Publicado por: algosolido | 15 de abril de 2012

MAD MEN

Ou, “BAD MEN” – Os anos 60 com “Cara de cão” …

O sonho americano na Sterling Cooper de Mad Men

“…Tu, pessoa nefasta, tens a aura da besta, essa alma bissexta, essa cara de cão…” (1)  (Pessoa Nefasta- Gilberto Gil)

Em maio de 2011, a revista “Aventuras na História” (Ed. 94), publicou uma matéria assinada por Gisela Blanco, entitulada “Tão longe, tão perto”…acerca do sucesso da Série Mad Men, criada por Matthew Weiner (Família Soprano), lançada em 2007, acumulando prêmios consecutivos desde 2008, chegando a influenciar o modo de vestir das mulheres nova-iorquinas. De fato, o cenário é a Nova York dos anos 60 e os episódios giram em torno do personagem Donald Drapper, ( John Hamm ), diretor de criação da Agência de Publicidade Sterling Cooper, situada na Madison Avenue ( donde se origina o nome da série ). Foi uma época de transformações na sociedade, que afetaram profundamente as relações familiares, com uma forte inserção da mulher no mercado de trabalho e uma maior “liberação” no comportamento sexual.

Contudo, a família ainda era uma instituição forte e prestigiada na sociedade: mais numerosa e com forte presença e influência dos pais na educação dos filhos, pois as mudanças ainda levariam alguns anos para se consolidarem, afetando profundamente o comportamento de homens e mulheres ( principalmente elas ) causando com isso, uma transformação radical nas famílias.  No início da matéria, há um trecho em que a articulista, a partir do que viu nos primeiros capítulos, de Mad Men, pretende resumir o panorama da época:

“As mulheres tentam driblar preconceitos para ocupar postos de trabalho até então reservados só para homens. As saias são compridas, e a liberdade curta. Médicos não receitam a nova pílula anticoncepcional sem antes dar lições de moral. Estamos frente a frente com a geração que criou o ideal de felicidade americano. E então descobrimos: eles não eram nada felizes”


É bom se dar conta que quem diz que “eles não eram nada felizes“, é um observador atual, falando do passado, mas com critérios de hoje. Muitos escritores, jornalistas, e sobretudo historiadores, se esquecem desse critério tão básico de avaliar um tempo que passou, a partir da mentalidade da respectiva época, mas frequentemente, senão sempre, se fala do passado, com critérios do nosso tempo. Por isso mesmo, é uma arbitrariedade ( ou uma política ? ) afirmar que do modo como hoje vivemos, sejamos mais felizes…

Uma “boa” descrição do mal…

Nos anos 80, o cantor Gilberto Gil, numa entrevista, ouviu um comentário de uma jornalista acerca da letra da sua música “Pessoa Nefasta”, que fala das maldades de uma pessoa de uma forma tão eloquente que chegava-se a “admirar” essa pessoa. Talvez satisfeito com o elogio, o cantor respondeu que procurou nessa música, fazer “uma boa descrição do mal”.

A série Mad Men, pode – em parte – ser descrita desta maneira: como uma “boa descrição do mal”: muito cigarro, muita bebida, e muito adultério….e  por ser uma série e não um longa de episódio único, há uma verdadeira imersão na época e no ambiente que é retratado: as ações são lentas e não há discurso “politicamente correto” – não explicitamente – e tudo isso numa qualidade impecável de fotografia e interpretação. Mas há uma falha: basicamente se mostra o mal. Rejeita-se mostrar no modelo familiar da época, qualquer tipo de vantagem, embora a sinceridade de algumas cenas, possibilite algumas reflexões úteis, como no caso de um menino solitário e carente, filho de uma mãe divorciada, que o deixa em casa com a vizinha e vai atrás de interesses particulares ( é ativista política ), e principalmente no caso do protagonista Don Drapper – filho de uma prostituta – desconheceu o carinho familiar na infância, e na vida adulta não consegue ser bom pai, muito menos bom marido…

Um exemplo para comparação temos em “O Sorriso de Monalisa” (Mona Lisa Smile, 2003), estrelado por Julia Roberts: é o exemplo perfeito de um filme “politicamente correto” que já vem com discurso pronto: É só abrir a tampa e engolir. Trata-se de um roteiro ambientado nos anos 50, mas com linguagem atual: Os personagens são caricaturados: uma moça que tem no casamento e nos filhos, a prioridade de sua vida, é frustrada, invejosa e se casa com um homem que a rejeita logo após o casamento, se envolvendo com uma amante, ao passo que a personagem principal ( vivida por Julia Roberts ), é o protótipo da “bem resolvida” na terminologia atual: é solteira, “passou” da idade de se casar para os padrões da época, prioriza a vida profissional, e quando sofre, é pelo “preconceito” dos outros que sofre, porque com ela, “está tudo bem”….não tem pressa de se casar, até porque já mantém relações sexuais com os ( sim: “os” ) namorados enquanto solteira….

Sem moralismos, podemos dizer que para ela, fica fácil não ter pressa em se casar…Num didatismo escancarado, todos os personagens centrais em “O Sorriso de Monalisa”, são caricaturados para viabilizar “catequese” feminista do filme.

Tal recurso não ocorre em Mad Men. As coisas simplemente acontecem: sem discursos, os homens bebem, assediam as mulheres no trabalho, mesmo os casados e os que acabaram de voltar de uma Lua de Mel. E as mulheres choram…no trabalho e em casa…

No capítulo de estréia, uma nova funcionária tem seu primeiro dia de trabalho na agência: Peggy Olson ( Elisabeth Moss ). Peggy, se veste de maneira “recatada” e age com discrição. “Orientada” pela chefe das secretárias, Joan Holloway ( Christina Hendriks ) esta, amante de um dos chefões da Sterling Cooper, Roger Sterling ( John Slattery ), toma conhecimento de como as coisas funcionam por lá.

Vejamos a transcrição de alguns diálogos :

Diálogo 1:

Joan “aconselha” a novata Peggy:

JoanPode parecer que ( os homens ) querem uma secretária…mas na maior parte do tempo, querem algo entre uma mãe e uma garçonete. E o restante do tempo, bem…vá para casa, pegue um saco de papel com dois buracos para os olhos, coloque-o na cabeça, tire a roupa e se olhe nos espelho: avalie seus pontos fortes e suas fraquezas com honestidade
Peggy Sempre tento ser honesta
JoanBom pra você

Diálogo 2:

Peggy vai ao Ginecologista indicado por Joan: (Peggy aguarda o médico lendo um livro dedicado às noivas em sua noite de núpcias….)

MédicoEu vejo pela sua ficha e pelo seu dedo que não é casada…
PeggyIsso mesmo…
MédicoE mesmo assim está interessada em pilulas anticoncepcionais…
PeggyBem, eu estava…
MédicoNão previsa ficar nervosa….Joan te enviou a mim, porque não estou aqui para julgá-la. Não há nada errado em uma mulher pensar na possibilidade de atividade sexual.
PeggyÉ bom saber…
MédicoMas, como médico, espero que, ao colocar uma mulher nessa situação, ela não se torne uma mulher da vida.Vou dar um aviso: se você abusar, suspendo a pílula. É para seu próprio bem. O fato é que, mesmo nestes tempos modernos, mulheres fáceis não encontram marido… ( nesta hora, Peggy vira o rosto e olha para um calendário de parede: ano 1960…)
PeggyEu entendo Dr. Emerson. Eu sou uma pessoa bem responsável
MédicoTenho certeza de que não é esse tipo de garota, mas Joan…

Diálogo 3:

Peggy assedia Don….( Peggy entra na sala de Don Draper e diz:)

PeggyEu só queria agradecê-lo por um ótimo primeiro dia ( de trabalho ) A seguir, Peggy, toca na mão de Don…
DonEm primeiro lugar Peggy, sou seu chefe e não seu namorado (afastando a mão de Peggy )
PeggyEspero que não pense que sou esse tipo de garota
DonClaro que não…

O primeiro capítulo se encerra com Don Drapper voltando para casa – onde sua esposa o aguarda e vai ver os filhos no quarto. Na noite anterior, Don dormiu fora de casa. No apartamento da amante… ( Continua na parte 2 )


Responses

  1. Tenho visto esse seriado na TV Cultura. E o grande slogan dele é que “não importa o que você é ou o que quer, mas sim como você se vende”. A conquista da independência pelas mulheres (os anticoncepcionais), personagens que fumam o tempo todo, assédio sexual, tudo permitido. Coisas até impensáveis nos dias de hoje, mas, ainda presentes.
    Abraços.

  2. Ae cara legal a historia, aqui é o Mateus….abraços

  3. Eduardo,
    Hoje em dia, sinto que é preciso cada vez mais resgatar os valores da família. É preciso uma mudança na mentalidade – novamente! – agora no sentido oposto a que fomos influenciados esses anos todos, pela mídia e formadores de opinião. Acredito em e já percebo famílias aprendendo a ser famílias outra vez!
    vou ler a 2a parte de seu texto…
    abraço,
    Cristiane

  4. Texto muito bem escrito, claro, ilustrativo. O confronto de duas épocas já um pouco distantes ( anos 60 e anos 2000/2010), sugere questionamentos: a liberação feminina, provocou mesmo mudanças na posição social da mulher, vista pela ótica masculina? E o homem, por que não modifica alguns de seus padrões comportamentais decadentes? Felizmente, independentemente de época, modismos e revoluções, sempre houve e tenho fé, haverá sempre, homens e mulheres de bem, dignos de respeito e com capacidade para, juntos, construírem uma sociedade mais justa e harmoniosa.

    • Kelly, os homens mudaram e continuarão mudando, mas seja qual for o arranjo por que passe a família nos próximos anos, será preciso resgatar, o altruísmo, a generosidade, e a fecundidade, tudo envolvido num Amor que se traduza numa verdadeira entrega entre homem e mulher…..Abraços….volte sempre ! Edu.

  5. Grande Edu!

    Belo texto…

    Sabe, a chamada Revolução Sexual só completou o ciclo triste de homens “machos pra caramba” que assediam mulheres “liberadas” e as abandonam quando o desinteresse, o tédio na relação (quem agüenta a falta de diálogo?), uma DST ou gravidez indesejada (nas conseqüências, nunca nas causas…) largam as pobres mulheres antes liberadas, agora abandonadas, perante as dificuldades e a indiferença do mundo…

    Aguardo a 2a parte de suas reflexões.

    Sugiro um texto sobre aquele seu tema da “implosão demográfica”. É muito instigante.

    Abraços

    Minami

    • Grande Minami ! O tema da Demografia voltará, desta vez associado ao tema da Ecologia……vai dar um grande trabalho…..!!!! Abraço ! Edu.


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