Publicado por: algosolido | 15 de novembro de 2013

TROQUE SEU CACHORRO POR UMA CRIANÇA POBRE

Há pessoas que se dedicam inteiramente aos animais, deixando
ao abandono  as crianças. Existem mães que não sabem preparar
a sopa para o filho; no entanto, conhecem e discutem todas as
vitaminas de que o cachorro precisa na alimentação.
Não devemos ser contra os animais, mas o homem é um homem e
o gato é um bicho. Cada um tem seu lugar no espaço e isto devemos
respeitar “

 

Marialice Prestes – “Problemas do Lar” – 1957  (1)

Imagem

O recente episódio do “resgate” dos cães da raça Beagle em um Laboratório de Pesquisas Científicas no interior de São Paulo, a notar pela reação da imprensa, mostra que os defensores dos animais estão isolados. A mídia está engajada em praticamente todas as chamadas causas “politicamente corretas” que visam os interesses de chamadas “minorias” ( “minorias” que dominam a imprensa, os governos, a universidade….) : seria o caso dos defensores de cães e gatos, mas eles foram longe demais ao atrapalhar pesquisas sérias, como as que buscam a cura do câncer. Não contar com a simpatia da mídia, é ter um oposição muito pesada, pois a mesma se julga porta-voz da opinião pública ainda que a mesma lhe seja totalmente contrária, mas isso é assunto para outra oportunidade.

Vamos deixar claro: ninguém em sã consciência, defende maus tratos aos animais: nem politicos ou policiais, religiosos, jornalistas, cientistas… quem gosta de ver um animal sofrer ?. A sociedade no seu conjunto, repudia qualquer ação que faça um animal sofrer inutilmente. A questão é : seja por conta de um abate ou algum teste de laboratório que chegue a sacrificar a vida, o animal efetivamente sofre, mas esse sofrimento não é algo desejado.

Quer dizer que o sofrimento de um animal pode ser útil ?  Sim, pode ser: quando se pretende salvar vidas humanas.  Mas quando o sentimento pressiona a razão, esse argumento não basta.

E o que dizer da imprensa? Ao se posicionar favorável às pesquisas com animais em laboratórios, podemos afirmar que é a favor da vida ?  Não, não é.  É apenas uma defesa egoísta e não altruísta da vida. Pode-se constatar isso  pelo apoio midiático às pesquisas com células tronco em que se matam embriões humanos para fins “terapêuticos”  como também o apoio que se nota por parte de jornalistas,  ao aborto e à eutanásia ( O filme “Mar Adentro” que retrata um caso real de suicídio de um tetraplégico e que faz a apologia da eutanásia, foi calorosamente elogiado por jornais brasileiros).

A defesa egoísta da vida aparece assim: a própria vida, a do filho, da esposa, do marido, e – às vezes – do pai e da mãe. Aquela vida que se considera, que se “sente” importante. É como se dissessem: “aquele animalzinho pode um dia salvar a minha vida ou de alguém importante para mim…” Desse modo, a defesa da vida humana, fica restrita ao interesse próprio e isso, apesar de estar na direção correta, não é suficiente. Toda vida humana tem valor. Não apenas a vida de quem amamos. Essa é a defesa altruísta da vida.

Isso me fez lembrar da música “Rock da Cachorra” (2)  composta por Léo Jaime, que ficou muito conhecida na gravação de Eduardo Dusek em 1982. A letra é uma sátira forte contra o apego excessivo e desmedido aos animais. “Troque seu cachorro por uma criança pobre”: com essa frase forte, o clipe musical da época, mostra uma madame caminhando numa calçada com um menino negro, amarrado a uma coleira e engatinhando como um cão. Nos dias de hoje, esta cena, causaria uma histeria. Evidente que o clipe não é racista, mas mostra justamente que as crianças negras, que são preteridas num processo de adoção, seriam as mais beneficiadas se certas pessoas sem filhos, tivessem mais amor por crianças do que por cães abandonados.

Aos longo do anos, pode se notar que o apego aos animais só aumentou. E isso, está numa relação direta com o individualismo, e o consequente encolhimento das famílias : raro se ver famílias com mais que dois filhos por casal e está se tornando cada vez mais comum, a escolha deliberada pelo filho único, ao passo que cães ocupam esse espaço nos lares, e passam frequentemente a ser tratados e chamados de “filhos”, enquanto os filhos de verdade  são vistos hoje,  como um impedimento à “realização pessoal”, ou simplesmente um estorvo

Muitos desses donos de “cachorrinhos mimados”, apostam sua dedicação e seu amor mais aos bichos do que aos seres humanos. Isso fica evidente em frases do tipo: “ Gosto mais de bicho do que de gente “ ou essa, bem sintomática : “ Eles não falam. Mas seus olhos dizem coisas que muitas vezes gostaríamos de ouvir de alguém “

Em 2009, uma reportagem de capa da Revista Veja (3), apontava que 10% das famílias brasileiras ( com tendência de alta ),  considerava o animal doméstico como “membro da família”. Essa taxa chegava a 30% nos lares europeus. Tal sentimento, motivou vereadores da Cidade de São Paulo a propor um Projeto de Lei que autorizando o sepultamento de donos e seus animais em jazigos comuns nos cemitérios municipais. A proposta despertou a atenção do Cardeal Arcebispo São Paulo, D. Odilo Scherer, que interveio e argumentou com o prefeito da capital paulista, que a prática de sepultar jazigos comuns donos e animais, poderia provocar um processo de “depreciação da dignidade humana” pois se estaria assim reconhecendo nos animais uma “dignidade igual à dos humanos”. (4)

O cinema,  pródigo em exibir filmes que exaltam a relação de pessoas e animais, também já mostrou o outro lado, não num filme para grande público, mas num obscuro filme britânico,  chamado “A Marcha“ ( The March – David Wheatley, 1990(5),  que mostra milhares de refugiados do Sudão fugindo da seca e da fome, numa gigantesca marcha rumo à Espanha. Uma comissária é enviada pela Comunidade Européia na intenção de negociar e conter o avanço dos africanos, que têm a esperança de simplesmente chegar à Europa e encontrar uma chance de viver. No primeiro encontro, a negociadora inicia um diálogo com o líder da marcha, sobre a riqueza e pobreza dos países, mas a segurança de seus argumentos termina, quando ela ouve dele esse apelo dramático e irônico:

“…Dizem que na Europa vocês têm muitos gatos. Dizem que o custo para manter um gato é mais do que 200 dólares por ano. Deixem-nos ir para a Europa como seus animais de estimação. Nós podemos tomar leite, deitar perto do fogo (lareira), podemos lamber suas mãos, ronronar. Nós somos muito mais baratos para alimentar.(6)

Tratava-se de uma ficção, mas muito de acordo com a realidade. Aqui no Brasil, parece que dinheiro em se tratando de cachorro não é problema : um estudo centrado na cidade do Rio de Janeiro, mostra que famílias de classe média gastam com animais domésticos em torno de R$162,00.  Só como base de comparação ( sem entrar nos méritos da iniciativa ) , o programa do Governo Federal “Brasil sem miséria” definiu o valor de  R$ 70,00 (setenta reais)  como limite da linha de pobreza. (7)

A lista de mimos não pára por ai,  quando se tem notícia de hotéis de luxo para cães, ( com piscina ! ) festa de aniversário com os donos sendo fotografados segurando a pata do animal em frente a um bolo com cobertura colorida, exatamente como fariam a um filho. As cenas são constrangedoras: os cachorros comendo bolo de aniversário, mas comendo como podem : como cachorros.

Existe até uma justificativa “humanizada” quando se diz que toda criança deveria ter um animalzinho em casa, pois lhe despertaria o “senso de responsabilidade”. Pode haver alguma verdade nisso. Não podemos negar que um “pet” é boa companhia para uma criança ou um adulto ou idoso, desde que se saiba definir o lugar de cada um. E  mais : o mais importante para uma criança em termos de companhia – além dos pais, claro – não é presença no lar de animais de estimação e  sim de IRMÃOS ( sim, no plural …). E na maioria esmagadora dos lares, esses irmãos não existem por decisão dos pais…

E se formos falar em senso de responsabilidade, irmãos mais velhos cuidando de irmãos menores, é uma lição de responsabilidade que supera qualquer cachorrinho.

Não é fácil criar filhos ? Claro que não ! A primeira barreira é o egoísmo, depois o dinheiro. Isso quando o dinheiro é problema, pois justamente os casais que podem ter mais filhos, preferem não ter. É esse o individualismo, essa busca de afetividade sem riscos, a causa do apego excessivo aos animais. As pessoas querem amar, mas não querem ser cobradas: o animais não cobram nada, ainda que custem muito caro.

Em uma entrevista ao canal americano EWTN, o então Cardeal Jorge Bergoglio, futuro Papa Francisco, classificou essa atitude como “neo-paganismo” e “compra de afeto” :

“..Das coisas que não são necessárias, das coisas supérfluas, no primeiro topo você tem animais de estimação. Se gasta  com animais de estimação no primeiro nível de gastos desnecessários. Se idolatram os animais de estimação.  È a idolatria de comprar , alugar , ter um afeto, como eu quero, onde quero , sem a liberdade de resposta , certo? É tudo uma caricatura do amor…” (8)

 Essa “caricatura de amor”,  está em muitas pessoas, substituindo a maternidade e a paternidade. Muitos declaram abertamente isso…Casamentos desfeitos ou não realizados, passam a encontrar “compensação” nos “bichos”, em gastos extravagantes, em preocupações e cuidados sem medida, uma vez que se desacredita no ser humano.

Vou encerrar citando outro filme : “Margin Call – O Dia antes do Fim” (9) – inspirado na crise financeira de 2008.  O personagem de Kevin Space  é um executivo de um Banco de Investimentos à beira da falência, mas que passa o dia e a madrugada  vivendo um drama paralelo: a sua cadela está morrendo.  Sua vida pessoal também não vai nada bem : ele é divorciado.  A cadela morreu.  Na cena final,  ele vai chorando enterrar o animal no jardim da mansão onde mora sua esposa que observa a cena com ar indiferente:  conversa um pouco e avisa. “ Vou voltar para a cama. O alarme está ligado. Não tente entrar”.

Não era para ser assim. O “até que a morte os separe”  é para o casamento,  mas nesse caso foi para uma cadela.  Nada diferente da vida real de muitos,  infelizmente.

Precisamos investir em primeiro lugar,  nos relacionamentos humanos:  na amizade e sobretudo no amor humano e nos filhos.  Sim,  é um risco,  mas vale a pena. Jamais seremos felizes com compensações,  fugas e compras de afeto.  E quanto aos animais domésticos,  que seus donos os tratem bem,  mas que muitos  avaliem  se  o que  fazem pelos seus animais  é por eles que fazem ou para si próprios.  Penso que se os animais pudessem falar, diriam aos seus donos  “Por favor, façam menos por nós ! “

 

Com agradecimentos à Stella Daudt  e  Leo Jaime

 

FONTES:

1)      Marialice Prestes – “Problemas do Lar” – Livraria Martins Editora – São Paulo – 1957 – pg 54

2)      http://letras.mus.br/eduardo-dusek/117822/

3)      Revista Veja – Edição 2122 – 22-07-2009 – pg.84

4)      http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,igreja-quer-veto-a-enterro-de-cao-em-cemiterio-,1069372,0.htm

5)      http://www.imdb.com/title/tt0165382/combined

6)      http://www.youtube.com/watch?v=UUvx_rhIias

7)      http://www.ufjf.br/ladem/2011/09/06/%E2%80%98troque-seu-cachorro-por-uma-crianca-pobre%E2%80%99-artigo-de-jose-eustaquio-diniz-alves/

8)      http://www.aciprensa.com/noticias/entrevista-exclusiva-del-cardenal-bergoglio-hoy-papa-francisco-con-ewtn-89570/#.UnbZY3BJPpV

9)      http://omelete.uol.com.br/cinema/margin-call-o-dia-antes-do-fim-critica/


Responses

  1. Os animais, principalmente cães, tem a alma de uma criança, não é certo “trocar” um animal por uma criança pobre, pois o animal não é objeto, ele tem sentimentos e nos da muito amor, por isso devemos recompensa-los com mais amor. Os humanos tem prioridade, é claro, mas não quer dizer que devemos devemos conviver só com humanos, a interação animal-humano é perfeita, os animais são uma benção para nós. Se você acha que deve-se adotar uma criança pobre, adote. Se eu acho que devo adotar um animal, eu adoto. É simples, e a sua opinião é muito insensível.

    • Gabi, bom dia. É força de expressão, a sugestão de “trocar”, o animal por uma criança, e muito mais, digo é uma licença poética, afirmar que os animais tem “alma”. Mais fácil, é dizer que bebês e filhotes de animais, tem “alguma” – muito pouca – semelhança, que rapidamente desaparece. Logo a criança, mostra sua dignidade infinitamente superior, pois ela sim tem alma, o animal não. Mesmo assim, o texto chama a atenção para a dignidade superior do ser humano, sem com isso maltratar animais e isso, vi que você concorda. Indigno e ridículo, até e existir padarias e ovos de páscoa para cachorros. Isso é o cúmulo da fantasia e da compra de afeto, que jamais compensará a falta de afetos humanos. Podemos adotar animais e não adotar crianças: não somos obrigados a adotar crianças, mas jamais dar a um animal o tratamento dado a um ser humano: isso revela uma profunda desordem nos afetos humanos. Seja bem vinda e volte sempre. Eduardo.

  2. Eu sou casada, tenho um cachorro que eu recolhi da rua e sou orgulhosa de dir que este animal para mim é um filho. Adoro meu cachorro dou para ele tudo o que eu posso e não me sinto em culpa. Em primeiro lugar os animais não tem culpa se moita gente faz filho sem ter condiçoes financeiras, em segundo lugar eu também não tenho culpa eu sempre pensei bem se tinha as condiçoes necessarias para ser mãe e como eu não tenho porque não quero ser mãe eu não tive, até porque não me interessa fazer filhos somente porque alguém pensa que seja justo.

    Em terceiro lugar penso que cada um é livre de fazer o que quer com o proprio dinheiro e se eu quero gastar com o meu animal sinceramente não vejo o problema. Eu nunca usei o dinheiro dos outros para comprar nada para ele.

  3. Ótimo artigo, Eduardo! A necessidade de amar é forte no coração humano. Entregamos nosso afeto a gentes e bichos, contudo é essencial termos noção de prioridade. Como disse a Marialice Prestes “mas o homem é um homem e o gato é um bicho.” E, como disse você, o melhor presente para uma criança é um irmão.

  4. Parabéns Edu. Gostei muito do artigo e penso que você foi bastante audacioso. Vale apena. Vai em frente. Temos que acordar para “VIDA” sem desprezar os bichinhos. É bom tê-los, mas não colocarmos em primero plano.
    Abraço,

  5. Genial, Edu. Aqui na Aclimação o que tem de “pet” nas ruas é impressionante. Outro dia o meu pai e eu conversamos com um cuidador de cães que me revelou que só com banho os gastos chegam a R$200,00/mês!
    Agora, é gozado que as calçadas vivem empelotadas de “cocôs”. Andar por aqui é um horror. A gente vive de cabeça baixa.
    Isso me faz pensar no seguinte: animal não deve dar trabalho nenhum, nem mesmo fazer caca… Já bebê dá…

    • Os animais são “amados” assim, Minami, porque são uma espécie de “filhos sob controle”. O dono finge que é pai ou mãe e o cachorro, na medida do possível, “cumpre” o seu “papel” de filho. Mas o filho de verdade mesmo, é o maior “obstáculo” para os anseios de uma sociedade que só olha para o seu umbigo…


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