mas aqui, no centro ?

– Sim, numa loja aqui perto…

– Sai um pouco, compra e depois volta

– Não quero fazer assim. Quero comprar e levar logo pra casa…

– Superstição ? Simpatia ?

– Nunca !

– Tá certo, você é o racionalismo em pessoa !

– É um presente para o meu filho. Cismei com uma loja. Acho que vou encontrar algo lá que ele vai gostar…

– Mas você não vive dizendo que não comemora o Natal ?

– Sim, mas é só um presente. Não quero ele que fique sem ganhar nada de mim, enquanto outras crianças ganham dos pais. É uma brincadeira, esse costume de dar presentes. Quero apenas brincar com ele.

–  Então na sua casa, não tem nada de enfeites, de árvore, de ceia à noite, nem presentes ?

– Olha, costumamos almoçar na casa dos pais da Priscila: lá tem tudo: árvore, presentes, ceia. O meu filho já ganhou presentes dos avós, mas nunca de mim. É quase impossivel não termos contato com esses costumes, mas no começo do casamento, ela fazia algo em casa …

– E deixou de fazer porque você não gostava ?

– Quase isso. Eu andei falando umas coisas…

– E ela ficou magoada…

– Na verdade, eu não reclamava dela enfeitar a casa ou preparar uma ceia de natal, mas eu lhe passava na  cara essas coisas : “Você não vai à Missa, não confessa, não comunga, mas comemora o Natal… “.  Ela se aborreceu com isso e parou de vez, mas nem falamos mais nisso…

– E seu filho ? Você ensina ele a “não acreditar em Deus” ?

– Eu respeito a Priscila. Ela acredita em Deus, embora não seja muito religiosa, como tantos. Eu às vezes, a vejo ensinando o Zezinho a rezar e não me intrometo. Não quero chamá-la de incoerente de novo. Quero ver os dois felizes comigo.

– E agora vai comprar um presente de natal para o seu filho…

– Pois é…

– O seu primeiro “gesto natalino” ! diz Bete com um sorriso entusiasmado …

– Sim, mas um gesto exterior…

Nesse instante, Paulo se movimenta como quem vai se despedir dos amigos ..

– Já vai Paulão ? pergunta Joel

– Tenho que comprar um presente..

– Fica mais um pouco, as lojas ficam abertas até começo da noite…

– Tem uma loja boa aqui. Não quero ir no shopping…

– Rapaz, tudo tem que ser diferente com você !

– É para o meu filho. Nunca comprei um presente de natal para ele. Se não achar nada nesta loja vou para algum shopping….

Já são quase duas da tarde, entendendo que ficou um tempo suficiente no churrasco, vai se despedindo de cada colega de trabalho, e ouve de Bete : “ Boa sorte com o presente, Paulo ! Me permita desejar um Feliz Natal para você, sua esposa e seu filhinho ! Que Deus abençoe sua família !“

Paulo agradece à Bete, e discretamente, sai pela rua apressado, temendo ver a loja fechada. Numa pequena rua que desce para a Marechal, lá estava ela. E aberta! Entra rapidamente, com receio que já estivesse fechando. É recebido com um largo sorriso por um velho simpático de cabelos muito brancos, que guardava com muito cuidado algumas mercadorias que estavam no balcão. Aparentava ter quase 80 anos e se tivesse barba, seria um autêntico Papai Noel. Talvez as vendas ali, não fossem muito boas, certamente o dono era aposentado, mas trabalhava com muito prazer no seu negócio. Não havia o menor sinal de desleixo: balcão e prateleiras de madeira, não se via muitos produtos de plástico colorido, aqueles baratos e inúteis, e que costumamos chamar de “bugingangas”, mas vendiam artigos de armarinhos, papelaria, itens para o lar, algumas roupas, e…. brinquedos ! Como cabia tanta coisa num lugar tão pequeno ?

– Pois não, boa tarde ?

– Boa tarde, eu gostaria de ver algum presente para o meu filho. Um menino de 7 anos…

– Sim ! Aqui temos jogos e brinquedos. Vou mostrar para o senhor…

– Se puder me ajudar…não sou bom com presentes…

Nesse momento, se  aproxima uma senhora muito simpática que estava mais ao fundo da loja…

– É minha esposa…

– Boa tarde, minha senhora..

Ela respondeu com um sorriso e ficou de cotovelos no balcão, olhando o marido mostrar alguns brinquedos…

– O senhor só tem esse menino ? pergunta ela

– Sim, eu e minha esposa nos casamos com uma “certa idade” e não sei se poderemos ter mais um. É a primeira vez que compro um presente de Natal para ele. Não comemoramos,  não somos religiosos, mas eu quero que o meu filho tenha a alegria de um presente..

O casal ouviu com muita atenção, e o comerciante pergunta.

– O senhor.. como se chama ?

– Paulo…

– Sr Paulo, meu nome é Orlando e minha esposa, Regina. Essa é uma ocasião especial Espere um momento.

Ele vai a uma prateleira no lado oposto do balcão enquanto a esposa o acompanha com o olhar, como quem sabe o que  o marido vai fazer. Ele volta, muito sorridente com uma caixa contendo um caminhão de brinquedo, alegre com quem carrega um pequeno tesouro…

– Veja o que o senhor acha : é algo diferente de tudo o que tenho aqui….O fabricante não faz mais um como este. É um modelo bem diferente dos que temos hoje. É o último. Deve estar aqui há mais de vinte anos , mas está perfeito e na embalagem de fábrica. Um brinquedo simples como os outros daqui, mas de um tempo em que as coisas eram bem feitas, e já é considerado um item de colecionador, pois alguns “meninos” da sua idade, pagam algumas centenas de reais por um exemplar desse ! Aqui vendo na mesma faixa de preço que os brinquedos comuns e ninguém se interessou em comprar…

– Na verdade, ele nunca quis vender esse….corrige D. Regina, sem querer tirar o entusiasmo do marido…

– Sim, minha querida, mas ficava na prateleira, quase que escondido….

– Sr Orlando, pode guardar os outros brinquedos ! Encontrei o presente que procurava mas não sabia !

-Que bom que gostou…

-Já tive  um desses quando era criança. É impossível que eu encontre algo melhor!Eu tenho a impressão de estar levando para o meu filho o melhor presente do mundo !

Seu Orlando e Dona Regina sorriem, até certo ponto surpresos com a alegria que o presente provocou no pai.

-Este presente, merece um embrulho caprichado ! Pode deixar, que vou escolher um papel de presente apropriado para o um menino…

Enquanto a D. Regina vai embrulhando com toda a cerimônia, Paulo resolve comentar suas impressões da loja…

– Esta loja parece uma viagem no tempo. Já passei tantas vezes e nunca prestei atenção, parece que não existe mais nenhum comércio como o seu…

– Sim, ela  tem mais de 50 anos e é difícil achar outra parecida. Os tempos são outros, mas procuro me manter o mais próximo possivel do que era quando começamos. Não gosto de vender essas coisas mal fabricadas que rapidamente vão para o lixo, como aqueles guarda-chuvas de R$8,00, aqui eu não vendo…podem ser baratos, mas para mim é uma fraude…

-Esse negócio sustentou a nós e nossos filhos por muitos anos – emenda D Regina – mas agora, nós é que o sustentamos…

-Se não fôssemos donos do imóvel, já teríamos fechado as portas, mas moramos no andar de cima, gostamos deste trabalho, e….

-O Orlando vive dizendo que espera apenas um bom motivo para fechar…

Paulo recebe o embrulho mais bem feito que já viu na sua vida e depois de pagar, percebe que o casal o observa, como se quisessem falar ou ouvir algo mais…

-Vai ser um pena ver esta loja fechada.Espero que meu filho goste do presente, tanto quanto o pai dele gostou…- disse apertando as mãos de cada um…

D. Regina, sente vontade de dizer algo, tem receio, mas vendo aquele pai levando consigo um presente com tanto entusiasmo, para que seu filho se alegre na noite de Natal, fixa os olhos nele e diz:

– Meu senhor, como é bom quando chega a época do Natal e vemos o carinho que os pais dedicam aos seus filhos, pois durante todo o ano, a correria da vida, muitas vezes impede que a família se una e se confraternize…

– Sim, minha senhora, é verdade….

Ela, mais segura e com os olhos brilhando, continua…

– Jesus Cristo se fez pequeno e menino, para que pudéssemos ao menos uma vez a cada ano, pararmos, aquietarmos e refletirmos sobre onde podemos melhorar.Vejo que o senhor é um bom pai que se preocupa com seu filho, mas, mais importante que este presente tão lindo que o senhor leva para ele, é o amor que não cabe em seu coração, pois este amor que o senhor tem ai, é justamente uma fagulha do amor de Deus por nós, se fazendo gente como nós e vivendo o que nós vivemos. Ele sabe que o senhor é um pai maravilhoso e que deseja ao seu filho somente o bem.

– Eu vi o recado que vocês deixaram na entrada da loja, sobre faltar dois dias….devo confessar que me chamou a atenção…

– Bem, agora só falta um – responde Sr Orlando, percebendo Paulo muito pensativo…

-Vou indo agora…Boas Festas…Feliz Natal para vocês !

– Minha família também deseja ao senhor e toda a sua família um Feliz Natal, cheio de bênçãos.

-Obrigado Dona  Regina, Sr Orlando…

* * *

Paulo dirige seu carro pensativo. As palavras de Dona Regina, não foram apenas bonitas, inspiradas

Elas lhe pareceram…racionais. Precisamente uma passagem não lhe saía da cabeça : ”…pois este amor que o senhor tem ai, é justamente uma fagulha do amor de Deus por nós, se fazendo gente como nós e vivendo o que nós vivemos…”

Como queria, Paulo foi direto para casa, bem no meio da tarde. Depois de por o carro na garagem, pega o embrulho e vai entrando meio que escondendo e evitando fazer barulho.Assim  que Priscila aparece na porta, pergunta para a esposa com voz baixa:

-O Zezinho está na sala ?

-Tá no quarto, porque ?

-Comprei um presente de Natal para ele

-Presente? Sozinho? Porque não me chamou ?

-Não pensei nisso…..decidi ontem

-Devia ter me chamado! Você decide assim e faz, sem falar nada….

-É uma coisa simples. Só pra ele não ficar sem presente no Natal

-Mas eu tinha que estar junto. Eu queria escolher com você !

-Tá bom desculpa …

-Fácil falar…E Priscila vai para a cozinha, pisando firme…

Paulo rapidamente, vai para o quarto guardar o pacote com aquele sentimento de que fez algo errado. Até então tudo lhe pareceu perfeito: a descoberta da loja, a escolha do presente, uma conversa tão agradável com aquele casal, mas foi justamente ao chegar em casa, que passou a se sentir mal. E reconheceu que era culpa dele. A sua casa, era um lugar que uma briga não deveria durar mais que cinco minutos, portanto, precisava “consertar” logo o que fez…

-Filho, procura aquele DVD daquele desenho, “Carros” para você assistir com o pai…. – e vai direto falar com a Priscila..

-Priscila, desculpa…

-Você é ótimo em pedir desculpas. Acha que assim resolve e quer que fique tudo bem…

-Então me diz o que eu tenho que fazer  pra você me desculpar…

-Eu quero que você diga que é egoísta, cabeça dura, que se acha melhor que os outros, mas não é…

-Eu digo, eu digo..Eu sou egoísta, sou cabeça dura, me acho melhor que os outros, mas não sou….e digo mais: penso que não preciso dos outros, mas preciso, principalmente preciso de você, e prefiro que você faça algo errado comigo, do que eu fazer algo errado com você, porque não suporto te magoar,  nem magoar nosso filho…

Rapidamente Priscila abraça Paulo;

-Chega… tá bom, querido. Não sei se seria capaz de pedir desculpas de um modo tão sincero…

-…mas da próxima vez , não pede “desculpas”, pede “perdão”

-Perdão, Priscila…

-Da próxima  vez, Paulo….

Zezinho entra na cozinha e vendo os dois abraçados, os abraça também …

-Achou o desenho, filho ?

-Achei  pai! …vamos ver…

-Espera o papai tomar banho….

-Querido, vai ver o desenho – agora –  com o Zezinho, que eu vou ao mercado antes que feche….

-Pra quê?

Priscila fala bem baixo ao ouvido de Paulo:

-Eu decidi “sozinha” preparar uma Ceia de Natal. Se você pode comprar um presente, eu posso comemorar o Natal… – responde Priscila com visível bom humor….

Paulo solta uma risada de alívio. Sente-se completamente perdoado, e não somente deste episódio…

-Vou comprar um peru e mais alguma coisa para uma ceia rápida…

-Não precisa caprichar muito, Priscila…

-Você não imaginava que um simples presente pudesse tomar uma dimensão muito maior do que planejou…

Paulo pensativo, finalmente vai ver o filme com o filho, volta e meia, procurando alguma coisa na geladeira,  porque sabia que o jantar iria demorar…

* * *

Priscila – em poucas horas – até que montou uma bela Ceia de Natal. Preferiu simplificar ao invés de lotar a mesa. Paulo gostou do que viu. Não podia acreditar que estava vendo uma mesa ainda mais enfeitada do que nos primeiros anos de casamento, quando ela ainda fazia alguma comemoração de natal….E ela não queria a ajuda dele …

– Volta lá pra ver o filme com seu filho ! Aqui na cozinha você não apita nada ! Disse ela mais feliz do que uma adolescente que vai a um show de rock.

Estavam agora na mesa, e Priscila nem se importava com a falta de naturalidade do marido, que não sabia como se encaixar naquela situação. Era uma ceia de natal e ponto final, e dessa vez ele tinha que encarar de modo diferente…

-Filhinho, o papai tem uma surpresa pra você….- disse Priscila, assim que o Zezinho terminou de comer um delicioso pudim de leite condensado – a “melhor sobremesa do mundo” – como sempre repetia Paulo, fã número 1 da culinária da esposa…

– Procura lá em baixo da cama, filho….- e acompanham o menino até a porta do quarto.

-Óia mãe ! Óia mãe ! O carrinho que o papai me deu !!! -Que legal ! É Natal ! É Natal !

-Gostou filho ?Dá um abraço no papai..

-É Natal ! É Natal ! – repete Zezinho, sem conter a alegria…

Os dois se ajoelham para ganhar um abraço apertado do filho.

-Deixa eu ver esse caminhãozinho, filho. Que lindo ! A caixa tá um pouco velhinha.. Paulo, você deveria ter pedido um, com caixa mais nova.. – comenta Priscila num tom que Zezinho não perceba…

-Não tinha. Era o último. É um modelo “fora de linha”. Comprei numa loja antiga do centro…

-Não acredito que você comprou o presente do teu filho num antiquário….

-Não é antiquário. É  uma loja normal, só que antiga…

-Tá bom, não vou brigar com você, desta vez – disse ela sorrindo

– Mãe! A gente não tem um presépio…

– Presépio ?

– É. Tem que ter presépio no Natal. Na casa do Vítor tem um….

Priscila para de sorrir e olha para Paulo.

– Filho, a gente vê depois. Agora as lojas estão fechadas –  responde o pai.

– A gente compra amanhã ?

– Amanhã é feriado, filho…no noutro dia…

– Mas depois não é mais Natal..

Paulo fica sem uma resposta melhor para Zezinho, e Priscila fica constrangida. Nenhum dos dois estava preparado para essa situação, uma vez que a religião naquela casa, era um assunto praticamente ignorado, e sempre causava receio tocar no assunto. Até para Priscila, que acreditava em Deus, a religião era apenas um “lado”, que poderia se esquecido…

-Amanhã filho, eu e a mamãe vamos procurar uma loja aberta. Se acharmos compraremos o presépio. Vai brincar com seu caminhãozinho…

-A que horas a gente acorda amanhã pra comprar o presépio ?

Essa pergunta deixou claro, que o presépio era mesmo importante para Zezinho…

-Filho, espera um pouco…

-Priscila..

-Oi…

-Vamos ver isso agora…

-Mas, como? São mais de 10 horas da noite…não tem nada aberto!

-Vamos na loja

-Vai estar aberta a essa hora ?

-Não, mas eles moram no andar de cima…

-Vai incomodar – devem estar dormindo…

-Eles são católicos, devem estar na Missa ou voltando dela…

-Mesmo assim, incomoda…

-Fica tranquila, eu sei que eles vão gostar de nos ver…

Muito seguro do que dizia, Paulo convenceu a esposa e deixou o Zezinho eufórico. Em minutos estavam tirando o carro da garagem.

-Vamos lá filho, embarcar na aventura natalina do seu pai. Quem diria….

Noite de Natal. Em alguns bairros, famílias promovem um barulho carnavalesco, noutros, o que se vê são ruas vazias e silenciosas. O trajeto é tranquilo e breve, até que se para no farol vermelho…

– Espero que achemos esse presépio, senão o Zezinho vai dormir inconformado. Ele se empolgou tanto…

-Eu vi lá alguma decoração de Natal. Deve haver algum presépio….

O farol fica verde.

– Não pega –  diz Paulo

– Meu Deus, Paulo ! Meu Deus !

– Quase ! – Responde Paulo respirando forte…

– Que susto…

– O carro ia pegar a gente, mãe…

– Graças a Deus não pegou filho….você viu Paulo ?

– Era um rapaz sem camisa, parecia um doido, o farol do carro apagado…

– Maluco ! Quase mata a gente…

– Ele fez uma curva na nossa direção, parecia fora do controle..

– É, eu vi. Ele estava em zigue-zague e voando !!!

O farol fica vermelho de novo….

-Paulo, vamos sair daqui logo….

-Espera o sinal abrir. Você está bem…?

-Assustada…

-Se o carro não tivesse apagado no farol, a gente não teria escapado.

-Verde, Paulo ! Vamos sair….vamos pra casa…

-A gente não vai mais comprar o presépio ? Disse o Zezinho já refeito do susto…

-Vamos sim, filho. Fica calma, amor. Não vai mais ter isso de novo…

-Parece que não tem nada no carro. Você fez algo de errado na hora que o sinal abriu ?

-Não, não fiz…

-Tá longe ?

-Mais uns 10 minutos.

Assim que chegam, percebem a luz acesa no andar de cima. Ao apertarem a campainha, aparece na pequena sacada a Dona Regina que reconhece Paulo de imediato :

-Entrem ! Entrem !

-Nossa! Que receptiva…

-Os dois são assim. Você vai ver…

Seu Orlando desce a escada que dá para a rua,  abre a porta e os recebe, com o mesmo sorriso daquela tarde…

– Minha esposa Priscila e meu filho, Zezinho…

– Que família linda ! Muito prazer.  Vamos subindo…

– Seu Orlando, o Zezinho gostou muito do presente

– Oh que bom…

O menino se aproxima do pai…

– Tem presépio, aqui ?

– Peraí, filho…

– Que esposa linda você tem ! E que menino lindo !

-Essa é a Dona Regina, Priscila…

-Prazer, Dona Regina…

-O Zezinho me pediu um presépio, agora quer um Natal completo ! Penso que o senhor tenha na sua loja…

-Sim, temos…

-Desculpe chegar a essa hora, mas amanhã…

-Amanhã iremos almoçar na casa do meu filho mais velho. Vocês vieram no dia certo…

Seu Orlando vai buscar a chave, enquanto Dona Regina dá um abraço no menino…

– Essa porta, dá para a loja, vamos ver…

– Zezinho vem cá, vem escolher um presépio…

Zezinho atento, escolhe um presépio com as peças soltas, não aqueles compactos, num bloco só…

– Logo o mais bonito ! Que bom gosto, menino !

– Lindo mesmo. Sempre gostei de presépios… – disse Priscila…

– Vamos filho, Seu Orlando e Dona Regina, precisam descansar

– Fiquem tranquilos, chegamos da Missa à pouco….e gostamos de ver a Missa do Galo na TV, direto do Vaticano, tem ano que vemos até o fim, tem ano que caímos no sono…

Paulo fez menção de pagar, mas Seu Orlando recusa:

– Por favor, levem como um presente para a família

– Isso mesmo – reforça D Regina – é um presente !

Paulo e Priscila agradecem e Zezinho, dá um abraço no casal generoso…

– Vocês não tem ideia do que isso significa para mim e até mesmo mesmo para vocês…

– Eu e o Orlando estávamos rezando um terço, assim que chegamos da Missa de Natal,  uns 15 minutos antes de vocês chegarem e os colocamos  nas nossas intenções. Sempre rezamos um terço antes de dormir…

– Dona Regina – diz Priscila respirando fundo – há 15 minutos atrás, tivemos um susto grande. Um carro quase nos pegou num cruzamento. Era o tempo exato para pegar o Paulo na lateral e acabar com a nossa vida…

– Só escapamos porque o carro não pegou. Estavámos parados no farol, quando abriu, pisei no acelerador e nada…

E depois o carro pegou? Perguntou seu Orlando, olhando espantado para sua esposa

– Sim, tudo perfeito. Fivamos parados tentando fazer o carro pegar, até que funcionou e esperamos abrir o sinal de novo e viemos pra cá. Nada de errado com o carro…

– Fiquem tranquilos. Não vai acontecer nada na volta. Vamos rezar por vocês, para que tenham um retorno tranquilo, uma boa noite e um Feliz Natal – assegura Dona Regina

Seu Orlando se inclina para falar com Zezinho

– Filho, você sabe o que é um Presépio ?

– É  o nascimento de Jesus no Natal

– Sim, o Presépio mostra como Jesus nasceu, num lugar pobre, entre os animais, envolto em panos e na companhia de Maria e José, seus pais.

–  Este menino é Deus,  mas antes se fez criança como nós, porque nos ama e quer ficar junto de nós para nos salvar – completa Dona Regina

–  Quando você chegar em casa, – prossegue seu Orlando – pede para os teus pais te ajudarem. Arruma o melhor lugar da sala da sua casa e monta o presépio com seu pai e sua mãe, e não coloca agora, o menino Jesus , porque ele ainda vai nascer. As pessoas montam o presépio bem antes e colocam o menino Jesus na Noite de Natal, mas você pode colocar amanhã cedo, para poder ficar nessa espera. Isso vai te ajudar a entender melhor…

– Boa explicação seu Orlando – eu até já havia esquecido essas coisas. – Disse Priscila, lembrando dos tempos que frequentava a Igreja….

E olhando para Priscila e Paulo, Seu Orlando conclui:

– Há tempos nos demos conta que estamos velhos e precisamos diminuir o ritmo. Além do mais, esse tipo de loja não tem muito espaço nos dias de hoje. Mesmo assim, eu vinha resistindo. Hoje à tarde, a minha Regina, falou que eu só estou esperando um bom motivo para fechar esta loja, e vejo que já encontrei. Depois do Reveillon, vamos encerrar as atividades, com um sentimento de Missão cumprida, pois realizamos um negócio que causou grande satisfação, à mim e à minha esposa. O dia de hoje é muito especial para mim e minha querida esposa, e espero  que seja especial para vocês também…

– Pois saiba que está sendo, seu Orlando – muito especial – disse Paulo, deixando de lado o modo contido…

Após os abraços, eles voltam para casa e logo ajeitam um espaço na sala para instalar o Presépio. Como recomendado, o Menino não foi posto na mangedoura, mas Zezinho levou-o para o seu quarto, pois a primeira coisa que faria ao acordar, seria colocar o Menino Jesus ao lado de Maria e José.

Um conhecido morador de rua, chamado Eliseu,  muito sujo, viciado em drogas, perambulava, vasculhando os lixos e falando sozinho;  mexia no seu casaco rasgado ( outrora, um blazer muito elegante, possivelmente descartado num albergue ) e resmungava por não achar nos bolsos o que estava procurando. Apesar das barbas compridas, era o extremo oposto do Papai Noel. Umas três casas abaixo, Karina, uma moça loira muito jovem, reunia os amigos numa festa barulhenta que prometia que não acabaria tão cedo. Ela tinha um emprego excelente, e vivia em festas rodeada de amigos, mas estava triste naquela noite, porque o homem a quem chamava de namorado, estava naquele momento, num restaurante, com a esposa e os filhos. Músicas barulhentas, feitas para preencher o vazio e fugir do silêncio, risadas altas e doses seguidas de vodka, eram a sua receita para passar a noite de Natal.  Com esse ambiente e numa noite de muito calor, Paulo, Priscila e Zezinho, foram dormir.

* 25 de Dezembro *

No meio da madrugada, Paulo acorda e já não ouve o som da música ou vozes lá fora. O silêncio era total e o sentimento de paz era muito grande. “Dormirei até mais tarde amanhã”, pensou. Mas ele percebe uma forte claridade vinda da sala. Suas mexidas na cama, despertam Priscila:

– Você deixou a TV ligada, amor ?

– Não. –  Responde Priscila, se virando na direção da porta…

– Tem uma claridade na sala… Vou lá ver…

Ao chegar, vê seu filho estático diante do presépio observando um raio de luz que vinha da janela da sala e iluminando direto o lugar da manjedoura onde se aguardava o Menino Jesus. Priscila chega em seguida para ver o que está acontecendo…

– Meus Deus !

Eles abraçam o filho e não conseguem deixar de olhar para a cena do presépio iluminado…

– Tá tudo bem filho ?

– Tá,  mãe.

– Quando começou essa luz? Porque você saiu da cama ?

Era um raio de luz forte e branco. A partir da manjedoura, a sala ficava iluminada. Paulo sem dizer nada, volta para o quarto. Priscila, percebe que ele vai trocar de roupa, pois está de pijama e ela faz o mesmo.

– Vamos lá fora, amor. – Zezinho os acompanha

Paulo vê que a luz vem direto do céu e estende a mão para interceptar. Não sente calor, nem dor e olha a palma da sua mão atravessada pela luminosidade e consegue ver os seus ossos.  Priscila também repete o gesto, e nesse momento,  o marido segura a sua mão. Vendo Zezinho querendo fazer o mesmo, Paulo pega o menino no colo os três ficam com as mão unidas…

– A Luz de Jesus ! – Diz o menino

Paulo e Priscila, emocionados, não conseguem dizer palavra nenhuma. Percebem depois, que não são os únicos a ver a cena. Eliseu e Karina estão de longe observando, mas não tem coragem de se aproximar. Cada um na sua situação, se vê como miserável e julga que não merece chegar perto. Mas ao perceberem que são notados se encorajam e se aproximam.

– Eu vi desde o começo. Foi logo depois que meus amigos foram embora e o barulho acabou. Há mais de uma hora estou na rua e não consigo tirar os olhos –  diz Karina…

– É muito lindo – completa Eliseu.

Paulo e Priscila apenas sorriem para os dois. Decidem entrar em casa e olham para Karina, num gesto de convite para que entre também. Ao ver Eliseu constrangido, Paulo vacila por um segundo, mas depois,  convida com voz firme:

– Entre, fique com a gente. Como o senhor se chama ?

– Eliseu…

– Fique à vontade, seu Eliseu

Os visitantes, ficam espantados ao verem que a luz estava direcionada para um presépio. A moça decide sentar-se no tapete, bem perto da cena do nascimento de Jesus. Olha para Maria e José, parecendo dizer-lhes palavras. Seu Eliseu contenta-se em olhar de longe, mas fica num sofá de único lugar,  já não mais se importando com sua condição.

– Filho, vamos colocar o Menino Jesus ? – sugere Priscila…

– Sim ! Ele já nasceu ! A luz,  é porque Ele já nasceu !

E colocam o Menino Jesus na manjedoura. Agora,  toda a luz vai para o menino e a partir dele, se ilumina toda a sala.  Priscila se aproxima de seu Eliseu e pergunta:

– O Senhor quer alguma coisa… água, café… está com fome ?

– Minha Senhora, eu estava procurando tanta coisa, mas agora não preciso de nada. Obrigado por deixar entrar na sua casa. Só quero olhar…

Karina se vira, olha para os dois e sorri acenando com a cabeça para dizer que também se sente assim…

– Você também Karina, se precisar de alguma coisa…

Ela aperta a mão de Priscila e a abraça…

Já não se fala mais nada. Todos só querem olhar o Menino Jesus. Paulo vê um filme passar na sua cabeça : e se lembra do momento em que leu o cartaz anunciando que faltavam 2 dias para Jesus nascer. Tudo começou naquele momento. E depois, as palavras da Dona Regina, e por fim, seu filho pedindo um presépio….Sentado no sofá maior, está abraçado com Zezinho e Priscila. Ele alisa o braço da esposa e beija a testa do seu filho. Está consciente de que sua vida jamais será a mesma. Já está na terceira hora, desde que a Luz foi vista na rua por Karina e Eliseu. Seu filho, o menos impressionado de todos, é o primeiro a pegar no sono. Karina se debruça no sofá, tenta não dormir, mas é vencida pelo cansaço: “se for para dormir” , pensa, “dormirei ao lado da Sagrada Família”. Seu Eliseu, contempla a cena e se imagina como um dos pastores: aquele mais escondido, aquele mais pobre, e quer ficar velando o Menino Jesus a noite inteira, mas seus olhos ficam pesados de sono também. Priscila encosta a cabeça no ombro do marido. Paulo olha todos à sua volta, impressionado com a Luz que a todos atrai e a ele também. Por fim, também adormece…

* * *

– Meu amor, acorda. Vem ver isso….

Já é de manhã e a única luz da casa, é a natural do dia. Priscila agita o braço de Paulo, pois quer que ele veja logo. Eliseu está de pé, e emocionado contempla a si mesmo: suas mãos estão limpas, o cabelo penteado, as roupas e os sapatos estão como novos. E ele está usando exatamente as mesmas roupas que antes eram sujas e rasgadas…

– Deus quis mostrar por fora, a restauração que me fez por dentro – disse ele entre lágrimas para Paulo, que lhe dá um abraço.

Karina acorda e se levanta para ver o que aconteceu. Espantada leva as mãos ao rosto. Durante a vigília diante do presépio, ela foi revendo a sua vida, suas amizades, seus vícios, e prometia ao Menino Jesus, que mudaria de vida:

-Também estou restaurada, seu Eliseu. Nunca me esquecerei desta noite. Acho que Deus reservou para cada um de nós,  um milagre. Muita coisa na minha vida também vai mudar. Eu estava destruindo uma família e nunca mais farei isso.. Espero que ele também se arrependa. Quero ir para casa agora, dar um abraço nos meus pais. Quero ir à Igreja me confessar, estou tanto tempo afastada, quero pedir perdão…

-Vou preparar um café para nós. Fiquem mais um pouco. – disse Priscila

Karina observa Zezinho dormindo o melhor sono de sua vida.

-Ele dorme como se nada tivesse acontecido – disse sorrindo…

-Talvez  ele seja  o único que entendeu tudo….- completa a mãe…

Eliseu e Karina, não conseguem ficar muito tempo. Sabem que quando passarem pela porta, a vida de cada um mudará e querem que isso aconteça logo. Na despedida, olham novamente para o Presépio, como que se despedindo. Já na porta,  Eliseu diz para Paulo e Priscila :

– Vou voltar para a minha família. Não quero mais fugir das pessoas que me amam, por vergonha do desemprego, do fracasso e dos vícios. Me sinto forte e com coragem. Vou pedir perdão para minha esposa e meus filhos e sei que serei perdoado, pois Nossa Senhora me encorajou. Ela não queria que eu me apresentasse em trapos sujos e lavou as minhas roupas. E Deus lavou a minha alma…

– O Senhor,  está parecendo um “Lord”, seu Eliseu. Deus faz tudo perfeito !

Eliseu e Karina beijam Zezinho que ainda dorme, e se despedem de Paulo e Priscila com um longo abraço, como velhos amigos. Uma despedida recheada de frases como : ´”até logo”, “voltem sempre”, e principalmente, “Feliz Natal”.Voltam para casa, como que, trazendo uma grande novidade sobre suas vidas…

* * *

– Acorda filho.  Feliz Natal …

– Zezinho se espreguiça e ganha um abraço da mãe…

– Aquela luz vai voltar de novo  no outro Natal ?

-Não filho, acho que não. Foi somente essa vez. Foi um milagre, só posso dizer isso. Foi um milagre…

-Mas o pai, vai ver a luz de novo …

-Eu ? Quando ? – pergunta Paulo, que já aguardava as surpresas de Deus, para sua família…

– Quando eu te der a unção dos enfermos, vai ver essa luz de novo, no Natal. A mamãe vai estar com a gente e minha irmã também, com o marido e os filhos dela…

Paulo abraça o filho…

– Filho, agora vai escovar os dentes. O papai precisa falar com a mamãe…

O menino obedece,  e eles, finalmente podem conversar:

– “Unção”, é algo que um padre faz ?

– Sim, meu amor. É um sacramento…

– Teremos um filho padre…

– E teremos uma filha e netos…

– Quantos filhos ela terá ?

– Calma, ela precisa nascer ainda ! E é bom que não saibamos, mas gostaria que fossem muitos…

Paulo pergunta de novo para Zezinho:

– Filho, o que é “unção dos enfermos”?

– Não sei, pai…

Do modo como entendia como deveria ser a fé, Paulo entendeu e aceitou a resposta do filho…

-Tem panettone filho, você gosta ?

– Oba !

– Vai lá, filho…

Zezinho vai para a cozinha e Paulo vai para o quarto segurando o choro. Priscila o segue também tentando se conter…

– O que vai ser do nosso menino ? – pergunta ela…

– Vamos cuidar bem dele. Deus fará o principal…

– Nunca te ouvi falar assim –  Eu te amo e nunca te amei tanto, sabia ?

– Eu também te amo, minha querida. Feliz Natal…

De longe, ouvem tocar os sinos da Matriz de São Bernardo…

– Vamos ?

– Sim, vamos. Você precisa conhecer, o Zezinho também. E eu, preciso voltar. Nossa filha, nascerá numa nova família, transformada…

O Presépio da Igreja é bem maior. A Árvore de Natal é natural e está cheia de luzes. Algumas pessoas com cara de sono, chegam para a Missa das 10. Zezinho se ajoelha diante do Altar. Paulo e Priscila unem suas mãos e rezam juntos pela primeira vez.

 

 

 

* * * * * * *

 

 

Há uns 4 ou 5 anos atrás, passei diante uma loja na rua Santa Filomena em São Bernardo do Campo. Casa Vantim: especializada em artigos para desenho, arquitetura e artesanato. Na entrada da loja, o proprietário, Sr. Isildo, colocou este recado “ Faltam 2 dias para Jesus nascer “.  Era 23 de Dezembro daquele ano. Este conto é inspirado neste episódio. Obrigado Sr Isildo: que sua iniciativa, continue a tocar nos corações. É justamente aí, no coração que segundo Bento XVI, o homem precisa ser salvo.

 Agradeço à minha namorada, minha querida Josi, por ter emprestado suas palavras à personagem de Dona Regina. Quando o pai vai levar o presente, ele ouve palavras inspiradas e cheias de sabedoria que falam da “fagulha do Amor de Deus”. Nós bem sabemos como é essa fagulha. Feliz Natal, minha linda…

 

Feliz Natal a Todos…

Publicado por: algosolido | 15 de novembro de 2013

TROQUE SEU CACHORRO POR UMA CRIANÇA POBRE

Há pessoas que se dedicam inteiramente aos animais, deixando
ao abandono  as crianças. Existem mães que não sabem preparar
a sopa para o filho; no entanto, conhecem e discutem todas as
vitaminas de que o cachorro precisa na alimentação.
Não devemos ser contra os animais, mas o homem é um homem e
o gato é um bicho. Cada um tem seu lugar no espaço e isto devemos
respeitar “

 

Marialice Prestes – “Problemas do Lar” – 1957  (1)

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O recente episódio do “resgate” dos cães da raça Beagle em um Laboratório de Pesquisas Científicas no interior de São Paulo, a notar pela reação da imprensa, mostra que os defensores dos animais estão isolados. A mídia está engajada em praticamente todas as chamadas causas “politicamente corretas” que visam os interesses de chamadas “minorias” ( “minorias” que dominam a imprensa, os governos, a universidade….) : seria o caso dos defensores de cães e gatos, mas eles foram longe demais ao atrapalhar pesquisas sérias, como as que buscam a cura do câncer. Não contar com a simpatia da mídia, é ter um oposição muito pesada, pois a mesma se julga porta-voz da opinião pública ainda que a mesma lhe seja totalmente contrária, mas isso é assunto para outra oportunidade.

Vamos deixar claro: ninguém em sã consciência, defende maus tratos aos animais: nem politicos ou policiais, religiosos, jornalistas, cientistas… quem gosta de ver um animal sofrer ?. A sociedade no seu conjunto, repudia qualquer ação que faça um animal sofrer inutilmente. A questão é : seja por conta de um abate ou algum teste de laboratório que chegue a sacrificar a vida, o animal efetivamente sofre, mas esse sofrimento não é algo desejado.

Quer dizer que o sofrimento de um animal pode ser útil ?  Sim, pode ser: quando se pretende salvar vidas humanas.  Mas quando o sentimento pressiona a razão, esse argumento não basta.

E o que dizer da imprensa? Ao se posicionar favorável às pesquisas com animais em laboratórios, podemos afirmar que é a favor da vida ?  Não, não é.  É apenas uma defesa egoísta e não altruísta da vida. Pode-se constatar isso  pelo apoio midiático às pesquisas com células tronco em que se matam embriões humanos para fins “terapêuticos”  como também o apoio que se nota por parte de jornalistas,  ao aborto e à eutanásia ( O filme “Mar Adentro” que retrata um caso real de suicídio de um tetraplégico e que faz a apologia da eutanásia, foi calorosamente elogiado por jornais brasileiros).

A defesa egoísta da vida aparece assim: a própria vida, a do filho, da esposa, do marido, e – às vezes – do pai e da mãe. Aquela vida que se considera, que se “sente” importante. É como se dissessem: “aquele animalzinho pode um dia salvar a minha vida ou de alguém importante para mim…” Desse modo, a defesa da vida humana, fica restrita ao interesse próprio e isso, apesar de estar na direção correta, não é suficiente. Toda vida humana tem valor. Não apenas a vida de quem amamos. Essa é a defesa altruísta da vida.

Isso me fez lembrar da música “Rock da Cachorra” (2)  composta por Léo Jaime, que ficou muito conhecida na gravação de Eduardo Dusek em 1982. A letra é uma sátira forte contra o apego excessivo e desmedido aos animais. “Troque seu cachorro por uma criança pobre”: com essa frase forte, o clipe musical da época, mostra uma madame caminhando numa calçada com um menino negro, amarrado a uma coleira e engatinhando como um cão. Nos dias de hoje, esta cena, causaria uma histeria. Evidente que o clipe não é racista, mas mostra justamente que as crianças negras, que são preteridas num processo de adoção, seriam as mais beneficiadas se certas pessoas sem filhos, tivessem mais amor por crianças do que por cães abandonados.

Aos longo do anos, pode se notar que o apego aos animais só aumentou. E isso, está numa relação direta com o individualismo, e o consequente encolhimento das famílias : raro se ver famílias com mais que dois filhos por casal e está se tornando cada vez mais comum, a escolha deliberada pelo filho único, ao passo que cães ocupam esse espaço nos lares, e passam frequentemente a ser tratados e chamados de “filhos”, enquanto os filhos de verdade  são vistos hoje,  como um impedimento à “realização pessoal”, ou simplesmente um estorvo

Muitos desses donos de “cachorrinhos mimados”, apostam sua dedicação e seu amor mais aos bichos do que aos seres humanos. Isso fica evidente em frases do tipo: “ Gosto mais de bicho do que de gente “ ou essa, bem sintomática : “ Eles não falam. Mas seus olhos dizem coisas que muitas vezes gostaríamos de ouvir de alguém “

Em 2009, uma reportagem de capa da Revista Veja (3), apontava que 10% das famílias brasileiras ( com tendência de alta ),  considerava o animal doméstico como “membro da família”. Essa taxa chegava a 30% nos lares europeus. Tal sentimento, motivou vereadores da Cidade de São Paulo a propor um Projeto de Lei que autorizando o sepultamento de donos e seus animais em jazigos comuns nos cemitérios municipais. A proposta despertou a atenção do Cardeal Arcebispo São Paulo, D. Odilo Scherer, que interveio e argumentou com o prefeito da capital paulista, que a prática de sepultar jazigos comuns donos e animais, poderia provocar um processo de “depreciação da dignidade humana” pois se estaria assim reconhecendo nos animais uma “dignidade igual à dos humanos”. (4)

O cinema,  pródigo em exibir filmes que exaltam a relação de pessoas e animais, também já mostrou o outro lado, não num filme para grande público, mas num obscuro filme britânico,  chamado “A Marcha“ ( The March – David Wheatley, 1990(5),  que mostra milhares de refugiados do Sudão fugindo da seca e da fome, numa gigantesca marcha rumo à Espanha. Uma comissária é enviada pela Comunidade Européia na intenção de negociar e conter o avanço dos africanos, que têm a esperança de simplesmente chegar à Europa e encontrar uma chance de viver. No primeiro encontro, a negociadora inicia um diálogo com o líder da marcha, sobre a riqueza e pobreza dos países, mas a segurança de seus argumentos termina, quando ela ouve dele esse apelo dramático e irônico:

“…Dizem que na Europa vocês têm muitos gatos. Dizem que o custo para manter um gato é mais do que 200 dólares por ano. Deixem-nos ir para a Europa como seus animais de estimação. Nós podemos tomar leite, deitar perto do fogo (lareira), podemos lamber suas mãos, ronronar. Nós somos muito mais baratos para alimentar.(6)

Tratava-se de uma ficção, mas muito de acordo com a realidade. Aqui no Brasil, parece que dinheiro em se tratando de cachorro não é problema : um estudo centrado na cidade do Rio de Janeiro, mostra que famílias de classe média gastam com animais domésticos em torno de R$162,00.  Só como base de comparação ( sem entrar nos méritos da iniciativa ) , o programa do Governo Federal “Brasil sem miséria” definiu o valor de  R$ 70,00 (setenta reais)  como limite da linha de pobreza. (7)

A lista de mimos não pára por ai,  quando se tem notícia de hotéis de luxo para cães, ( com piscina ! ) festa de aniversário com os donos sendo fotografados segurando a pata do animal em frente a um bolo com cobertura colorida, exatamente como fariam a um filho. As cenas são constrangedoras: os cachorros comendo bolo de aniversário, mas comendo como podem : como cachorros.

Existe até uma justificativa “humanizada” quando se diz que toda criança deveria ter um animalzinho em casa, pois lhe despertaria o “senso de responsabilidade”. Pode haver alguma verdade nisso. Não podemos negar que um “pet” é boa companhia para uma criança ou um adulto ou idoso, desde que se saiba definir o lugar de cada um. E  mais : o mais importante para uma criança em termos de companhia – além dos pais, claro – não é presença no lar de animais de estimação e  sim de IRMÃOS ( sim, no plural …). E na maioria esmagadora dos lares, esses irmãos não existem por decisão dos pais…

E se formos falar em senso de responsabilidade, irmãos mais velhos cuidando de irmãos menores, é uma lição de responsabilidade que supera qualquer cachorrinho.

Não é fácil criar filhos ? Claro que não ! A primeira barreira é o egoísmo, depois o dinheiro. Isso quando o dinheiro é problema, pois justamente os casais que podem ter mais filhos, preferem não ter. É esse o individualismo, essa busca de afetividade sem riscos, a causa do apego excessivo aos animais. As pessoas querem amar, mas não querem ser cobradas: o animais não cobram nada, ainda que custem muito caro.

Em uma entrevista ao canal americano EWTN, o então Cardeal Jorge Bergoglio, futuro Papa Francisco, classificou essa atitude como “neo-paganismo” e “compra de afeto” :

“..Das coisas que não são necessárias, das coisas supérfluas, no primeiro topo você tem animais de estimação. Se gasta  com animais de estimação no primeiro nível de gastos desnecessários. Se idolatram os animais de estimação.  È a idolatria de comprar , alugar , ter um afeto, como eu quero, onde quero , sem a liberdade de resposta , certo? É tudo uma caricatura do amor…” (8)

 Essa “caricatura de amor”,  está em muitas pessoas, substituindo a maternidade e a paternidade. Muitos declaram abertamente isso…Casamentos desfeitos ou não realizados, passam a encontrar “compensação” nos “bichos”, em gastos extravagantes, em preocupações e cuidados sem medida, uma vez que se desacredita no ser humano.

Vou encerrar citando outro filme : “Margin Call – O Dia antes do Fim” (9) – inspirado na crise financeira de 2008.  O personagem de Kevin Space  é um executivo de um Banco de Investimentos à beira da falência, mas que passa o dia e a madrugada  vivendo um drama paralelo: a sua cadela está morrendo.  Sua vida pessoal também não vai nada bem : ele é divorciado.  A cadela morreu.  Na cena final,  ele vai chorando enterrar o animal no jardim da mansão onde mora sua esposa que observa a cena com ar indiferente:  conversa um pouco e avisa. “ Vou voltar para a cama. O alarme está ligado. Não tente entrar”.

Não era para ser assim. O “até que a morte os separe”  é para o casamento,  mas nesse caso foi para uma cadela.  Nada diferente da vida real de muitos,  infelizmente.

Precisamos investir em primeiro lugar,  nos relacionamentos humanos:  na amizade e sobretudo no amor humano e nos filhos.  Sim,  é um risco,  mas vale a pena. Jamais seremos felizes com compensações,  fugas e compras de afeto.  E quanto aos animais domésticos,  que seus donos os tratem bem,  mas que muitos  avaliem  se  o que  fazem pelos seus animais  é por eles que fazem ou para si próprios.  Penso que se os animais pudessem falar, diriam aos seus donos  “Por favor, façam menos por nós ! “

 

Com agradecimentos à Stella Daudt  e  Leo Jaime

 

FONTES:

1)      Marialice Prestes – “Problemas do Lar” – Livraria Martins Editora – São Paulo – 1957 – pg 54

2)      http://letras.mus.br/eduardo-dusek/117822/

3)      Revista Veja – Edição 2122 – 22-07-2009 – pg.84

4)      http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,igreja-quer-veto-a-enterro-de-cao-em-cemiterio-,1069372,0.htm

5)      http://www.imdb.com/title/tt0165382/combined

6)      http://www.youtube.com/watch?v=UUvx_rhIias

7)      http://www.ufjf.br/ladem/2011/09/06/%E2%80%98troque-seu-cachorro-por-uma-crianca-pobre%E2%80%99-artigo-de-jose-eustaquio-diniz-alves/

8)      http://www.aciprensa.com/noticias/entrevista-exclusiva-del-cardenal-bergoglio-hoy-papa-francisco-con-ewtn-89570/#.UnbZY3BJPpV

9)      http://omelete.uol.com.br/cinema/margin-call-o-dia-antes-do-fim-critica/

Publicado por: algosolido | 15 de agosto de 2013

GREAT NEWS: THE BRITISH BABY BOOM

“… Ironically, the birth of a child, is recorded as a

reduction in national income per capita, while the

birth of a calf, shows up as an improvement …”

Lord Peter T. Bauer  

Perjalanan-Ibu-Hamil

The UK population is increasing more than its European neighbors. The Office for National Statistics UK, released this information in early August. This is not about increasing the number of children per woman, but children of a generation of “baby boomers” born between the 70s and early 80s, who delayed pregnancy, now resulting in a boom in births. It is the highest birth rate since 1972.   This is excellent news for the British economy, although the interpretation of these facts, is divergent between the press, because not all hold good news. But the fact is that increasing population, consumption is also increasing, and consistently. The traditional English newspaper “The Gardian” analyzes this as “a blessing, not a curse”, with these encouraging words:

    “People are a good thing, the most precious resource in a rich economy, so the progressive-minded feel. Only misanthropists disagree or dottier Malthusians who send the green-ink tweets deploring any state assistance for child-rearing. So Thursday’s population figures from the Office for National Statistics are unalloyed good news, for young and old, for the economy and   wellbeing “

 In 2010, I published in my blog, an article advocating precisely the economic benefits of population growth. Was based on a report by Brazilian magazine “Exame”, which was praise precisely the Brazilian population aging. I dispute the arguments of the magazine. Follows the same article translated into English, an approach that is not restricted to the Brazilian case, but is valid for Economy of any country … 

 

MORE CHILDREN FOR THE WORLD

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 The reader must have already heard or read reviews from environmentalists concerned about the threats to nature, due to a questionable climate change: we can not ignore the problems, even 50 years from now, possibly, all this generation are not more alive. “You have to worry about future generations,” they say.

This concern does not seem to exist with the issue of aging. A magazine article Examination on November 17 this year (Issue 980: “Twenty years to get rich”), speaks with euphoria called “demographic bonus”. Commemorates the fact of having a young population dwindling consumes only against an adult population that consumes and produces.

This relationship may in fact mean an increase of GDP per capita but since there is a steady growth in the economy. This needs to be well explained.

But when a country begins to lose its population (indeed recognized by the magazine itself), problems begin to appear: a huge population of elderly and inactive feature requiring the health and well-being, from the work of an active population each smaller. Many of this generation will live to see it.

This means that the current situation (or bubble), promotes economic growth in the coming years, but – acutely and deadline to finish – There will be growth in certain sectors of economic activity, due to the aging population, such as health care, pension and due to smaller families, couples postpone for years with the coming of the children, we have an increase in activities such as tourism, leisure and personal care, with a growing cult of individuality.

But a calculation transparent, should consider that investments in areas like education, housing, and several others, are not unique to “demographic bonus”, because population growth (with increasing youth population) would be favorable to the growth of GDP advantageously and permanently (or being modern, “sustainable”.)

When families have more children …

The article talks Examination hospital services growing due to an aging population?

– But what about the mothers who go to the doctor when pregnant and when children are born? Consider the growth … pediatric

Leisure and recreation for adults?

– Children love to play more and have more time … …

Travel Packages for adults without children?

– Ask the hotel manager if he would not want the table crowded rooms and full …

Furniture and decoration, building materials, clothing … with large families, as it is necessary to invest! Ask families with 3 or 4 children during growth: how many pairs of shoes, how many shirts and pants, school supplies have to be bought every year ….! In short: how can you ignore that families have more children, the more favors the growth of GDP, and therefore income, employment and tax revenue?

Someone said that children and adolescents prevent the growth of a country, because only consume and not produce? Otherwise: a series of activities for families with children lose ground when children are born into increasingly smaller number

The “game” is fun …

Families decreasing, many trips, houses increasingly comfortable: the benefits that could be obtained over the years, are rapidly acquired, the cost of giving up the children in their first years of marriage. It is the “game” of subprime population.

At a time when the population begins to decrease, we can, if confirmed projections, we are with the GDP and per capita income levels in Europe, but depending on “consumerism” and not “consumption”.

Let me explain: when families have a number of children sufficient to replace both as to increase the population, need to buy more food, more clothes, build more schools, increasing the houses, buy more furniture, more equipment, more school supplies, More Diapers …

This is “consumption”

But if families definitely assimilate the culture of the “one child”, economic growth depend on these families have two or three cars in the garage (a family of three), making “collections” of bags and pairs of shoes, many clothes many trips and meals away from home, one computer for every person in the house …

This is “consumerism”

It is depend on the consumerism of a population aging, indebted and saturated with all kinds of goods, countries like France and Germany, are already encouraging their populations and have more children to increase again … consumption.

Therefore, the projections for GDP growth due to an aging population, should provide some caveats:

1 – This growth has end date;

2 – Depends on consumerism: the financial crisis or consumption, quickly puts the country into recession – Look at the United States and especially Europe today: in crisis and with very low birth rate;

3 – important sectors of the economy, such as real estate and building materials, will suffer sharp fall, with the possible decline in population, with negative effects on the generation of employment and income.

4 – You can achieve this level of wealth with the population growth, more durable and safe;

5 – Reducing the population is difficult to reverse: a decrease of children per couple, generates an individualistic culture. Rich countries face enormous difficulty returning to increase their population.

Yes … rich countries are trying to reverse the decline in the birth rate. This problem does not end here. For many economic aspects, such as cultural and social demographics of the subject will be taken up at other times in this blog

LINKS:

http://www.mercatornet.com/demography/view/12588

http://www.ons.gov.uk/ons/rel/pop-estimate/population-estimates-for-uk–england-and-wales–scotland-and-northern-ireland/mid-2011-and-mid-2012/sty—uk-population-estimates.html

http://www.theguardian.com/commentisfree/2013/aug/08/booming-population-birth-rate-great-opportunity

Publicado por: algosolido | 5 de novembro de 2012

BARACK OBAMA AND THE WHITE HOUSE IN CUBE FORM – 1

Obama: The preferred media, but not on
Wall Street

 

The October 2012 edition of Alpha magazine (1), has as its cover story, President Barack Obama, titled “11 Lessons for Obama to solve problems.” When browsing the threads of these “lessons” we see some common sense suggestions like “know what you’re talking about,” “never lose your head” or “avoid sycophants.” With the exception of unquestionable: “preserve family life,” the best of all, no more, nothing innovative ….
 
This is another of the many examples that the Brazilian and international press – despite the poor performance of the U.S. economy over the past four years – have tried to use to turn the U.S. president a “icon”. Both in this case, as in many others, as they say in Brazil, the media is “forcing” trying to take the very little …
 
Quite different is the treatment given to the candidate opponent, Republican Mitt Romney, who is often ridiculed and presented as a setback. It is no exaggeration to say that the press, “twists” for Obama, and in a special way, the TV news, presenting rallies the Democratic nominee for “climate of World Cup”, as if the viewer were Brazilian American citizen …
 
Enough to sound surreal, “O Estado de São Paulo” newspaper much rejected by the Brazilian socialists and seen as “conservative,” published an article by Jonathan Weisman (NY Times) (2), which presents a negative way, attempting to Mitt Romney during the Republican convention, to show yourself as an American of humble origin and identify with immigrants and various ethnic groups, but that is actually a “millionaire”. Now, being a millionaire is not in itself a good thing or a bad thing, but the strange thing is that a newspaper historically not fit the Marxist ideology, agree with this idea: “careful, he’s a millionaire” ….
 
Another newspaper, more faithful to his profile please readers left, “Folha de São Paulo”, goes further and further embraces the cause of “Yes, we Can”, saying … “Two catastrophic scenarios threaten U.S. election “(3) …. Now the scenario “catastrophic” in the story of Patricia Campos Mello, are the possibility of Romney win, sometimes the popular vote in the Electoral College now … Romney win: Catastrophe? Why?
 
The examples continue: “Daddy Romney knows everything” (4) – This, again the “Estado” ridiculing McCain for considering it antiquated. Another: “In the final stretch, breathe new life into the Democratic campaign” (5) – In an expression almost football as a team approaching the leadership in the Brazilian league, so praises the “Economic Value” of Obama’s performance in the second debate …
 
At this point, we can understand that judging by the press, the Democrats are the “good” and the Republicans, “evil.” Barack Obama, an “angel,” and Mitt Romney, has horns, a pitchfork and pointed tail has a …
 
And Romney?
 

Romney: nearest values ​​of family and firm hand
to command the Economy

 
Is a candidate more sympathetic to American Christians, not so much for their religion: is Mormon, but their positions more restrictive abortion, although accepted in specific cases such as rape, something that Christianity does not tolerate, because it believes abortion “intrinsically bad “, ie: there is no” good abortion. ” Together with the fact of being against the policies of Barack Obama, and be promoter of a more liberal on economics, is considered by many voters as a “lesser evil” ….
 
Making a work of “mining” in the newspapers, we gather statements quite strong and lucid in favor of the Republican candidate, although not receive due prominence. A brief interview on “State” (6), with vocalist Genne Simmons of rock band Kiss, depicts this situation precisely:
 
Estado – I heard you vote for Mitt Romney said recently, saying that Obama was a disappointment for you …
 
Simmons – I’m not sure. I voted for Obama, but he does not dominate the world of commerce. Romney is a businessman, is able to improve education, create jobs. I wish now to see what candidates have to say to decide. He has done a good campaign, shows that people now have a choice. I’m still deciding.
 
Estado – Mitt Romney is Mormon. That does not put religion in the middle of politics? It is not complicated?
 
Simmons – The two most important things, which are the priority right now, jobs are and how to make the country safe. The rest can be discussed later.
 
 
Much more incisive, was the testimony of actor and director Clint Eastwood-author of the famous “speech empty chair” and voter declared Romney, in an interview with Luis Carlos Merten – Notebook 2 of the “State” (7):
 
Estado – You have supported the candidacy of Mitt Romney for President of the U.S., why?
 
Clint – “I do not want to be offensive with Obama, but with it, America and the world go adrift. Like it or not people abroad, America is the military and economic power. One can not bend. Obama’s policies are social. Many state intervention for my taste. I’m against interventionism. I hate it when the studio has to tell me what I gotta do. I come from a family that has difficulties and even hunger, depression of the 30s. My father never expected the government to come save us. He worked hard and taught us never to rely on others. A country is like a house. We need a good cleaning, and who can do it is Romney. ‘
 
And Wall Street agrees with Simmons and Eastwood: (8)
 
“The usefulness is limited for Obama at this point. Although stocks are rising, wages are falling, GDP growth has been anemic and unemployment remains high “- in the opinion of Andy Laperniere, head of the political analysis of the practice of ISI Group.
 
“The market wants Romney, period. The financial market professionals recognize that stocks are doing well, but the vast majority of these people are convinced that the market is rising despite Obama, not because of him …. “adds Greg Valliere of Potomac Pesearch.
 
It can be said that the press and the financial market are not speaking the same language. The press is steeped in ideology, and has exerted a strong influence on public opinion in the U.S. and worldwide …
 
Not the Economy, Stupid …
 
The American economy is bad and Obama is not a unanimous vote. Despite the “election effort” of the American press and world, we can say that the electoral performance of Obama is very weak. With a framework, it would be reasonable that if you wanted to change that if he chose Romney. It turns out that the “change” part of American society and the media want, already happened and occupies the White House: Barack Hussein Obama.
 
If it is truth or myth that Louis XIV said “I am the State,” Obama may well say “I’m changing”.
 
In practical terms, it can be said that economic growth and job creation, it is not the primary motivation of supporters of Barack Obama, and yes, the fact that the current U.S. president, to assume a position of changing values ​​of the path of secularization American society in which religious values ​​are left aside giving way to political criteria to define what is lawful or unlawful in the actions of citizens and governments. For decades the U.S. has been presented as a model of a developed country, now wants the U.S. to be a model of “secular society and satisfied.” Thus, the definition of marriage, the consolidation of “alternative forms” of family, the right to life and religious freedom itself, are being discussed by political consensus criteria under the umbrella of “democracy.” The values ​​of Christian morality under which the American nation was based, are left out. The “right” and “wrong”, would depend on political consensus ….
 
There is a very interesting part of the movie Magnum 44 (Magnum Force, 1973 – USA), in which the detective detective Harry Callahan – played by Clint Eastwood – arguing with a coworker about the secret and illegal action of some police officers who decided to make justice into their own hands by running the crime bosses in the city. In a passage of dialogue, a character cites the “Bomb Squad” who worked in Brazil as an example and says that if we allow people to act on their own, we will end up killing someone because they passed the red light .. (signal transit)
 
And which parameter Detective Callahan? The Law
 
What is the parameter of the law? The fundamental values ​​of a society.
 
   
Publicado por: algosolido | 5 de novembro de 2012

BARACK OBAMA AND THE WHITE HOUSE IN CUBE FORM – 2

The fundamental values ​​of American society, as well as Europe and the West in general, are based on Christian values. This should not be confused with religious precepts and rituals, because among these core values ​​are freedom, including religious freedom. Therefore, such fundamental values ​​”does not imply the imposition of religious beliefs.” As an example, is to say that religious values ​​are adequate to define what is life, resulting in issues such as abortion and euthanasia. It is so fundamental that it is accessible and acceptable even for non-believers. We are talking about something quite different from imposing crenças.Se people become insensitive to the life of a baby in the womb, because there will be to become sensitive to the time immediately after birth?
 
For know that President Obama voted against the Law for the Protection of Infants born alive. This law required the hospital to keep alive the newborn who survived an attempted abortion. Obama voted three times against this bill as a senator from Illinois. The “hipsters” will call it “reproductive right”, but anyone who has a Minino of humanity (no need to carry a Bible in hand …) will call it infanticide. The Brazilian press does not speak it. That’s why Barack Obama is so “darling” in Brazil … (9)
 
Another telling example of Obama’s profile, appears in the ad campaign targeting the female audience (10): Obama gives us an idea of ​​how are your “values”: A cartoon: “Life of Julia” tells the story of a woman’s his childhood to retirement: Julia is the typical woman “moderninha” can touch your life and sexual as single without worry, because “Obamacare” – the health plan goberno Obama, will care if the girl becomes pregnant. The U.S. government paid abortion. After 30 years decides to have a child. There is no mention of a father or husband. Julia retires and son studies funded by the government.
 
Another video campaign called “First Time” in which the actress Lena Dunhan compares the experience “amazing” to vote for Obama, to lose his virginity … just that …. this debasement of moral values ​​and family, is a trademark of Obama campaign ….
 
Religious values ​​are perennial and fashion trends are efêremas. What is abhorrent in a secular society today, tomorrow may be tolerable for future generation (and note that already ….) since secular society is anchored in the wills of the moment rather than fundamental values. It is this situation that the European and American secularist tendency to place the Western society as a pretext not to oblige those who do not believe and live the same way as those who believe.
 
Again I say …. this is a false dilemma …
 
In 2003 during discussions of the New Constitution of the European Union, in which several European leaders wanted to delete the text, the mention of God, Pope John Paul II, made the following statement at the Angelus on February 16:
 
Exactly … so if asked in the future Constitutional Treaty of the European Union, be sure to give space to this common heritage to the East and the West. A reference to draw anything like this just secularism of political structures (cf. Lumen Gentium, 36; Gaudium et Spes, 36, 76) but, instead, will help preserve the continent, on the one hand, the double danger of ideological secularism and secondly, the sectarian fundamentalism … “(11)
 
Note that the Pope refers to “a just secularism” which distinguishes the political sphere of religious therefore respect the different beliefs, not taking (and imposing) the state to a “state religion”. Moreover, the state should not prevent Christians contribute to society and express their views, which is a disguised restriction on religious freedom. This attitude of silence the Christian is called ideological and Secularism.
 
Speaking at a Protestant church (12), Barack Obama sought to explain his position regarding receiving criticism from religious and worth commenting here:
 
Obama: “… Given the increasing diversity of the U.S. population, the risks of sectarianism are greater than ever. Whatever we have already been, we are no longer a Christian NACA. At least not only. We are also a Jewish nation, a Muslim nation, and a Buddhist nation, and a Hindu nation, and a nation of descrentes.E even if we had only Christians among us, if expulsássemos every non-Christian from the United States of America, Christianity who we would teach in schools? Would be that of James Dobson, or Al Sharpton? “
 
Comment: Here, Obama plays with the division between Christian denominations quoting James Dobson, an evangelical pastor faithful to the Christian tradition in the field of sexual morality, and another, Al Sharpton, also pastor, but controversial position because it is favorable to “gay marriage “. Now Sharpton, is not representative of Christian thought. If Obama wanted to develop a serious discourse, cite the teaching of Catholicism and mainline Protestant churches. However, he chose to make a joke …
 
Obama: Which passages of scripture should instruct our public policies? Should we choose Leviticus, which suggests slavery is acceptable … and that eating seafood is an abomination? Deteuronômio Or we could choose, which suggests stoning your child if he divert the Faith? Or should we just stick to the Sermon on the Mount? A passage that is so radical that it’s doubtful that our own Defense Department would survive its application … We … So before we empolgarmos, we read our Bibles now. People have not read the Bible.
 
Comment: Barack Obama seems unaware that Deteuronômio and Leviticus were written in the era prior to Christianity, therefore, attaches to Christianity something that he is not himself, but the Old Testament. As for slavery and Christianity, it is to inform you that in the year following the discovery of America in 1492, and over the whole century that followed, the Popes have issued 839 documents condemning slavery. Therefore, to relate Christianity and slavery is making a mistake knowledge of Christian doctrine and history. If I were to give a speech on “healthy eating,” the Democratic president, certainly consult nutritionists to guide you, but to talk about topics related to religion, prefers improvisation. The press works the same way.
 
Obama: What brings me to my second point: What democracy requires that those religiously motivated translate their concerns into universal values, rather than a specific religion. What I mean by that? It (democracy) requires that bids them are subject to discussion and are influenced by razão.Eu can be opposed to abortion for religious reasons, to take one example, but if I want to pass a law banning the practice, I can not simply recourse to the teachings of my church or invoke the Divine Will I have to explain that abortion violates some principle that is accessible to people of all faiths … including those without any faith. Now, it will be difficult for some who believe in the inerrancy of the Bible, as many evangelicals do, but in a pluralistic society we have no choice. The policy depends on our ability to persuade each other of common aims based on a common reality. It (the policy) trading involves the art of what is possible. And, at some fundamental level, religion does not allow trading, it is the art of the impossible.
 
Comment: Did Barack Obama do not agree that life is a universal value? Mr. Obama, people who condemn abortion, they have only religious arguments, but also civilians, since fetuses are human beings and have a right to life. If I were to make laws enforcing religious precepts, forcing non-believers to fulfill, Adventists, would propose laws prohibiting stores from opening on Saturdays, Catholics would stipulate fines for those who lacked the Sunday Mass, and the Jews would prohibit laws , sale and consumption of pork. Nothing in that such religious, are doing well in life American Civil …
 
Obama: “If God has spoken, then it is expected that the followers, to live according to God’s edicts, regardless of the consequences. Now, basing one’s life on such uncompromising commitments may be sublime, but to base our policy making on such commitments would be a dangerous thing. And if you doubt that, let me give you an example: We all know the story of Abraham and Isaac.Abraão was commanded by God to sacrifice his only son Without discussing, he takes Isaac up the mountain to the top and tie the Altar. Raises his knife. Is prepared to act … as God had commanded. Now, we know that things worked out, God sends an angel to intercede at the very last minute. Abraham passes the test of devotion Deus.Mas is fair to say that if any of us, when leaving this church saw Abraham on the roof of a building raising his knife, we would at least call the police. And we would expect that the Department of Services to Children and Family, take away custody of Isaac Abraham. We would do so because we do not hear what Abraham hears, we do not see what Abraham sees. So the best we can do is act on those things that we all see “
 
Commentary: Obama, can see and hear the ultrasound. You can see the fetus in the womb of a mother. The same Democrats that the fetus does not feel wrong to kill. Meanwhile, the press “Democrat” is scandalized when a Republican supporter of hunting, grabs his shotgun and blows the head of an animal (which certainly is not a pleasant image to see ….), while at the same time Thousands of children are forcibly ripped from the womb of their mothers (yes, the kids seek to defend himself …) and to the dustbin of hospitals. In this case, the journalists treat the matter as a “reproductive right” or “public health” … Barack Obama, can see and hear the ultrasound. He does not need the Bible and not see what Abraham sees ….
 
 
 
Cube-shaped …
 
 

Grande Arche de La Défense: Secularism

 

 
Gilles Lapouge, Paris correspondent of the state, wrote in his column in last Saturday (13): “If the Europeans had to choose today U.S. President Barack obama would win 75% of votes and Mitt Romney settle for 8% .. “What is that Obama is looking for many, represents hope. But hope for what?
 
In the few jobs created in the U.S. and many elimininados? In massive U.S. public debt of more than $ 16,000,000,000,000, which should end 2012 above 100% of GDP? How this situation could give “hope” to the Europeans? This overwhelming preference for Obama from the Old World, has a strong ideological component, although the degree of consciousness of each individual varies widely.
 
An interesting test Theologian George Weigel, titled: “The Cube and the Cathedral – Europe, America, and politics without God” (14), gives us clear clues of what is happening in Europe today. The “Cube” that comes Weigel’s book, is the “Grande Arche de La Défense in Paris, a modern building in the shape of a hollow cube, which was erected in 1989 in commemoration of the Bi-centenary of the French Revolution and which serves as a metaphor of European civilization that has been striding away from their Christian roots, in contrast to previous generations who built the Cathedrals. The modern “civilization cube”, is striding turning away from God, atheism is growing and this lack of belief in a transcendent Being Good and makes people lose all sense of good and evil. This has made generate anxieties and hopelessness among youth and adults. Violence and suicide has grown amid a individualistic and materialistic society, so that Weigel asks:
 
“You can keep standing democratic political community without moral reference points that Christianity has to offer?”
 
For it is precisely this secularism that Europeans see in Obama that motivates all the identification and support of the American president. One should not fail to take into account that in varying degrees, both Americans and foreigners in general, including in Brazil, see Barack Obama in a positive way, because of a massive propaganda (yes … that’s the word: propaganda)
 
The project of the Democratic Party in the U.S. is Marxist matrix because expels religion as “promoting the well” and puts the man himself as a promoter of “good” … and therein lies the root of the confusion, because gradually the concept of well with reference to the “human will without religious matrix”, is subject to fashion trends … ie “democratically” vai settling a real tyranny. Who is to say this is right or wrong? How is the perception of good and evil, without the guidance of a Higher Instance?
 
It is very convenient to oppose Barack Obama because of his political agenda, or more precisely for moral reasons, and at the same time give a much greater emphasis on economic issues that are clearly unfavorable to the American president. On the other hand, supporters of Barack Obama are acting exactly this way, but in the opposite direction: they recognize the economic failure, but want their reelection precisely the same reason that his opponents do not want: Obama’s agenda on issues elativos the Family . The Democrats’ message is simple: We want a different America, with other values ​​…. even if it costs another 4 years of unemployment …
 
So goes the question: what if the American economy was good?
 
Would be easy for Democrats, even more easy to press, and extremely difficult for Romney and the Republicans, but I will make a placement very simple: It is not expected that a different candidate will occupy the White House, to spoil everything well, especially when you have so much confidence people linked to the world economic and elsewhere. This is the case for Romney.
 
We can Mr. Obama, allowing the White House and America adopt the form of a cube? No, we can not.
 
Only American citizens can resolve…
 
Publicado por: algosolido | 4 de novembro de 2012

BARACK OBAMA E A CASA BRANCA EM FORMA DE CUBO -1

Obama : O preferido da imprensa, mas não de Wall Street

A edição de outubro de 2012 da revista Alfa (1), traz como matéria de capa, o presidente Barack Obama, com o título  “11 lições de Obama para resolver problemas“. Ao percorrer os tópicos destas “lições”, vemos algumas sugestões de senso comum como: “saiba do que você está falando”, “nunca perca a cabeça” ou “evite bajuladores”. Com exceção da inquestionável: “preserve a vida familiar”, a melhor de todas, no mais, nada inovador….

Esse é mais um dos inúmeros exemplos com que a imprensa brasileira e internacional – apesar dos fracos resultados da economia americana nos últimos quatro anos – têm tentado se utilizar para transformar o presidente americano num “ícone”. Tanto nesse caso, como em vários outros, como se diz no Brasil, a mídia está “forçando” : tentando tirar muito do pouco…

Bem diferente é o tratamento dado ao candidato oponente, o Republicano Mitt Romney, que frequentemente é ridicularizado e apresentado como um retrocesso. Não é exagero afirmar que a imprensa, “torce” por Obama, e de forma especial, os telejornais, que apresentam os comícios do candidato democrata em “clima de Copa do Mundo”, como se o telespectador brasileiro fosse cidadão americano…

Chega a soar surreal: “O Estado de São Paulo” um jornal muito rejeitado pela esquerda brasileira e tido como “conservador”, publicou uma matéria de Jonathan Weisman (N.Y. Times) (2), que apresenta de forma negativa, a tentativa de Mitt Romney durante a Convenção Republicana, de se mostrar como um americano de origem humilde e de se identificar com imigrantes e com várias etnias, mas que na verdade é um “milionário”. Ora, ser milionário, não é por si só, algo bom ou algo ruim, mas o estranho é um jornal que historicamente não enquadra na ideologia marxista, entrar nessa onda do:  “ cuidado, ele é milionário  “….

Outro jornal, mais fiel ao seu perfil de agradar leitores de esquerda, a “Folha de São Paulo”, vai mais longe, e abraça ainda mais a causa do “Yes, we Can”,ao dizer que …”Dois cenários catastróficos ameaçam a eleição americana”(3)…. Ora, os cenários “catastróficos” na reportagem de Patrícia Campos Mello, são a possiblidade de Romney vencer, ora no voto popular, ora no Colégio Eleitoral…Romney vencer: Catástrofe ? Porquê ?

Os exemplos continuam: Papai Romney sabe tudo” (4) – Essa, novamente do “Estado” ridicularizando o republicano por considerá-lo antiquado. Mais um: “Na reta final, novo fôlego à campanha democrata “(5) – Numa expressão quase futebolística, como um time se aproximando da liderança no campeonato brasileiro, assim elogia o “Valor Econômico” o desempenho de Obama no segundo debate…

À essa altura, podemos entender que a julgar pela imprensa, os democratas são o “bem”, e os republicanos, o “mal”. Barack Obama, um “anjo”, e Mitt Romney, tem chifres, carrega um tridente e tem um rabo pontudo…

E Romney ?

Romney: mais próximo dos valores da Família e pulso firme para comandar a Economia

É um candidato mais simpático aos cristãos americanos, não tanto pela sua religião: é Mórmon, mas por suas posições mais restritivas ao aborto, embora o aceite em casos especificos como o estupro, algo que o Cristianismo não tolera, pois considera o aborto “intrinsecamente mau”, ou seja: não existe “aborto bom”. Juntamente com o fato de ser contra as politicas de Barack Obama, e ser promotor de um modelo mais liberal na Economia, é considerado por muitos eleitores, como um “mal menor”….

Fazendo um trabalho de “garimpo” nos jornais, podemos colher depoimentos fortes e bastante lúcidos em favor do candidato republicano, embora não recebam o devido destaque. Uma breve entrevista no “Estado”(6), com o vocalista Genne Simmons da banda de Rock Kiss, retrata essa situação de modo preciso :

Estado – Ouvi que você declarou voto em Mitt Romney recentemente, dizendo que Obama era uma decepção para você…

Simmons – Não estou certo. Votei em Obama, mas ele não domina o mundo do comércio. Romney é um businessman, tem condições de melhorar a educação, criar empregos. Eu queria agora, ver o que os candidatos tem a dizer para decidir. Ele tem feito uma boa campanha, mostra que as pessoas agora têm uma opção. Eu ainda estou me decidindo.

Estado – Mitt Romney é mórmom. Isso não coloca a religião no meio da política? Não é complicado ?

Simmons – As duas coisas mais importantes, as que são prioridade neste momento, são empregos e como tornar o país seguro. O restante pode ser discutido depois.

Bem mais incisivo, foi o depoimento do ator e diretor Clint Eastwood -autor do famoso “discurso da cadeira vazia” e eleitor declarado de Romney, em entrevista a Luis Carlos Merten – do Caderno 2 do “Estado”(7):

Estado – O senhor tem apoiado a candidatura de Mitt Romney à Presidência dos EUA, porque ?

Clint “ Não quero ser ofensivo com Obama, mas com ele, a América e o mundo andam à deriva. Gostem ou não as pessoas no exterior, a América representa o poderio militar e econômico. Não se pode vergar. As políticas de Obama são sociais. Muita intervenção do Estado para o meu gosto. Sou contra o intervencionismo. Detesto quando o estúdio vem me dizer o que tenho de fazer. Venho de uma família que passou dificuldades e até fome, na depressão dos anos 30. Meu pai nunca esperou que o governo viesse nos salvar. Ele deu duro e nos ensinou a nunca depender dos outros. Um país é como uma casa. Precisamos de uma boa limpeza, e quem pode fazê-la é Romney. ”

E Wall Street concorda com Simmons e Eastwood: (8)

A utilidade para Obama é limitada à essa altura. Embora as ações estejam em alta, os salários estão em queda, o crescimento do PIB, tem sido anêmico e a taxa de desemprego, continua elevada”  – na opinião de Andy Laperniere, chefe da prática de análises políticas do ISI Group.

O Mercado quer Romney e ponto final. Os profissionais do mercado financeiro reconhecem que as ações estão se saindo bem, mas a grande maioria dessas pessoas está convencida de que o mercado vem subindo apesar de Obama, e não por causa dele….” acrescenta Greg Valliere da Potomac Pesearch .

Pode-se dizer que a imprensa e o mercado financeiro não estão falando a mesma linguagem. A  imprensa está impregnada de ideologia, e tem exercido forte influência na opinião pública dos EUA e do mundo inteiro…

Não é a Economia, estúpido…

A Economia americana vai mal e Obama não é uma unanimidade. Apesar do “esforço eleitoral” da imprensa americana e mundial, pode-se dizer que o desempenho eleitoral de Obama é muito fraco. Com um quadro assim, seria razoável que se desejasse a mudança, que se optasse por Romney. Acontece que a “mudança” que parte da sociedade americana e da imprensa desejam, já aconteceu e ocupa a Casa Branca: Barack Husseim Obama.

Se é verdade ou mito que Luis XIV disse “O Estado sou Eu“, Obama, bem pode dizer  “A Mudança sou Eu“.

Em termos práticos, pode-se afirmar que o crescimento econômico e a geração de empregos, não é a motivação principal dos apoiadores de Barack Obama, e sim, o fato do atual presidente americano, assumir uma postura de mudança de valores a caminho da secularização da sociedade americana em que os valores religiosos são deixados de lado dando lugar a critérios politicos para definir o que é licito ou ilícito nas ações dos cidadãos e dos governos. Durante décadas os EUA foram apresentados como um modelo de país desenvolvido, agora, querem que os Estados Unidos sejam um modelo de “sociedade secular e satisfeita”. Assim sendo, a definição de casamento, a consolidação de “formas alternativas” de familia, o direito à vida e a própria liberdade religiosa, passam a ser discutidos por critérios de consenso político sob a chancela da “democracia” . Os valores da moral cristã sob o qual se fundamentou a nação americana, ficam de fora. O “certo” e o “errado”, dependeriam de consenso politico….

Há um trecho muito interessante do filme Magnun 44 ( Magnun Force, 1973 – EUA ), em que o detetive detetive Harry Callahan – interpretado por Clint Eastwood – discute com um colega de trabalho, sobre a ação secreta e ilegal de uns policiais que resolveram fazer justiça com as próprias mãos executando os chefões do crime na cidade. Num trecho do diálogo, o personagem cita o “Esquadrão da morte” que atuava no Brasil como exemplo, e diz que se formos permitir que as pessoas ajam por conta própria, iremos acabar matando uma pessoa porque passou no farol vermelho..( sinal de trânsito )

Ora, qual o parâmetro do detetive Callahan ? A Lei

Qual o parâmetro da Lei ? Os valores fundamentais de uma sociedade.

Publicado por: algosolido | 4 de novembro de 2012

BARACK OBAMA E A CASA BRANCA EM FORMA DE CUBO -2

 

Os valores fundamentais da sociedade americana, bem como da européia e do ocidente em geral, estão fundamentados  em valores cristãos. Isso não se deve confundir com preceitos e ritos religiosos, porque entre esses valores fundamentais está a liberdade, inclusive a liberdade religiosa. Portanto, os tais valores fundamentais “não implicam em imposição de crenças religiosas”. Como exemplo, vale dizer que os valores religiosos são adequados para definir o que é vida, implicando em temas como aborto e eutanásia. É algo tão fundamental que é acessivel e aceitável até mesmo para os não-crentes. Estamos falando de algo bem diferente de imposição de crenças.Se as pessoas se tornam insensíveis à vida de um bebe no útero, porque haverão de se tornar sensíveis ao momento imediatamente posterior ao nascimento ?

Pois saibam que o presidente Obama votou contra a Lei de Proteção dos Bebês nascidos vivos. Essa lei obrigava o hospital a manter vivo o recém nascido que sobreviveu a uma tentativa de aborto . Obama votou 3 vezes contra essa lei enquanto senador pelo Estado de Illinois. Os “moderninhos” vão chamar isso de “direito reprodutivo”, mas qualquer pessoa que tenha um mínino de humanidade ( não precisa carregar a Bíblia na mão… ) vai chamar isso de infanticídio. A imprensa brasileira não fala isso. Por isso Barack Obama é tao “queridinho” aqui no Brasil…(9)

Outro exemplo revelador do perfil de Obama, aparece na campanha publicitária visando o público feminino (10): Obama nos dá uma idéia de como são os seus “valores”: Um desenho animado: “Vida de Julia” conta a estória de uma mulher da sua infância até a aposentadoria: Jùlia é a típica mulher “moderninha” pode tocar a sua vida profissional e sexual como solteira sem se preocupar, porque o “Obamacare” – Plano de saúde do goberno Obama, cuidará da moça caso se engravide. O governo americano paga o aborto. Após os 30 anos decide ter um filho. Não se fala de pai ou marido. Julia se aposenta e o filho estuda custeado pelo governo.

Outra vídeo de campanha chama-se “Primeira vez” em que a atriz Lena Dunhan compara a experiência “incrível” de votar em Obama, com perder a virgindade…exatamente isso….esse aviltamento dos valores morais e da familia, é uma marca da campanha de Obama….

Os valores religiosos são perenes e as tendências da moda são efêremas. O que é abominável hoje numa sociedade secular, pode ser tolerável amanhã pela geração futura, ( e já se nota isso….) uma vez que a sociedade secular está ancorada nas vontades do momento e não em valores fundamentais. É nesta situação que a tendência secularista européia e americana pretende colocar a sociedade ocidental, como pretexto de não obrigar os que não crêem e viver do mesmo modo do que os que crêem.

Volto a dizer….esse dilema é falso…

No ano de 2003 por ocasião das discussões da Nova Constituição da União Européia, em que vários lideres europeus, queriam excluir do texto, a menção a Deus, o Papa João Paulo II, fez a seguinte declaração no Angelus de 16 de fevereiro :

“… Precisamente por isso se pediu que, no futuro Tratado constitucional da União Européia, não deixe de se conceder um espaço a este património comum ao Oriente e ao Ocidente. Uma referência como esta nada tirará à justa laicidade das estruturas políticas (cf. Lumen gentium, 36; Gaudium et spes, 36, 76) mas, ao contrário, ajudará a preservar o Continente, por um lado, do duplo perigo do laicismo ideológico e, por outro, do integralismo sectário… ” (11)

Note-se que o Papa, se refere a uma “justa laicidade”, que distingue a esfera política da religiosa que portanto, respeita as diversas crenças, não tendo ( e impondo ) o Estado a uma “religião oficial”. Por outro lado, o Estado não deve impedir que os cristãos contribuam para a sociedade e expressem suas opiniões, que é uma disfarçada restrição à liberdade religiosa. Essa atitude de silenciar os cristãos é ideológica e se chama Laicismo.

Ao discursar numa igreja protestante(12), Barack Obama, pretendeu explicar seu posicionamento quanto às críticas que recebe de religiosos, e que vale  aqui comentar:

Obama:…Dada a crescente diversidade das populações dos Estados Unidos, os riscos de sectarismos estão maiores do que nunca. O que quer que nós já tenhamos sido, nós não somos mais uma naçã cristã. Pelo menos não somente. Nós somos também uma nação judaica, uma nação muçulmana,e uma nação budista, e uma nação hindu, e uma nação de descrentes.E mesmo se nós tivéssemos apenas cristãos entre nós, se expulsássemos todos os não-cristãos dos Estados Unidos da América, o cristianismo de quem nós ensinaríamos nas escolas? Seria o de James Dobson, ou o de Al Sharpton ?”

Comentário: Aqui, Obama brinca com a divisão entre denominações cristãs citando James Dobson, um pastor evangélico fiel à tradição cristã no campo da moral sexual, e outro, Al Sharpton, também pastor, mas de posição controversa, pois é favorável ao “casamento gay”. Ora, Sharpton, não é representativo do pensamento cristão. Se Obama quisesse desenvolver um discurso sério, citaria o ensinamento do catolicismo e das igrejas protestantes históricas. No entanto, preferiu fazer piada…

Obama: Que passagens das escrituras deveriam instruir as nossas Políticas públicas ?Deveríamos escolher o Levítico, que sugere que a escravidão é aceitável…E que comer frutos do mar é uma abominação ?Ou poderíamos escolher o Deteuronômio, que sugere apedrejar o seu filho, se ele desviar da Fé ?Ou deveríamos apenas ficar com o Sermão da Montanha?Uma passagem que é tão radical que é de se duvidar que o nosso próprio Departamento de Defesa sobreviveria à sua aplicação…Nós…Então, antes de nos empolgarmos, vamos ler as nossas Bíblias agora. As pessoas não têm lido a Bíblia.

Comentário: Barack Obama parece não saber que o Levítico e o Deteuronômio, foram escritos na era anterior ao Cristianismo, portanto, atribui ao Cristianismo algo que não lhe é próprio, mas sim ao Antigo Testamento. Quanto à escravidão e cristianismo, cabe informar que no ano seguinte ao descobrimento da América em 1492, e ao longo do todo o século que se seguiu, os Papas emitiram  839 documentos condenando a escravidão. Portanto, relacionar Cristianismo e escravidão é cometer um erro de conhecimento de doutrina cristã e de história. Se fosse fazer um discurso sobre “alimentação saudável”, o presidente democrata, certamente consultaria nutricionistas para orientá-lo, mas para falar de temas relacionados à religião, prefere o improviso. A imprensa age do mesmo modo.

Obama: O que me trás ao meu segundo ponto: Que a democracia exige que aqueles motivados pela religião traduzam suas preocupações em valores universais, ao invés de específicos de uma religião. O que eu quero dizer com isso ? Ela ( a democracia ) requer que as propostas delas estejam sujeitas à discussão e sejam influenciáveis pela razão.Eu posso ser contrário ao aborto por razões religiosas,para tomar um exemplo, mas se eu pretendo aprovar uma lei proibindo a prática, eu não posso simplesmente recorrer aos ensinamentos da minha igreja ou invocar a Vontade Divina eu tenho que explicar que o aborto viola algum princípio que é acessível a pessoas de todas as fés incluindo aqueles…sem fé alguma. Agora, isso vai ser difícil para alguns que acreditam na inerrância da Bíblia,como muitos evangélicos acreditam, mas em uma sociedade pluralista nós não temos escolha. A politica depende das nossas habilidades de persuadir uns aos outros, de objetivos comuns com base em uma realidade comum. Ela ( a política ) envolve negociação, a arte daquilo que é possível. E, em algum nível fundamental,a Religião não permite negociar;é a arte do impossível.

Comentário: Será que Barack Obama não concorda que a Vida é um valor universal ? Sr. Obama, as pessoas que condenam o aborto, não têm apenas argumentos religiosos, mas civis também, uma vez que os fetos são seres humanos  e têm direito à vida. Se fosse para fazer leis impondo preceitos religiosos, obrigando os não crentes a cumprir, os Adventistas, iriam propor leis proibindo as lojas de abrirem aos sábados, os Católicos iriam estipular multas para quem faltasse à Missa Dominical, e os Judeus, iriam proibir pelas leis, a venda e o consumo de carne de porco. Nada consta, que tais religiosos, estejam procedendo assim na vida civil americana…

Obama: Se Deus falou, então espera-se que os seguidores, vivam de acordo com os éditos de Deus,a despeito das consequências. Agora, basear a vida de uma pessoa em compromissos tão inegociáveis podem ser sublime, mas basear nossas decisões políticas em tais compromissos seria algo perigoso. E se você duvida disso, deixe-me dar um exemplo:Nós todos conhecemos a história de Abraão e Isaac.Abraão foi ordenado por Deus a sacrificar seu único filho Sem discutir, ele leva Isaac montanha acima até o topo e o amarra ao Altar. Levanta a sua faca. Prepara-se para agir…como Deus ordenara. Agora, nós sabemos que as coisas deram certo: Deus envia um Anjo para interceder bem no último minuto. Abraão passa no teste de devoção de Deus.Mas é justo dizer que se qualquer um de nós, ao sair desta igreja, visse Abraão no telhado de um prédio levantando sua faca, nós iríamos no mínimo, chamar a polícia. E esperaríamos que o Departamento de Serviços às Crianças e à Família, tirasse a guarda de Isaac de Abraão. Nós faríamos isso, porque nós não ouvimos o que Abraão ouve, nós não vemos o que Abraão vê. Então o melhor que podemos fazer é agir de acordo com aquelas coisas que todos nós vemos”

Comentário: Obama, pode ver e ouvir o ultrassom. Pode ver o feto no útero de uma mãe. O mesmo feto que os Democratas não acham errado matar. Enquanto isso, a imprensa “democrata” se escandaliza quando um republicano adepto da caça, pega a sua espingarda e estoura a cabeça de um animal ( o que com certeza, não é uma imagem agradável de se ver….), quando ao mesmo tempo, milhares de crianças são arrancadas à força do útero de suas mães ( sim, as crianças procuram se defender …) e jogadas no lixo dos hospitais. Neste caso, os os jornalistas tratam o assunto como “direito reprodutivo” ou “saúde pública“…Barack Obama, pode ver e ouvir o ultrassom. Ele não precisa da Bíblia e nem ver o que Abraão vê….

 

 Em forma de Cubo…

Grande Arco de La Défence : Laicismo

 

Gilles Lapouge, correspondente em Paris do Estado, escreveu no último sábado em sua coluna (13): “ Se os Europeus tivessem que escolher hoje o presidente americano, Barack obama, ganharia 75% dos votos e Mitt Romney se contentaria com 8%.. “  O que está parecendo é que  Obama para muitos, representa a esperança. Mas, esperança em quê ?

 

Nos poucos empregos gerados e muitos elimininados nos EUA ? Na gigantesca dívida pública americana de mais de U$16.000.000.000.000, que deve encerrar 2012 acima de 100% do PIB ?  Como essa situação poderia dar “esperança” aos europeus ?  Essa preferência esmagadora do Velho Continente por Obama, tem um forte componente ideológico, embora o grau de consciência de cada indivíduo varie muito.

Um interessante ensaio do Teólogo George Weigel, entitulado: “O Cubo e a Catedral – A Europa, a América e a política sem Deus”(14), nos dá pistas claras do que ocorre hoje na Europa. O “Cubo” de que trata o livro de Weigel, é o “Grande Arco de La Défence, em Paris, uma construção moderna em forma de um cubo oco, que foi erguida em 1989, na comemoração ao Bi-Centenário da Revolução Francesa e que serve de metáfora da civilização européia que vem se afastando a passos largos das suas raizes cristãs, em contraposição às gerações anteriores que construíram as Catedrais. A moderna “civilização do cubo”, está a passos largos se afastando de Deus, o ateísmo é crescente e essa falta de crença num Ser Trancendente e Bom, faz as pessoas perderem a noção do bem e do mal. Isso tem feito gerar inquietações e desesperanças entre os jovens e adultos. A violência e o suicício tem crescido no meio de uma sociedade individualista e materialista, de tal forma que Weigel pergunta:

É possível manter de pé uma comunidade politica democrática sem os pontos de referência morais que o Cristianismo tem para oferecer ?”

Pois é justamente esse secularismo que os europeus vêem em Obama, que motiva toda essa identificação e apoio ao presidente americano. Não se deve deixar de levar em conta que em graus variados, tanto os americanos como os estrangeiros em geral, inclusive no Brasil, vêem Barack Obama de forma positiva, por conta da uma maciça propaganda ( sim…essa é a palavra : propaganda )

O projeto do Partido Democrata nos EUA, é de matriz marxista, pois expulsa a religião como “promotora do bem” e coloca o próprio homem como promotor desse “bem”…e nisso está a raiz da confusão, pois aos poucos o conceito de bem tendo como referência a “vontade humana sem matriz religiosa”, está sujeita a tendências da moda…ou seja “democraticamente”  vai se instalando uma verdadeira tirania. A quem cabe dizer: isto está certo ou errado ? Como fica a percepção do bem e do mal, sem a orientação de uma Instância Superior ?

É muito conveniente se opor a Barack Obama, por causa de sua agenda politica ou mais precisamente por razões de ordem moral, e ao mesmo tempo, dar uma ênfase muito maior nos temas econômicos que evidentemente são desfavoráveis ao presidente americano. Por outro lado, os defensores de Barack Obama, estão agindo exatamente deste modo, mas em sentido oposto: reconhecem o insucesso econômico, mas querem a sua reeleição justamente pelo mesmo motivo que seus opositores não querem: a agenda de Obama sobre temas elativos à Família. O recado dos democratas é simples : Queremos uma América diferente, com outros valores….mesmo que custe mais 4 anos de desemprego…

Portanto, vale a pergunta: e se a Economia Americana estivesse bem ?

Ficaria fácil para os Democratas, fácil ainda mais para a imprensa, e extremamente difícil para Romney e os Republicanos, mas vou fazer uma colocação muito simples : Não é de se esperar que um candidato diferente venha ocupar a Casa Branca, para estragar tudo que está bem, ainda mais quando se tem a confiança tanto de pessoas ligadas ao mundo econômico como fora dele. É o caso de Romney.

Podemos Sr. Obama, permitir que a Casa Branca e a América adotem a forma de um cubo ? Não, nós não podemos.

Está nas mãos dos cidadãos americanos.

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Notas :

(1)    Revista “Alfa” Outubro de 2012 – Editora Abril – Págs. 56 a 61

(2)    O Estado de São Paulo – Caderno Aliás – Pág. J5 ”Morenos e emergentes” – 02/09/2012

(3).   http://www1.folha.uol.com.br/colunas/patriciacamposmello/1174828-dois-cenarios-ameacam-eleicoes-dos-eua.shtml

(4)    O Estado de São Paulo – Caderno Aliás – Pág. J3 ”Papai Roney Sabe Tudo” – 21/10/2012

(5)    Brasil Econômico – – Pág. 4 – “Na reta final, novo fôlego à campanha democrata” – 18/10/2012

(6)    O Estado de São Paulo – Caderno 2 – Pág. C2 ”Temporada de Língua Solta” – 27/10/2012

(7)    O Estado de São Paulo – Caderno 2 – Pág. D9 “O Xerife solta o Verbo” – 30/10/2012

(8)    Valor – Pág. A20 – “Wall Street se recupera, mas prefere Romney” – 23/10/2012

(9)    http://www.jillstanek.com/2008/02/links-to-barack-obamas-votes-on-illinois-born-alive-infant-protection-act/

(10)  http://www.mercatornet.com/sheila_liaugminas/view/11447

(11)  http://www.vatican.va/holy_father/john_paul_ii/angelus/2003/documents/hf_jp-ii_ang_20030216_po.html

(12)  http://www.youtube.com/watch?v=_IHQr4Cdx88 

(13)  http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,o-fascinio-por-obama-,955021,0.htm

(14)  O Cubo e a Catedral – George Weigel – Lisboa : Aletheia, 2006 – pp 151

Publicado por: algosolido | 15 de abril de 2012

MAD MEN

Ou, “BAD MEN” – Os anos 60 com “Cara de cão” …

O sonho americano na Sterling Cooper de Mad Men

“…Tu, pessoa nefasta, tens a aura da besta, essa alma bissexta, essa cara de cão…” (1)  (Pessoa Nefasta- Gilberto Gil)

Em maio de 2011, a revista “Aventuras na História” (Ed. 94), publicou uma matéria assinada por Gisela Blanco, entitulada “Tão longe, tão perto”…acerca do sucesso da Série Mad Men, criada por Matthew Weiner (Família Soprano), lançada em 2007, acumulando prêmios consecutivos desde 2008, chegando a influenciar o modo de vestir das mulheres nova-iorquinas. De fato, o cenário é a Nova York dos anos 60 e os episódios giram em torno do personagem Donald Drapper, ( John Hamm ), diretor de criação da Agência de Publicidade Sterling Cooper, situada na Madison Avenue ( donde se origina o nome da série ). Foi uma época de transformações na sociedade, que afetaram profundamente as relações familiares, com uma forte inserção da mulher no mercado de trabalho e uma maior “liberação” no comportamento sexual.

Contudo, a família ainda era uma instituição forte e prestigiada na sociedade: mais numerosa e com forte presença e influência dos pais na educação dos filhos, pois as mudanças ainda levariam alguns anos para se consolidarem, afetando profundamente o comportamento de homens e mulheres ( principalmente elas ) causando com isso, uma transformação radical nas famílias.  No início da matéria, há um trecho em que a articulista, a partir do que viu nos primeiros capítulos, de Mad Men, pretende resumir o panorama da época:

“As mulheres tentam driblar preconceitos para ocupar postos de trabalho até então reservados só para homens. As saias são compridas, e a liberdade curta. Médicos não receitam a nova pílula anticoncepcional sem antes dar lições de moral. Estamos frente a frente com a geração que criou o ideal de felicidade americano. E então descobrimos: eles não eram nada felizes”


É bom se dar conta que quem diz que “eles não eram nada felizes“, é um observador atual, falando do passado, mas com critérios de hoje. Muitos escritores, jornalistas, e sobretudo historiadores, se esquecem desse critério tão básico de avaliar um tempo que passou, a partir da mentalidade da respectiva época, mas frequentemente, senão sempre, se fala do passado, com critérios do nosso tempo. Por isso mesmo, é uma arbitrariedade ( ou uma política ? ) afirmar que do modo como hoje vivemos, sejamos mais felizes…

Uma “boa” descrição do mal…

Nos anos 80, o cantor Gilberto Gil, numa entrevista, ouviu um comentário de uma jornalista acerca da letra da sua música “Pessoa Nefasta”, que fala das maldades de uma pessoa de uma forma tão eloquente que chegava-se a “admirar” essa pessoa. Talvez satisfeito com o elogio, o cantor respondeu que procurou nessa música, fazer “uma boa descrição do mal”.

A série Mad Men, pode – em parte – ser descrita desta maneira: como uma “boa descrição do mal”: muito cigarro, muita bebida, e muito adultério….e  por ser uma série e não um longa de episódio único, há uma verdadeira imersão na época e no ambiente que é retratado: as ações são lentas e não há discurso “politicamente correto” – não explicitamente – e tudo isso numa qualidade impecável de fotografia e interpretação. Mas há uma falha: basicamente se mostra o mal. Rejeita-se mostrar no modelo familiar da época, qualquer tipo de vantagem, embora a sinceridade de algumas cenas, possibilite algumas reflexões úteis, como no caso de um menino solitário e carente, filho de uma mãe divorciada, que o deixa em casa com a vizinha e vai atrás de interesses particulares ( é ativista política ), e principalmente no caso do protagonista Don Drapper – filho de uma prostituta – desconheceu o carinho familiar na infância, e na vida adulta não consegue ser bom pai, muito menos bom marido…

Um exemplo para comparação temos em “O Sorriso de Monalisa” (Mona Lisa Smile, 2003), estrelado por Julia Roberts: é o exemplo perfeito de um filme “politicamente correto” que já vem com discurso pronto: É só abrir a tampa e engolir. Trata-se de um roteiro ambientado nos anos 50, mas com linguagem atual: Os personagens são caricaturados: uma moça que tem no casamento e nos filhos, a prioridade de sua vida, é frustrada, invejosa e se casa com um homem que a rejeita logo após o casamento, se envolvendo com uma amante, ao passo que a personagem principal ( vivida por Julia Roberts ), é o protótipo da “bem resolvida” na terminologia atual: é solteira, “passou” da idade de se casar para os padrões da época, prioriza a vida profissional, e quando sofre, é pelo “preconceito” dos outros que sofre, porque com ela, “está tudo bem”….não tem pressa de se casar, até porque já mantém relações sexuais com os ( sim: “os” ) namorados enquanto solteira….

Sem moralismos, podemos dizer que para ela, fica fácil não ter pressa em se casar…Num didatismo escancarado, todos os personagens centrais em “O Sorriso de Monalisa”, são caricaturados para viabilizar “catequese” feminista do filme.

Tal recurso não ocorre em Mad Men. As coisas simplemente acontecem: sem discursos, os homens bebem, assediam as mulheres no trabalho, mesmo os casados e os que acabaram de voltar de uma Lua de Mel. E as mulheres choram…no trabalho e em casa…

No capítulo de estréia, uma nova funcionária tem seu primeiro dia de trabalho na agência: Peggy Olson ( Elisabeth Moss ). Peggy, se veste de maneira “recatada” e age com discrição. “Orientada” pela chefe das secretárias, Joan Holloway ( Christina Hendriks ) esta, amante de um dos chefões da Sterling Cooper, Roger Sterling ( John Slattery ), toma conhecimento de como as coisas funcionam por lá.

Vejamos a transcrição de alguns diálogos :

Diálogo 1:

Joan “aconselha” a novata Peggy:

JoanPode parecer que ( os homens ) querem uma secretária…mas na maior parte do tempo, querem algo entre uma mãe e uma garçonete. E o restante do tempo, bem…vá para casa, pegue um saco de papel com dois buracos para os olhos, coloque-o na cabeça, tire a roupa e se olhe nos espelho: avalie seus pontos fortes e suas fraquezas com honestidade
Peggy Sempre tento ser honesta
JoanBom pra você

Diálogo 2:

Peggy vai ao Ginecologista indicado por Joan: (Peggy aguarda o médico lendo um livro dedicado às noivas em sua noite de núpcias….)

MédicoEu vejo pela sua ficha e pelo seu dedo que não é casada…
PeggyIsso mesmo…
MédicoE mesmo assim está interessada em pilulas anticoncepcionais…
PeggyBem, eu estava…
MédicoNão previsa ficar nervosa….Joan te enviou a mim, porque não estou aqui para julgá-la. Não há nada errado em uma mulher pensar na possibilidade de atividade sexual.
PeggyÉ bom saber…
MédicoMas, como médico, espero que, ao colocar uma mulher nessa situação, ela não se torne uma mulher da vida.Vou dar um aviso: se você abusar, suspendo a pílula. É para seu próprio bem. O fato é que, mesmo nestes tempos modernos, mulheres fáceis não encontram marido… ( nesta hora, Peggy vira o rosto e olha para um calendário de parede: ano 1960…)
PeggyEu entendo Dr. Emerson. Eu sou uma pessoa bem responsável
MédicoTenho certeza de que não é esse tipo de garota, mas Joan…

Diálogo 3:

Peggy assedia Don….( Peggy entra na sala de Don Draper e diz:)

PeggyEu só queria agradecê-lo por um ótimo primeiro dia ( de trabalho ) A seguir, Peggy, toca na mão de Don…
DonEm primeiro lugar Peggy, sou seu chefe e não seu namorado (afastando a mão de Peggy )
PeggyEspero que não pense que sou esse tipo de garota
DonClaro que não…

O primeiro capítulo se encerra com Don Drapper voltando para casa – onde sua esposa o aguarda e vai ver os filhos no quarto. Na noite anterior, Don dormiu fora de casa. No apartamento da amante… ( Continua na parte 2 )

Publicado por: algosolido | 15 de abril de 2012

Uma boa descrição do mal – Parte 2

Feminismo sem Ativismo Político

Toda a situação sugere que  Peggy é virgem, e nota-se na postura do médico – apesar de um diálogo que choca nos  dias atuais  e também na postura de Don, que ambos admiram a virgindade de Peggy e gostariam que ela permanecesse assim até casar-se. Admiram a virtude, e particularmente no caso de Don, não conseguem vivê-la. Pode-se argumentar que Don rejeita o assédio de Peggy apenas por não querer problemas no ambiente de trabalho. Essa impressão se desfaz nos episódios seguintes, quando Don “arrisca” a sua vida profissional em novas aventuras extra-conjugais.

Peggy Olson: Geração “Y” com cara de “Boomer”

No entanto, Peggy, ocupa em Mad Men, a mesma função que a personagem de Julia Roberts em Mona Lisa Smile, mas  em doses homeopáticas. Peggy é uma feminista sem se dar conta, como praticamente admite o criador da série em entrevista ao site Slate Magazine:

 “…E é parte da razão pela qual eu amo as pessoas falando sobre ela ( Peggy ) como uma feminista, porque eu acho que ela não tem idéia do que ela é política e que ela iria negá-lo. Ela é apenas alguém que quer o que ela tem direito…” (2)

Peggy realmente não tem o perfil de uma ativista politica: tem “alguma” prática religiosa, não se apresenta como uma “reformadora social”, está mais preocupada com seu progresso profissional, e o faz com competência, é ligeiramente tímida e rejeita muitos assédios, mas nem sempre…Ou seja, Peggy não é propriamente um “modelo de virtude”, mas é vista como tal, assim que chega para trabalhar na Sterling Coopers, e por isso, atrai admiração. Esse perfil, faz de Peggy Olson, uma personagem de certo modo artificial ou incomum , uma vez que reúne combinações pouco compatíveis com a época, em particular uma certa religiosidade, combinada com uma pronta disposição em se adaptar a “novos padrões” de comportamento sexual. E no campo profissional, Peggy pela sua “pressa” em crescer profissionalmente ( impressão de Roger Sterling na segunda temporada ), está mais para “Geração Y”, mas com cara de Boomer…(3)

A função de Peggy é mostrar o feminismo com uma “cara” simpática…

Na piscina de Palm Springs

Don Drapper : sua bela esposa não é feliz…

Já o que se pode notar em Don e até na “mal falada” Joan, é que ambos vivem como gostam de viver : de forma hedonista. Mas não consideram a si próprios, modelos de virtude, por isso mesmo, não são hipócritas: não fazem discurso moralista, o que faz muitos julgarem que são pessoas “autênticas”. Mas na verdade não são autênticos: são expontâneos, vivem entregues aos desejos do momento, mas se entregam com tanta frequência…..que essa expontaneidade costuma ser identificada erroneamente como “autenticidade”. Mas esse modo de viver, chega a um momento de reflexão para Don num episódio da segunda temporada, quando ele mergulha de vez na sua vida paralela de adultérios, já em crise no casamento: passa uma temporada em Palm Springs na Califórnia.

O que seria uma breve viagem de negócios, se tranforma numa “fuga” de três semanas ao se ausentar da família e do trabalho. Nessa viagem, conhece uma moça de 21 anos que o assedia de forma obstinada, e o leva para uma casa onde está hospedada parte de sua familia e uma turma de amigos: pessoas ricas e meio nômades, “ocupados” em simplesmente não fazer nada, além de ficar tomando sol na beira da piscina, bebendo, e tendo conversas fúteis em jantares exóticos, num ambiente frívolo e sem compromisso….

O ambiente choca Don. Ele não gosta do que vê, visto que está cercado de gente como ele, ou “pior” do que ele. Na casa de Palm Springs, Don não vê um só vestígio de virtude. Encontra ali, simplesmente um superlativo da sua rotina de vida. É a sua vida levada ao extremo. Numa cena emblemática, Don está sozinho na piscina, observa um casal se beijando e fica pensativo olhando para um copo, como quem se pergunta:

O que estou fazendo aqui ?

Onde fui me meter ?

Que tipo de gente é essa ?

Don caindo em si, parece pensar como o filósofo e escritor argelino Albert Camus, que recordando os jovens nas praias da capital de seu país, escreveu esses pensamentos:

“…O mar interpreta seu canto em contrabaixo. O sol, o vento leve… o azul já áspero do céu, tudo me faz pensar no verão, na dourada juventude que então enche a praia, nas longas horas passadas na areia, na brusca doçura dos crepúsculos…” (4)

“Os homens encontram aqui, durante toda a juventude, uma vida à altura de sua beleza. Depois vem o declínio e o esquecimento. Eles apostaram na carne sabendo que iam perder. Em Argel, para quem é jovem e esperto, tudo é refúgio e pretexto para o triunfo: a baía , o sol, os motivos em vermelho e branco dos terraços sobre o mar, as flores e os jardins, as moças bonitas…Mas quem perdeu a juventude não tem onde agarrar-se, para esse não existe lugar onde a melancolia possa fugir de si mesma”(5)

“Só existe uma verdade muito simples e muito clara, um pouco boba, mas difícil de descobrir e pesada para carregar… os homens morrem, e não são felizes “(6)

A comparação é inevitável: Palm Springs é a “Argel” de Don Drapper.

A “cara de cão” e a busca da felicidade.

O excesso de bebidas e cigarros e de infidelidades masculinas em Mad Men, acabam mostrando os anos 60 com uma “cara de cão”: evita-se na série, mostrar familias felizes para que possamos perceber que muitos homens e mulheres, foram felizes naquela época, mesmo com familias numerosas. Falar assim nos dias de hoje, é motivo para arrancar risos ou frases iradas de indignação – deles e delas…Mas pude colher num fórum americano que debatia o impacto da série Mad Men para as familias
americanas, um depoimento honesto de quem viveu a época:

“…Mas eu concordo que é provavelmente próximo de como era a vida para muitos de nós, e foi certamente mais animador do que em Mad Men. Sim, houve problemas. Eu acho que para as famílias negras, o início dos anos 60 não foi um tempo acolhedor e feliz, embora eu saiba que muitas famílias negras conseguiram viver uma vida feliz e saudável, apesar do tumulto e violência em torno deles. Houve outros problemas – as mulheres eram consideradas de segunda classe (não podiam ter cartões de crédito, não dirigiam, etc.) O medo de uma guerra nuclear era galopante (e ainda é!). O medo do comunismo era galopante (agora é o medo da Al-qaeda). E, claro, houve Viet Nam – Este dominava a minha infância. Mas foi, para a maior parte, um bom momento para ser uma família nos EUA, pelo menos até 1968. Então todo o mundo desmoronou.” (7)

Pode-se notar que o depoimento não traça a sociedade da época com uma visão de “anos dourados e felizes”, reconhece as mazelas e os conflitos, mas conclui que efetivamente as familias viviam um momento melhor. Juridicamente hoje, a mulher não é mais de “segunda classe”, mas continua a ser mal tratada, só que aprendeu a “dar o troco”…Pode-se ver nesta reação, uma justiça do tipo “olho por olho, dente por dente”. Ocorre que fica difícil concordar que foi uma “evolução” para a mulher “aprender” a imitar a infidelidade masculina, até por conta de uma mentalidade hedonista e individualista que hoje é dominante, a mulher se sente “amparada” a ter relações extra-conjugais, como se isso fosse um “direito” que o homem tivesse ( mas nunca teve ). Também não há como concordar que para a mulher foi uma “conquista”, reivindicar o “direito” de fazer “sexo sem amor”.

Bem, e o que aconteceu em 68 ? Foi o auge da contracultura e do “movimento hippie”.  A juventude embalada ao som do Rock, consumia drogas, pregava o sexo livre e contestava a religiosidade cristã e a família tradicional, consideradas como parte do “sistema”…É certo que havia todo um aparato ideológico, e de influência marxista, que foi tomando conta das artes, da imprensa e das universidades. O processo continuou e hoje já toma conta do meio político,  jurídico e pressiona fortemente o mundo científico.

Só que essa turma hoje, não se parece em nada com os hippies.  Deu espaço ao Yuppie ( Jovem Profissional Urbano ): gostam de roupas de grife, de sucesso profissional, são individualistas, mas acolheram a mentalidade hedonista dos jovens do final da década de 60. Ou seja: resolveram conciliar ao máximo a satisfação dos dois mundos: sexo e dinheiro.

A família se viu pressionada nesse quadro. A busca da felicidade hoje, exclui o altruísmo, a generosidade, e exalta a satisfação pessoal imediata e o individualismo. Se dentro do casamento essa busca individualista de “felicidade” se vê ameaçada, recorre-se sem titubear ao divórcio. Os filhos são adiados e reduzidos ao máximo, não por razões de ordem econômica – argumento frequente – mas para consolidar a realização pessoal – os projetos pessoais – e nesta hora, as crianças são vistas como um estorvo. As consequências sabemos: os filhos, tanto de familias mais pobres como das mais abastadas, não recebem mais a mesma atenção dos pais, mesmo sendo em menor número, resultando em queda no rendimento escolar, delinquência, ou na (de)formação de um futuro egoísta bem-sucedido, e quando o problema é reconhecido na mídia, não se fala em valorizar a família para se cuidar melhor dos jovens, e sim de apontar como solução, a promoção de “políticas publicas”, ou seja: sai a familia e entra o Estado.

Costuma-se hoje dizer que os casamentos antigamente duravam mais tempo porque eram casamentos de “fachada”, de “aparência”, e na verdade as mulheres eram infelizes. Ora, essa afirmação se tornou lugar comum, mas é preciso se ter em conta que quem afirma isso, são pessoas que não viveram a época, e se baseiam ora em ideologias e não na realidade, ora em relatos de pessoas que foram de fato, infelizes no casamento, e o mais importante de tudo: ativistas politicos costumam fazer muito barulho e acabam dominando o debate, colocando uma lente de aumento onde lhes mais convém, ainda mais quando se tem imprensa falando a mesma linguagem e lhes servindo de eco...

A verdade é que afirmar que o modelo familiar de antigamente, tornava as pessoas infelizes é uma sentença “política” e não tem valor científico.

Recentemente o filósofo Luis Felipe Pondé disse numa entrevista uma frase certeira :

“…Pena que as mulheres mais felizes não têm tempo para escrever sobre a relação delas com os homens…” (8)

Como afirmar que hoje somos mais felizes ?

Não estamos hoje na verdade, infelizes ?

Não é propriamente assim. Cada época tem seus aspectos positivos e negativos. A vida moderna oferece hoje, múltiplas possibilidades de sermos felizes, solteiros ou casados, mesmo com famílias com mais filhos e num mesmo casamento….O que não se pode afirmar, é que 50 anos atrás, as pessoas – em particular as mulheres – eram infelizes porque haviam mais filhos em casa e os solteiros não faziam sexo com a facilidade de hoje….

Não se trata portanto, de considerar a época atual como particularmente ruim, mas de reconhecer que se tivemos ganhos, também tivemos perdas, e isto está sendo difícil de reconhecer. E quando reconhecem, invariavelmente atribuem unicamente a culpa, à intolerância das pessoas, às irresponsabilidades dos governos, às crises econômicas, mas isenta-se completamente de culpa, os mentores do “politicamente correto”, que desiludidos com o marxismo no campo econômico, concentraram esforços, na mudança de comportamento, que desvalorizou o significado da vida promovendo o aborto, que promoveu a banalização do sexo, ( e queriam valorizar a mulher ! … ), que acionou a máquina juridica para expandir o divórcio. Estes “marxistas desiludidos”, ocuparam parlamentos, universidades, redações de jornais, tribunais, e programas de televisão. Acabaram por desfigurar a família e agora querem salvar o planeta, querem “direito” de matar uma criança no ventre da mãe… e se escandalizam quando uma baleia morre na praia…

O que está obscurecendo o nosso entendimento ?

Semanas atrás, o cineasta Ugo Giorgetti na sua coluna, no “O Estado de São Paulo” fez uma observação interessante, ao falar dos “chatos” no futebol brasileiro. Apesar do tema, o pensamento alcança uma profundidade tão grande que parece explicar muito mais :

“…Há uma espécie de modorra pairando sobre o País, que nos cobre a todos. Estamos felizes e satisfeitos, viajamos e compramos coisas. Esse estado de espírito talvez nos faça ser mais tolerantes com os chatos que estão por aí…” (9)

Note que o colunista aponta o consumismo – viagens e compras – como suficente para nos obscurecer e nos trazer satisfação e felicidade – ainda que uma “felicidade” meramente fisiológica…

Em 2006 na Mensagem de Natal, O Papa Bento XVI, também fez referência a esta “satisfação” :

“…Mas, tem ainda algum valor e significado um “Salvador” para o homem do terceiro milênio? Será ainda necessário um “Salvador” para o homem que alcançou a Lua e Marte, e se dispõe a conquistar o universo; para o homem que investiga indefinidamente os segredos da natureza e chega até decifrar os códigos maravilhosos do genoma humano? Necessita de um Salvador o homem que inventou a comunicação interativa, que navega no oceano virtual da Internet e, graças às mais modernas tecnologias dos meios de comunicação, já fez da Terra, esta grande casa comum, uma pequena aldeia global? Apresenta-se confiante e auto-suficiente artífice do próprio destino, fabricante entusiasta de indiscutíveis sucessos este homem do vigésimo primeiro século….

…Como não pensar que, mesmo do fundo desta humanidade satisfeita e desesperada, levanta-se um clamor aflitivo de ajuda?…”(10)

É essa “satisfação” que se sente hoje, que faz esquecer que precisamos de muito mais. Parece uma combinação incompatível: satisfação e desespero. Mas o desespero vem depois, e parecemos não saber de onde vem.

Santo André, 15 de Abril de 2012

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NOTAS:

(1) A expressão “cão” na letra da música se refere ao diabo, no linguajar popular brasileiro
(2) http://www.slate.com/articles/arts/interrogation/2012/03/mad_men_creator_matthew_weiner_on_season_5_.single.html
(3) Boomer ( Baby Boom ), Geração X e Y : Baby Boomers: nascidos no Pós-guerra, entre os anos 60 e 70, Geração X : nascidos entre os anos 60 e 70; Geração Y: Os nascidos entre os anos 80 e 90 : Estes últimos, são considerados imediatistas, pois nasceram em meio à velocidade do mundo digital.
(4) Camus, A., “Minotaure” pag. 20
(5) Camus, A., “Noces”, Edit. Charlot, Argélia, pag. 54-62
(6) Camus, A., “Calígula” pag. 111
(7) http://forums.catholic.com/showthread.php?t=486256 ( Aug 20, ’10, 5:55 am )
(8) http://delas.ig.com.br/comportamento/luiz-felipe-ponde-homens-e-mulheres-nao-sao-iguais/n1597726675244.html
(9) http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,precisa-se-de-um-chato-,843710,0.htm
(10)http://www.vatican.va/holy_father/benedict_xvi/messages/urbi/documents/hf_ben-xvi_mes_20061225_urbi_po.html

Publicado por: algosolido | 8 de maio de 2011

A Dona de Casa…

A Dona de Casa, o Bolo e o cálculo do PIB – Parte 1

Ela era feliz...e sabia...

 

No meu primeiro ano de faculdade do curso de Economia, o professor fez um comentário muito interessante sobre o cálculo Produto Interno Bruto ( PIB ) : “Quando uma dona de casa faz um bolo, ela está aumentando o PIB de um país, mas esse bolo não entra no cálculo …”  Hoje penso que se essa mesma “dona de casa” abrisse uma empresa, – uma confeitaria – e passasse a vender seus bolos, os mesmos, entrariam no cálculo do PIB.

Este pode ser um ponto de partida, com seus vários desdobramentos, para se tentar entender a mulher dos tempos de hoje.

Todos os anos quando se comemora o Dia Internacional da Mulher,  diversas publicações, repetem os infográficos de sempre:  o número de mulheres que ocupam  cargos de gerência e direção nas empresas em relação aos homens é de X %…O salários das mulheres na mesma função e qualificação é de X % menor em relação aos homens.

Mas será que esses números precisam ser igualados…?

A Psicóloga Susan Pinker, no seu livro “O Paradoxo Sexual “, trata justamente da questão do salário e emprego na “guerra dos sexos”. Ela se apóia em questões “biológicas” e não em “chavões conservadores”, e afirma que os homens ganham melhores salários porque priorizam o emprego, ao passo que as mulheres também se preocupam em ter filhos. Ela reconhece a resistência de algumas mulheres ao ouvirem falar de “diferenças biológicas”, pois foi justamente este conceito que o movimento feminista tentou apagar, afirmando que as diferenças entre homens e mulheres são “socialmente construídas”: “ Hoje estamos entendendo que os hormônios afetam o comportamento humano”, diz Pinker.

Numa visão econômica, pode-se dizer que o mercado de trabalho “precifica” o salário da mulher, na expectativa de ter que futuramente substituir uma funcionária por conta de uma gravidez, pagando um salário menor. Uma empresa agindo assim, não está sendo “machista”, e sim “capitalista”. Da mesma forma, se uma companhia de seguros, por conta do baixo risco de acidentes automotivos com mulheres, cobra um seguro de valor mais baixo para elas, não está sendo “feminista”, e sim “capitalista”.

Mesmo assim, é possível que as mulheres nas empresas, alcancem salários e posições de alto comando, no mesmo nível que os homens, mas no caso de mulheres muito jovens, na faixa dos 20 anos, pois quando se aproximam os 30 anos, com a expectativa do casamento e dos filhos, a manutenção de salários e altos cargos, pode ficar mais difícil.

Mas essa realidade nem de longe, deve ser motivo para as mulheres lamentarem a maternidade….

Passarelas e Holofotes…

O mercado de trabalho nos dias atuais em grandes empresas, e também como profissionais liberais, tem muitos atrativos, sobretudo para a mulher: como numa passarela de moda, desfilam celulares, laptops, roupas e bolsas de “griffe”… ou seja: em determinados ambientes o trabalho ficou “chique”….

Tudo isso sob a mira de muitos holofotes. Por outro lado, a “dona de casa”, que vai levar o filho a uma consulta médica, ao parar no farol, repara ao lado e vê um carro mais sofisticado que o dela, e no volante, uma mulher muito bem vestida, cabelo bem arrumado e se pergunta : quando vou estar assim?

A mulher do “carrão”, no fim de ano, pode receber um prêmio de “mulher executiva do ano” ou uma viagem paga pela empresa, um curso no exterior, e ela, a “dona de casa” – o que vai receber?

Elogios?

Se esta mulher tiver mais que 40 anos, deve ter ouvido as “Frenéticas” cantarem no final dos anos 70:

“…Elogio é mixaria…

Se me chamas de rainha…
Me desculpe mas não quero, não quero
E não vou…!

…reinar na cozinha…!

Assim, a propaganda feminista foi pondo em desuso as palavras, “esposa” e  “mãe”, por isso, tais termos, soam hoje um tanto “antiquados” para os meios de comunicação, dando lugar simplesmente à palavra “mulher”, mesmo que casada e com filhos. Ora, não há nada de errado em chamar a mulher, de “mulher”, o problema é o foco no individualismo, por exemplo, ao invés de usar a palavra “mãe”- que pressupõe compromisso, altruísmo, usar a expressão “mulher com filhos”, sugerindo que os filhos são um “anexo”. As terminologias atuais significam muita coisa. Os meios de comunicação querem fazer a “dona de casa” se sentir um “nada”…

Há uns anos atrás, assisti num telejornal na hora do almoço, uma reportagem sobre férias escolares. O noticiário mostrava que as mães estavam ansiosas pelo retorno das aulas, por causa do incômodo de acompanhar os filhos: “Eu não aguento mais!”, dizia uma mãe muito bonita e muito bem vestida, a olhar crianças correndo na área de diversões de um shopping…

Não quero aqui dizer, que o “problema” se situa na mulher. Os próprios homens estão também desinteressados pelos filhos e pensando muito mais no trabalho. Ocorre que de fato, a grande mudança de comportamento se deu do lado feminino e nos dias de hoje, a grande motivação não é a luta pelos direitos e emancipação : ela já ocorreu, não é apenas pelo sustento da família – mulheres casadas com homens que recebem altos salários, não querem ser “donas de casa”, querem ser “donas do emprego”.

A grande motivação da mulher é a satisfação pessoal, de mostrar a sua “capacidade”, de sentir-se “útil”, de ser ‘reconhecida”, de ser “vista” pela sociedade. Com tudo isso, é claro, a independência financeira.

Nada contra a emancipação feminina, a independência financeira, o sucesso profissional, mas que isso não ocorra às custas do menosprezo pelo lar e pela maternidade. A ordem passou a ser esta: Primeiro, a faculdade, depois, a pós-graduação, nesse meio tempo, um carro, um imóvel, uma MBA no exterior, e depois… Opa!…  Está na hora de ter um filho !

O filho neste caso, se converte numa “etapa” da “realização pessoal”. Ver um filho assim é muito pouco…

Repito: todas essas conquistas são legítimas para a mulher, mas o problema é ver o casamento e os filhos como obstáculo. O fascínio do mundo do trabalho é muito forte, como se percebe ao ler depoimentos de mulheres que se dedicaram por muitos anos, ao trabalho fora de casa, e chegaram ao topo da carreira. É comum admitirem que prejudicaram a família , que não viram os filhos crescerem, mas que não se arrependem, pois o trabalho lhes deu muito…

Mas nem sempre, o discurso da mulher é tão incisivo. Muitas mulheres se sentem culpadas por darem atenção excessiva ao trabalho “fora de casa”, ( pois “dentro de casa”, também é trabalho ) em detrimento dos filhos. Jamais uma conquista profissional pode compensar o distanciamento dos filhos.

 

Sem “reinar” na cozinha…

 

Estamos num tempo em que a mulher também se orgulha de não saber cozinhar. Isso “pega bem” e pega bem dizer isso aos amigos. “Pega mal” hoje para a mulher, não saber dirigir, não ter o próprio carro, ser “apenas” dona de casa, ou ter mais que dois filhos…( pode ser chamada de “irresponsável” ).

Por outro lado – paradoxo da vida moderna – uma mulher executiva, – perto dos 40 anos e sem filhos, se entusiasma com a idéia de passar numa livraria e comprar um livro de culinária sofisticada, para ela e o marido, prepararem uma “paella”, e convidarem para um jantar, um casal de amigos ( “contatos” ) também sem filhos, e do “circuito profissional”, mas cozinhar para filhos, nem pensar….

Nada contra jantares caprichados para amigos de vez em quando. O problema é relacionar o fogão e os filhos à escravidão, e fogão e amigos a “networking”…

De maneira muito apropriada a esse respeito, afirmou a consultora Vick Block:

“ O trabalho é hoje o lugar de admiração e respeito, enquanto a casa está se transformando no lugar da culpa e da dívida”

 

Publicado por: algosolido | 8 de maio de 2011

…o Bolo e o cálculo do PIB – Parte 2

Ela era feliz... e sabia...

Reduzindo a marcha…rumo ao equilíbrio.

 

Um estudo da Center of Work-Life Policy (CWLP), no ano passado aponta que 75% das mulheres do Brasil, China e Índia, esperam alcançar altos cargos nas empresas. Essa expectativa é reflexo do momento econômico dos paises emergentes, que miram o exemplo dos EUA. As mulheres destas nações, outrora consideradas “em desenvolvimento”, estão vivendo nesta década, o que as mulheres americanas viveram nos anos 80 e 90. O que ocorre agora na América do Norte, é uma tendência de equilíbrio entre trabalho e família, por isso mesmo, o desejo, segundo a mesma pesquisa, das mulheres americanas de ocuparem cargos elevados é de apenas 36%.

Em outro estudo realizado pelos Economistas Betsey Stevenson e Justin Wolfers ( American Economic Journal – Agosto/2009 ), entitulado “The Paradox of Declining Female Happiness” ( O Paradoxo do Declínio da Felicidade Feminina ) demonstra que as mulheres com todas as conquistas obtidas em 40 anos de luta por direitos iguais, sobretudo no campo profissional, são mais infelizes hoje do que na década de 60. Esta felicidade, segundo a pesquisa, caiu tanto em termos absolutos, como em relação aos homens.

De onde vem esta infelicidade ?

Existem diferentes formas de abordagem. Muitas vezes se busca a resposta mais conveniente: a de que os homens têm medo de se relacionar com mulheres bem sucedidas, e boa parte das executivas ( as estatísticas variam ) estão solteiras e sem filhos;  as que estão casadas, os maridos não apoiam nas tarefas domésticas e elas ficam sobrecarregadas…

Em tudo isso, há alguma verdade : decerto que há maridos que pouco ou nada se envolvem nas tarefas domésticas e no cuidado dos filhos, causando uma sobrecarga injusta para a esposa. Em particular, em relação à mulher que trabalha fora, de qualquer tipo de cargo ou profissão, deve o homem se envolver e assumir tarefas da casa, e acabar de uma vez por todas, com esta história de “dupla jornada”, porque se a “jornada caseira” também contar com a participação do marido, esta expressão vai com certeza desaparecer.

Quanto às mulheres “bem sucedidas” estarem solteiras em boa parte, é muito conveniente atribuir a responsabilidade ao homem e apresentá-lo como  “inseguro” e “machista”, evitando compromisso com mulheres consideradas “poderosas”. Deve-se perguntar a uma executiva com ganhos mensais de R$30.000,00 ou R$40.000,00 , se ela está disposta a se casar com um homem que ganhe R$3.000,00 por exemplo…

É de praxe responder: “Se ela o ama, se casará”…, mas estamos numa época de “respostas que caem bem”, e as atitudes concretas são outras. Só por este exemplo, um verdadeiro exército de “candidatos” saem de cena. É claro que nesse grupo, podem haver homens “medrosos” mas, como foram “descartados” de início, qualquer julgamento será ‘político” e não “científico”.

Restam os homens da mesma posição profissional e, estes sim, é que podem ser avaliados se têm coragem ou não de se envolver com um mulheres que ocupem “altos cargos”.

Há poucos dias, assisti a uma entrevista pela TV com uma cantora de sucesso que comentou o seguinte:  “…nós mulheres assim, ( ricas e famosas ) temos que nos relacionar com “homens bem sucedidos”, porque sempre há um risco de aparecer um interesseiro…”

Essa opinião também vem do mundo acadêmico, como neste depoimento:

“ A mulher bem sucedida torna-se mais exigente nos seus relacionamentos, principalmente pelo fato de ter conquistado sua independência financeira “ ( Maria Cristina Pinto Gattai, professora do Departamento de Psicologia Social da PUC/SP ).

Por isso mesmo, vamos levar em conta somente homens e mulheres bem sucedidos – e solteiros : devemos considerar que: 1- Tais solteiros não trabalham todos nas mesmas empresas, de modo que se conheçam;  2 – Ambos priorizam o trabalho, e no caso das mulheres, muitas receiam o casamento e ainda mais os filhos, sob “risco” de “prejudicar a carreira”, e por fim é claro; 3 – Existem também os “homens medrosos” diante de uma mulher “poderosa”.

Neste caso, fica complicado para a mulher “bem sucedida”, já que o “homem-bem-sucedido-medroso”, vai preferir uma mulher que ganhe bem menos que ele, e o “homem-bem-sucedido-não-medroso”, vai procurar uma mulher “bem-sucedida” ou não, “poderosa” ou não, mas que se queira casar e ter filhos, e faz muito bem, agindo assim…

Em resumo, podemos dizer que o adiamento do casamento e dos filhos, e em alguns casos a sua renúncia, em troca de uma dedicação exclusiva ao trabalho, tem causado infelicidade à mulher.

É claro que a felicidade não é exclusiva de quem se casa e tem filhos. Homens e mulheres podem ser felizes sem o casamento, mas somente se dedicarem as suas vidas a uma causa nobre e generosa, jamais a uma satisfação individualista.

Como já foi dito anteriormente, na Europa e nos Estados Unidos, já existe um movimento mais nítido de “redução de marcha” que não significa um “retorno ao fogão”. Para o constrangimento, desgosto e protesto das feministas radicais, mulheres que se destacaram no mundo profissional, têm escrito livros, proferindo palestras, estimulando as mulheres a re-valorizarem a maternidade, sem com isso, abandonarem o trabalho fora de casa. Essa saudável iniciativa, resgata a dignidade da Dona de Casa ( agora sem aspas ), que pode se dedicar ao cuidados dos filhos e do lar, pelo tempo que for necessário, e incluir no momento que quiser, quando, e se quiser, um projeto profissional.

Alguns depoimentos dessas mulheres:

“… As mulheres são as únicas que podem ter bebês, e isso leva tempo. E quando você tem um filho, quer ficar com ele, é natural. Esse é o trabalho mais importante que existe” –  Katheleen Parker – colunista e escritora americana.

“…Se eu pudesse voltar a começar, escolheria um marido com um emprego, e ficaria em casa até ter criado cinco filhos ! “Eva Herman – Apresentadora de TV alemã, após 3 divórcios e um filho.

“…O melhor remédio contra a presunção é ir para casa e lavar o chão da cozinha, com as crianças na sala gritando porque querem comida, atenção ou que brinquemos com elas. As tarefas cotidianas da maternidade – e da paternidade – nos fazem humildes e nos lembram que somos insignificantes…” Janne Haaland Matlary – Norueguesa – Catedrática de Relações Internacionais da Universidade de Oslo – Mãe de quatro filhos…

 

Reconhecimento e visibilidade:

Numa reflexão de momento, pode ser constrangedor para uma Dona de Casa, se dar conta de que a sua “produção doméstica” é considerada invisível, pois não entra para cálculo do PIB, como também não entram, os seus serviços prestados. Cada bolo feito, cada banho dado num filho, não aparece em gráficos coloridos, em relatórios e planilhas financeiras das empresas, não figura em balanços divulgados pelos jornais de negócios. Esse é o modo de uma sociedade calculista estabelecer valores, como foi constatado pelo economista inglês, Lord Peter T. Bauer: “ …ironicamente, o nascimento de uma criança, é registrado como uma redução na renda nacional per capita, enquanto que o nascimento de um bezerro, mostra-se como uma melhoria…”

No entanto, cada criança vale mais que todos os bezerros do mundo, como cada criança que ainda está para nascer, vale mais do que ovos de tartaruga… No entanto a sociedade organizada através de suas instituições, está mais preocupada em proteger os ovos…

As “mulheres profissionais” são mais visíveis. Têm de certa forma, reconhecimento e atenções voltadas para si quanto mais sucesso obtém, mesmo aquelas que não ocupam altos cargos e salários, têm sim a sua visibilidade e um sentimento de independência que não querem perder…

Mas devo dizer que para a mulher casada e com filhos, a sua missão principal não está no trabalho, e sim no Lar, no Marido e nos Filhos…

Sabem por quê ?

Porque a missão principal de um homem casado e com filhos, também não está no trabalho, e sim no Lar, na Esposa e nos Filhos…

Pela missão particular e natural da maternidade, a mulher está mais que o homem,   vinculada ao lar, sem com isso isentar o homem de tarefas domésticas e no cuidados dos filhos…

Quero finalmente citar um trecho de um artigo de Sueli Caramello Uliano, mãe de família e presidente do conselho da ONG Família viva:

“ Até que ponto as dores da humanidade não são decorrentes da ausência de mães nos lares? Ou até que ponto os traumas da civilização pós-moderna não decorrem da manipulação da sensibilidade feminina, ultrajando-a na sua peculiar exclusiva capacidade de acolher a vida?

Com famílias apressadas, com poucos filhos ou apenas um, e os pais priorizando os  seus “projetos pessoais”, temos visto jovens cada vez piores e sem rumo, sem certezas. Forjar homens e mulheres de valor, é uma missão valiosa, requer desprendimento e altruísmo, e se pode dizer também que o homem não tem o “direito”, de se dedicar tanto ao trabalho a ponto de deixar a família para segundo plano. Ninguém pode se “orgulhar” de dizer: Não vi meus filhos crescerem ! Se aparecer uma “grande oportunidade profissional”, deve-se ter em conta que não se deve prejudicar a atenção aos  filhos, sob pena de frustração no futuro.  As realizações profissionais passam, os profissionais ficam velhos e deixarão lugar para os mais novos. A Família permanece. Isso vale para homems e mulheres.

Santo André, 08 de maio de 2011

Eduardo.

Publicado por: algosolido | 12 de dezembro de 2010

Mais filhos para o mundo

O leitor já deve ter ouvido ou lido comentários de ecologistas preocupados com ameaças à natureza em função de uma – discutível – alteração climática :   que não podemos ignorar os problemas, mesmo que daqui a 50 anos possivelmente, todos desta geração não estejam mais vivos. “É preciso preocupar-se com as gerações futuras”, costumam dizer.

Tal preocupação não parece existir com a questão do envelhecimento populacional. Em Artigo da Revista Exame de 17 de novembro último ( Edição 980: “Vinte anos para ficar rico “),  fala-se com euforia do chamado “Bônus Demográfico”: comemora-se o fato de se ter uma população jovem cada vez menor, que apenas consome, contra uma população adulta, que consome e produz.

Essa relação pode significar de fato um PIB per capita cada vez maior, desde que a economia continue a crescer. – Que fique bem claro.

Ocorre que quando se iniciar a redução populacional, ( reconhecida pela própria revista ) surgirão os problemas: Uma enorme população idosa e inativa, demandando recursos da saúde e da previdência, a partir do trabalho de uma população ativa cada vez menor. Muitos desta geração estarão vivos para ver isso.

Isso significa que esse quadro (ou bolha), favorece o crescimento econômico nos próximos anos, mas –  de uma forma aguda e por tempo determinado.

Haverá crescimento em determinados setores da atividade econômica decorrente do envelhecimento da população, como a medicina, a previdência privada e em função de famílias menores, com casais adiando por anos a vinda dos filhos, teremos um incremento de atividades como o turismo, o lazer e cuidados pessoais, caracterizando um crescente culto à individualidade.

Mas um cálculo transparente, deixaria de fora os investimentos em áreas como educação, habitação e vários outros, dado que não são exclusivos do chamado “bônus demográfico”, porque o crescimento populacional ( com aumento da população jovem ) daria conta do crescimento do PIB, com vantagem e de forma duradoura, ( ou para ser moderno: de forma “sustentável” ).

Quando se têm mais filhos…

O artigo de Exame fala em crescimento dos serviços hospitalares por conta de uma população idosa?

– Mas e as mães que vão ao médico quando ficam grávidas e quando nascem os filhos ? Pensemos no crescimento da pediatria…

Lazer e recreação para adultos ?

– Crianças gostam de brincar mais…e têm mais tempo…

Pacotes de viagem para adultos sem filhos ?

– Pergunte ao gerente do hotel se ele não gostaria da mesa cheia e quartos lotados…

Móveis e decoração, materiais de construção, vestuário…com famílias maiores,  como é necessário investir ! Perguntem às famílias com 3 ou 4 filhos em fase de crescimento:   quantos pares de tênis, quantas bermudas e camisetas, materiais escolares, têm que ser comprados ano a ano….!

Em resumo: como se pode ignorar que quanto mais filhos as famílias têm,  mais se favorece o crescimento do PIB, e por consequência, da renda, do emprego e da arrecadação de impostos?

Alguém disse que crianças e adolescentes atrapalham o crescimento de um país porque apenas consomem e não produzem ?

Do contrário: uma série de atividades voltadas para famílias com filhos, perdem espaço quando as crianças nascem em número cada vez menor

A festa está “boa”…

Famílias cada vez menores, muitas viagens, casas cada vez mais confortáveis : benefícios que poderiam se obter ao longo dos anos, são adquiridos rapidamente,  à custa da renúncia aos filhos nos primeiros anos de casamento.  É a festa do “subprime“ populacional.

No momento em que a população brasileira começar a diminuir, poderemos, se confirmadas as projeções, estarmos com PIB e renda per capita a níveis europeus, mas dependendo do “consumismo” e não do “consumo”.

Já me explico :  quando as famílias têm um número de filhos o suficiente tanto para repor como para aumentar a população, precisam comprar mais alimentos, mais roupas, construir mais escolas, aumentar a casas, comprar mais móveis, mais eletrodomésticos, mais materiais escolares, mais fraldas… isso é “consumo”.

Se as famílias assimilarem de vez a cultura do “filho único”, o crescimento econômico dependerá de que as famílias tenham dois ou três veículos na garagem ( numa família de três pessoas ), façam “coleções” de bolsas e pares de sapato, muitas roupas, muitas viagens e refeições fora de casa, um computador para cada pessoa da casa…  isso é “consumismo”.

É por depender do consumismo de uma população envelhecida,  endividada e saciada de todo tipo de bens, que países como a França e Alemanha, já vêm incentivando as suas populações e terem mais filhos para voltarem a ter… consumo.

Portanto, as projeções para o crescimento do PIB por conta do envelhecimento populacional,  deveriam apresentar algumas ressalvas:

1  – Esse crescimento tem data para acabar; ( detalhe que foi reconhecido pelo artigo de Exame);

2 –  Depende do consumismo: uma crise financeira ou no consumo, coloca o país rapidamente em recessão – Vejam os Estados Unidos e principalmente a Europa de hoje: em crise e com baixíssima taxa de natalidade;

3 –  Setores importantes da economia, como o de imóveis e materiais de construção, sofrerão forte recuo, com a possível redução populacional, com efeitos negativos na geração de emprego e renda.

4 – Pode-se alcançar esse nível de riqueza com aumento populacional, de forma mais duradoura e segura;

5 – A redução populacional é de difícil reversão : a diminuição de filhos por casal, gera uma cultura individualista. Os países ricos enfrentam enorme difculdade  para voltar a aumentar a sua população.

Sim… os países ricos estão tentanto reverter a queda na natalidade.

Esse tema não se esgota por aqui. Tantos pelos seus aspectos econômicos, como pelos culturais e sociais,  o tema da demografia será retomado em outras ocasiões neste blog.

Eduardo.

Santo André, 12 de dezembro de 2010

Publicado por: algosolido | 8 de dezembro de 2010

Este Blog

Caros leitores internautas,

Há tempos venho adiando o início das “atividades” deste Blog. A idéia surgiu no início deste ano, e estando numa época muito atarefada, deixei somente para agora as primeiras palavras.

A motivação

Venho percebendo ao longo dos anos, que a discussão de idéias acaba se desviando do foco ou mais ainda: acaba se perdendo na “negação da certeza”.  Abraça-se a dúvida, como que a um porto seguro e paradoxalmente, dá-se a esta postura um tratamento “dogmático”.  Noutras palavras: o questionamento veio para ficar, mas que a resposta nunca chegue. Tornou-se proibido dizer : “Isso é verdade”. Assim está na imprensa, na vida acadêmica, no parlamento, nos tribunais, nas empresas, até numa roda de amigos. Em alguns casos, ignora-se o que realmente importa em cada assunto, em outros, se conhece mas se pretende evitar. Daí,  passa-se colocar muita areia, muita terra por cima, para que não se veja o essencial de cada questionamento.

São muitas falácias, falsos dilemas, propagados com excessos de informações imprecisas, assuntos de grande relevância são esquecidos ou tratados de forma tendenciosa, enquanto outros, que fazem muito barulho, são postos em evidência, com uma lente de aumento. Isso tudo, impede que as pessoas reflitam um tema na sua profundidade. 

Sim:  a informação hoje, em muitos meios é “seletiva”: conduz a uma única forma de pensar em assuntos como: família, sociedade, comportamento, liberdade, tolerância e preconceito. Na sociedade atual, pode se acreditar no que quiser, desde que não seja com “convicção”.  A ordem é manter a “mente aberta”, senão, recebe-se um carimbo, um rótulo, visando desqualificá-lo para o debate. Tais carimbos são por exemplo : “conservador”, “retrógrado”, “fundamentalista”, ou mais popularmente: “dono da verdade….”,que frequentemente vêm associados aos nomes de religiosos, cientistas, sociólogos, filósofos, historiadores, jornalistas, que ousam fazer um discurso que destoa do “mainstream” dos meios de comunicação.

A iniciativa do Blog, surgiu a partir desta realidade, já que sempre desconfiei de certas “mentes abertas”, embora essa atitude não seja necessariamente ruim: a depender da circunstância ou da relevância do tema, manter a mente aberta pode ser – ou não –  a melhor atitude.

Cabe agora, dar uma explicação ao título que escolhi para o Blog: nas leituras que tenho feito, muito me chamou a atenção, a frase do escritor inglês Gilbert Keith Chesterton:  “Uma mente aberta é como uma boca aberta: não é um fim, mas um meio. E o fim, é a boca fechada mordendo algo sólido”.

Pois será assim, que estarei compartilhando idéias com os internautas, sempre buscando depois de verificar os aspectos acidentais de cada questão, buscar os essenciais : o que há de consistente, o que há de sólido.

No próximo Domingo, vou postar o primeiro texto com tema específico: o assunto já está definido. A partir daí, num primeiro momento, devo estabelecer uma periodicidade mensal ou quinzenal para os posts. Entre um post ou outro, é possível que eu escreva algum texto de poucas linhas, algo a nível de bate papo… algo virtual….mas… algo sólido….

Um abraço.

Eduardo.

 

Santo André, 08 de Dezembro de 2010.

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