Publicado por: algosolido | 20 de dezembro de 2013

A PEQUENA LOJA

 

 

Embora este Blog seja de ensaios, resolvi publicar um conto. Minha primeira ficção:  um Conto de Natal.

Aproveito para desejar a todos os leitores, um Feliz e Santo Natal…

 

 

 

A PEQUENA LOJA

PRESENTE

 

-Vítor, que brinquedo é esse?

-Não é um brinquedo, é um presépio. A gente monta quando chega o Natal, para comemorar o nascimento de Jesus…

-Natal é nascimento de Jesus?

-É. Você não tem presépio na sua casa ?

-Não…

 

 

* 23 de Dezembro *

Os dias quentes do verão demoraram a chegar este ano, pois até a metade de dezembro as chuvas traziam ventos frios e ainda podia se ver pessoas carregando algum casaco . Mas agora, a dois dias do Natal, o calor chegou de vez e as pessoas se apressam para as últimas compras de fim de ano:  a ceia, os presentes, a roupa nova, a viagem…. Os pontos de ônibus estão lotados de pessoas com sacolas. Ladrões andam por toda a parte de olho nas sacolas, bolsas e mochilas de pedestres desatentos. As lojas estão lotadas e se é difícil ser atendido, é facil ouvir os que as pessoas dizem, como marido brigando com esposa, dizendo que o enfeite do Natal do ano passado, ainda acende as luzes e não precisa comprar outro….( na verdade, ele está irritado, pois quer voltar logo para casa, lavar o carro e abrir uma lata de cerveja…). Uma moça bonita de óculos escuros, carrega um livro esotérico de auto-ajuda e pode-se ouvi-la dizer a uma amiga “ Odeio essa época, odeio Natal ! “

Os taxistas também reclamam : apesar de receberem muitos chamados de quem vai ao aeroporto ou às compras e chegarem ao destino já sendo aguardados por um novo passageiro, enfrentam um trânsito muito mais lento e acabam deixando de atender muitas chamadas: não ganham todo o dinheiro que poderiam ganhar nessa época de pessoas com os bolsos recheados. Sem contar aquelas mulheres que entram nos seus carros com suas amigas ou seus filhos, lotadas de sacolas e todos tomando sorvete e sujando os bancos…

Também há pessoas alegres, pois nem todos ficam deprimidos, estressados ou imersos no consumismo. Amigos de trabalho organizam “amigos-secreto” nas empresas. No final de expediente, os bares preferidos dos jovens, ficam lotados para as happy-hours onde bebem e cantam alegremente entre pacotes de presentes. Ao final do encontro, alguns trocam abraços demorados, pois só se verão novamente no ano seguinte… As lojas e as casas são enfeitadas, montam-se as árvores, deixando ambiente mais bonito para receber os parentes. Pessoas fazem planos, promessas, planejam viagens….As avenidas e ruas mais importantes, são especialmente iluminadas, e se não fosse pela ausência da neve, poderia se confundir com um cenário de filme natalino americano. Os porteiros de prédios ganham panettones e os balcões das padarias, ganham um componente inevitável: uma caixa de sapatos embrulhada em papel de presente, com alguns enfeites, uma pequena abertura, e um recado bem legível “CAIXINHA DE NATAL, OBRIGADO!” Cada um à sua maneira, com muito ou com pouco dinheiro, sabe viver essa época com alegria, sem reclamar muito…

Finalmente temos aqueles que,  mais do que dizer “ O Natal está chegando “, dizem: “Estamos no Advento”. São amigos, famílias, casais de namorados, grupos de jovens estudantes, religiosos, crianças e idosos, que se reúnem para as novenas nas casas ou nas paróquias. Também trocam presentes e decoram a casa. Também saem com os amigos e passam aborrecimentos no trânsito, mas a cada Domingo, quando o padre acende mais uma das quatro velas da Coroa do Advento, vivem uma expectativa interior: Jesus está chegando…

* * *

Nas travessas da Rua Marechal Deodoro, o centro antigo da cidade, existe todo tipo de estabelecimentos: lanchonetes, farmácias,      consultórios dentários e escritórios. A Marechal e os seus arredores, perdeu muito do seu  prestígio a partir dos anos 90 com a “invasão” dos shoppings em outras áreas da cidade. Um lugar que era passagem obrigatória para se comprar presentes, tomar um sorvete na praça Lauro Gomes ou comer pipoca na Praça da Matriz,  viu seus frequentadores tradicionais, preferirem o novo comércio que surgia na cidade. Ainda assim, o centro resiste, com agências bancárias, artigos populares importados e redes de lojas que garantem um grande movimento de pessoas, sobretudo no Natal. Alheio a tudo isso, Paulo só pensa em descansar. Ele não  comemora o Natal,  mas espera ansioso o fim do ano, pois a cidade fica vazia, o trânsito fica melhor e fica mais fácil suportar o calor. Pode ler seus livros e ver bons filmes. Da janela do seu escritório, olha o movimento das pessoas apressadas e pensa : “Amanhã depois do churrasco com o pessoal do trabalho eu realmente vou descansar, mas esse povo não”…

 * *

– Paulão, se você acreditasse em Deus, que milagre iria pedir ?

– Eu pediria para nascer meus cabelos de novo….

– A gente poderia fazer um acordo: você pede um milagre para nascer cabelos e eu,  para sumir a barriga….

– O seu “milagre” é fechar a boca, mas o meu…

– Deve ser chato pra você essa época, não é Paulão? Todo mundo desejando Feliz Natal, mensagens religiosas…

– Não precisa ser tão politicamente correto, Joel. Faça como os outros: considere-me um infeliz – disse rindo Paulo – dando a entender que não se incomoda com as mensagens natalinas que “inundam” a sua caixa de e-mails…

– Sei lá. Só quero respeitar você…

-Você já me respeita, mas para um cara que diz acreditar em Deus, e eu sei o que isso significa para quem acredita, você encara o meu ateísmo, como algo assim: “acreditar ou não em Deus”, “gostar ou não de futebol” Isso não me parece racional.

– Mas o que o “racional” tem a ver com religião ? – pergunta Joel, pondo toda sua capacidade do cérebro para trabalhar….

– As pessoas dão importância para a religião, meu caro. Na “vida eterna”, como eles dizem, não teremos jogos de futebol, mas teremos Deus, portanto se eu gosto ou não de futebol, não fará diferença lá no Céu,  mas se eu não acredito em Deus, posso ir para o inferno….

– Que isso cara ! Você é gente boa. Deus tem um lugar pra você lá no Céu…

– Você estava falando, Joel, de ficar cansado ou aborrecido com tanta mensagem religiosa no fim do ano, mas na verdade, eu me canso é de ver tanto Papai Noel. Não noto tanta religiosidade nas pessoas, apenas quando tem alguém doente na família ou precisam arrumar um emprego. Ora, se Papai Noel é uma lenda e o Menino Jesus, uma realidade, porque eles mostram tantos velhinhos barbudos vestidos de vermelho e escondem aquele que chamam de “aniversariante“ ?

– Porque para eles, o Menino Jesus é uma lenda e o velhinho de vermelho é uma realidade…!

– E para mim, tudo é lenda, Joel….

* * *

No fim da tarde, aquele clima de que o ano acabou, tomou conta de todos naquele escritório. O dia estava muito claro por causa do horário de verão, e Paulo sai sem pressa do escritório. Enquanto se dirige ao estacionamento, vai olhando o movimento das pessoas, quando passa em frente a uma pequena loja, um bazar, misto de papelaria, armarinhos e loja de presentes, onde lê este aviso na entrada:

 

FALTAM DOIS DIAS

PARA JESUS NASCER !

 

 

 

Paulo passa a andar devagar como quem vai parar. Quer olhar, ler por alguns segundos mais, mas segue andando. O recado o impressiona, não tanto pelo conteúdo em si,  pois falava de algo que é para ele uma lenda,  mas por que se afirmava de modo seguro.  “Quem escreveu”, pensou “parecia de estar falando de uma criança que se pode pegar no colo, que tem nome, uma criança de verdade“.

Paulo tem uma bela esposa e um menino de 7 anos. Priscila é de família católica, mas não se incomoda com o jeito de ser do marido e até vê “vantagem” em não ter que acordar cedo no domingo para ir à Missa.  Basta repetir de tempos em tempos, a fórmula “Deus está em toda parte”, que consegue dormir tranquila. Casaram-se não muito jovens e não conseguiram ter um segundo filho. Eles não querem mimar o menino, mas sentem grande dificuldade: o garoto é a alegria da casa. Por serem muito organizados, a casa está sempre em ordem. Impecavelmente em ordem. Assim, conseguem tempo para ler ou assistir a um filme juntos, após o garoto pegar no sono.

No quarto do pequeno Zezinho,  Paulo começa a mexer nos cadernos e desenhos do filho, enquanto Priscila está fazendo em alguma coisa na cozinha: há desenhos de árvores de natal e papais-noéis.  Começa a pensar que levam uma vida muito simples, na verdade, sem complicações. Seu filho não vai ganhar presente de Natal, portanto ele não precisa se preocupar com isso. Mas volta e olha para os desenhos e pensa em comprar um presente para o garoto, que já tem idade suficiente para comparar a sua vida com a de outros amiguinhos da escola ou do bairro. Quer ver o seu filho ter a alegria de receber um presente na noite de Natal – apenas isso –  mas prefere não contar sua intenção para a esposa, afinal, será apenas um presente…

* * *

* 24 de Dezembro *

Pela manhã na ida ao trabalho, Paulo passa em frente à loja que viu no dia anterior. Haveria algum presente que poderia comprar para o filho naquele lugar tão pequeno ? Não pensava em outro lugar, mas unicamente ali. A loja lhe causou ótima impressão. Tinha um estilo antigo; algo que ele via na infância: um tipo de comércio que foi sufocado pelas lojas de departamentos e depois pelos shoppings. Neste dia, trabalhará apenas no período da manhã. Raras ligações de algum cliente, que na verdade, eram desejos de boas festas em sua maioria. No mais, havia a expectativa pela confraternização de fim de ano.

– Bete, que horas fecha o comércio de rua no dia de hoje ?

– Depende. Algumas lojas acompanham os shoppings e ficam abertas até às 6 da tarde, outras fecham logo depois do almoço…

– Não posso sair tarde daqui..

– Mas o que precisa comprar ?

– Um presente

– Mas aqui, no centro ?

– Sim, numa loja aqui perto…

– Sai um pouco, compra e depois volta

– Não quero fazer assim. Quero comprar e levar logo pra casa…

– Superstição ? Simpatia ?

– Nunca !

– Tá certo, você é o racionalismo em pessoa !

– É um presente para o meu filho. Cismei com uma loja. Acho que vou encontrar algo lá que ele vai gostar…

– Mas você não vive dizendo que não comemora o Natal ?

– Sim, mas é só um presente. Não quero ele que fique sem ganhar nada de mim, enquanto outras crianças ganham dos pais. É uma brincadeira, esse costume de dar presentes. Quero apenas brincar com ele.

–  Então na sua casa, não tem nada de enfeites, de árvore, de ceia à noite, nem presentes ?

– Olha, costumamos almoçar na casa dos pais da Priscila: lá tem tudo: árvore, presentes, ceia. O meu filho já ganhou presentes dos avós, mas nunca de mim. É quase impossivel não termos contato com esses costumes, mas no começo do casamento, ela fazia algo em casa …

– E deixou de fazer porque você não gostava ?

– Quase isso. Eu andei falando umas coisas…

– E ela ficou magoada…

– Na verdade, eu não reclamava dela enfeitar a casa ou preparar uma ceia de natal, mas eu lhe passava na  cara essas coisas : “Você não vai à Missa, não confessa, não comunga, mas comemora o Natal… “.  Ela se aborreceu com isso e parou de vez, mas nem falamos mais nisso…

– E seu filho ? Você ensina ele a “não acreditar em Deus” ?

– Eu respeito a Priscila. Ela acredita em Deus, embora não seja muito religiosa, como tantos. Eu às vezes, a vejo ensinando o Zezinho a rezar e não me intrometo. Não quero chamá-la de incoerente de novo. Quero ver os dois felizes comigo.

– E agora vai comprar um presente de natal para o seu filho…

– Pois é…

– O seu primeiro “gesto natalino” ! diz Bete com um sorriso entusiasmado …

– Sim, mas um gesto exterior…

Nesse instante, Paulo se movimenta como quem vai se despedir dos amigos ..

– Já vai Paulão ? pergunta Joel

– Tenho que comprar um presente..

– Fica mais um pouco, as lojas ficam abertas até começo da noite…

– Tem uma loja boa aqui. Não quero ir no shopping…

– Rapaz, tudo tem que ser diferente com você !

– É para o meu filho. Nunca comprei um presente de natal para ele. Se não achar nada nesta loja vou para algum shopping….

Já são quase duas da tarde, entendendo que ficou um tempo suficiente no churrasco, vai se despedindo de cada colega de trabalho, e ouve de Bete : “ Boa sorte com o presente, Paulo ! Me permita desejar um Feliz Natal para você, sua esposa e seu filhinho ! Que Deus abençoe sua família !“

Paulo agradece à Bete, e discretamente, sai pela rua apressado, temendo ver a loja fechada. Numa pequena rua que desce para a Marechal, lá estava ela. E aberta! Entra rapidamente, com receio que já estivesse fechando. É recebido com um largo sorriso por um velho simpático de cabelos muito brancos, que guardava com muito cuidado algumas mercadorias que estavam no balcão. Aparentava ter quase 80 anos e se tivesse barba, seria um autêntico Papai Noel. Talvez as vendas ali, não fossem muito boas, certamente o dono era aposentado, mas trabalhava com muito prazer no seu negócio. Não havia o menor sinal de desleixo: balcão e prateleiras de madeira, não se via muitos produtos de plástico colorido, aqueles baratos e inúteis, e que costumamos chamar de “bugingangas”, mas vendiam artigos de armarinhos, papelaria, itens para o lar, algumas roupas, e…. brinquedos ! Como cabia tanta coisa num lugar tão pequeno ?

– Pois não, boa tarde ?

– Boa tarde, eu gostaria de ver algum presente para o meu filho. Um menino de 7 anos…

– Sim ! Aqui temos jogos e brinquedos. Vou mostrar para o senhor…

– Se puder me ajudar…não sou bom com presentes…

Nesse momento, se  aproxima uma senhora muito simpática que estava mais ao fundo da loja…

– É minha esposa…

– Boa tarde, minha senhora..

Ela respondeu com um sorriso e ficou de cotovelos no balcão, olhando o marido mostrar alguns brinquedos…

– O senhor só tem esse menino ? pergunta ela

– Sim, eu e minha esposa nos casamos com uma “certa idade” e não sei se poderemos ter mais um. É a primeira vez que compro um presente de Natal para ele. Não comemoramos,  não somos religiosos, mas eu quero que o meu filho tenha a alegria de um presente..

O casal ouviu com muita atenção, e o comerciante pergunta.

– O senhor.. como se chama ?

– Paulo…

– Sr Paulo, meu nome é Orlando e minha esposa, Regina. Essa é uma ocasião especial Espere um momento.

Ele vai a uma prateleira no lado oposto do balcão enquanto a esposa o acompanha com o olhar, como quem sabe o que  o marido vai fazer. Ele volta, muito sorridente com uma caixa contendo um caminhão de brinquedo, alegre com quem carrega um pequeno tesouro…

– Veja o que o senhor acha : é algo diferente de tudo o que tenho aqui….O fabricante não faz mais um como este. É um modelo bem diferente dos que temos hoje. É o último. Deve estar aqui há mais de vinte anos , mas está perfeito e na embalagem de fábrica. Um brinquedo simples como os outros daqui, mas de um tempo em que as coisas eram bem feitas, e já é considerado um item de colecionador, pois alguns “meninos” da sua idade, pagam algumas centenas de reais por um exemplar desse ! Aqui vendo na mesma faixa de preço que os brinquedos comuns e ninguém se interessou em comprar…

– Na verdade, ele nunca quis vender esse….corrige D. Regina, sem querer tirar o entusiasmo do marido…

– Sim, minha querida, mas ficava na prateleira, quase que escondido….

– Sr Orlando, pode guardar os outros brinquedos ! Encontrei o presente que procurava mas não sabia !

-Que bom que gostou…

-Já tive  um desses quando era criança. É impossível que eu encontre algo melhor!Eu tenho a impressão de estar levando para o meu filho o melhor presente do mundo !

Seu Orlando e Dona Regina sorriem, até certo ponto surpresos com a alegria que o presente provocou no pai.

-Este presente, merece um embrulho caprichado ! Pode deixar, que vou escolher um papel de presente apropriado para o um menino…

Enquanto a D. Regina vai embrulhando com toda a cerimônia, Paulo resolve comentar suas impressões da loja…

– Esta loja parece uma viagem no tempo. Já passei tantas vezes e nunca prestei atenção, parece que não existe mais nenhum comércio como o seu…

– Sim, ela  tem mais de 50 anos e é difícil achar outra parecida. Os tempos são outros, mas procuro me manter o mais próximo possivel do que era quando começamos. Não gosto de vender essas coisas mal fabricadas que rapidamente vão para o lixo, como aqueles guarda-chuvas de R$8,00, aqui eu não vendo…podem ser baratos, mas para mim é uma fraude…

-Esse negócio sustentou a nós e nossos filhos por muitos anos – emenda D Regina – mas agora, nós é que o sustentamos…

-Se não fôssemos donos do imóvel, já teríamos fechado as portas, mas moramos no andar de cima, gostamos deste trabalho, e….

-O Orlando vive dizendo que espera apenas um bom motivo para fechar…

Paulo recebe o embrulho mais bem feito que já viu na sua vida e depois de pagar, percebe que o casal o observa, como se quisessem falar ou ouvir algo mais…

-Vai ser um pena ver esta loja fechada.Espero que meu filho goste do presente, tanto quanto o pai dele gostou…- disse apertando as mãos de cada um…

D. Regina, sente vontade de dizer algo, tem receio, mas vendo aquele pai levando consigo um presente com tanto entusiasmo, para que seu filho se alegre na noite de Natal, fixa os olhos nele e diz:

– Meu senhor, como é bom quando chega a época do Natal e vemos o carinho que os pais dedicam aos seus filhos, pois durante todo o ano, a correria da vida, muitas vezes impede que a família se una e se confraternize…

– Sim, minha senhora, é verdade….

Ela, mais segura e com os olhos brilhando, continua…

– Jesus Cristo se fez pequeno e menino, para que pudéssemos ao menos uma vez a cada ano, pararmos, aquietarmos e refletirmos sobre onde podemos melhorar.Vejo que o senhor é um bom pai que se preocupa com seu filho, mas, mais importante que este presente tão lindo que o senhor leva para ele, é o amor que não cabe em seu coração, pois este amor que o senhor tem ai, é justamente uma fagulha do amor de Deus por nós, se fazendo gente como nós e vivendo o que nós vivemos. Ele sabe que o senhor é um pai maravilhoso e que deseja ao seu filho somente o bem.

– Eu vi o recado que vocês deixaram na entrada da loja, sobre faltar dois dias….devo confessar que me chamou a atenção…

– Bem, agora só falta um – responde Sr Orlando, percebendo Paulo muito pensativo…

-Vou indo agora…Boas Festas…Feliz Natal para vocês !

– Minha família também deseja ao senhor e toda a sua família um Feliz Natal, cheio de bênçãos.

-Obrigado Dona  Regina, Sr Orlando…

* * *

Paulo dirige seu carro pensativo. As palavras de Dona Regina, não foram apenas bonitas, inspiradas

Elas lhe pareceram…racionais. Precisamente uma passagem não lhe saía da cabeça : ”…pois este amor que o senhor tem ai, é justamente uma fagulha do amor de Deus por nós, se fazendo gente como nós e vivendo o que nós vivemos…”

Como queria, Paulo foi direto para casa, bem no meio da tarde. Depois de por o carro na garagem, pega o embrulho e vai entrando meio que escondendo e evitando fazer barulho.Assim  que Priscila aparece na porta, pergunta para a esposa com voz baixa:

-O Zezinho está na sala ?

-Tá no quarto, porque ?

-Comprei um presente de Natal para ele

-Presente? Sozinho? Porque não me chamou ?

-Não pensei nisso…..decidi ontem

-Devia ter me chamado! Você decide assim e faz, sem falar nada….

-É uma coisa simples. Só pra ele não ficar sem presente no Natal

-Mas eu tinha que estar junto. Eu queria escolher com você !

-Tá bom desculpa …

-Fácil falar…E Priscila vai para a cozinha, pisando firme…

Paulo rapidamente, vai para o quarto guardar o pacote com aquele sentimento de que fez algo errado. Até então tudo lhe pareceu perfeito: a descoberta da loja, a escolha do presente, uma conversa tão agradável com aquele casal, mas foi justamente ao chegar em casa, que passou a se sentir mal. E reconheceu que era culpa dele. A sua casa, era um lugar que uma briga não deveria durar mais que cinco minutos, portanto, precisava “consertar” logo o que fez…

-Filho, procura aquele DVD daquele desenho, “Carros” para você assistir com o pai…. – e vai direto falar com a Priscila..

-Priscila, desculpa…

-Você é ótimo em pedir desculpas. Acha que assim resolve e quer que fique tudo bem…

-Então me diz o que eu tenho que fazer  pra você me desculpar…

-Eu quero que você diga que é egoísta, cabeça dura, que se acha melhor que os outros, mas não é…

-Eu digo, eu digo..Eu sou egoísta, sou cabeça dura, me acho melhor que os outros, mas não sou….e digo mais: penso que não preciso dos outros, mas preciso, principalmente preciso de você, e prefiro que você faça algo errado comigo, do que eu fazer algo errado com você, porque não suporto te magoar,  nem magoar nosso filho…

Rapidamente Priscila abraça Paulo;

-Chega… tá bom, querido. Não sei se seria capaz de pedir desculpas de um modo tão sincero…

-…mas da próxima vez , não pede “desculpas”, pede “perdão”

-Perdão, Priscila…

-Da próxima  vez, Paulo….

Zezinho entra na cozinha e vendo os dois abraçados, os abraça também …

-Achou o desenho, filho ?

-Achei  pai! …vamos ver…

-Espera o papai tomar banho….

-Querido, vai ver o desenho – agora –  com o Zezinho, que eu vou ao mercado antes que feche….

-Pra quê?

Priscila fala bem baixo ao ouvido de Paulo:

-Eu decidi “sozinha” preparar uma Ceia de Natal. Se você pode comprar um presente, eu posso comemorar o Natal… – responde Priscila com visível bom humor….

Paulo solta uma risada de alívio. Sente-se completamente perdoado, e não somente deste episódio…

-Vou comprar um peru e mais alguma coisa para uma ceia rápida…

-Não precisa caprichar muito, Priscila…

-Você não imaginava que um simples presente pudesse tomar uma dimensão muito maior do que planejou…

Paulo pensativo, finalmente vai ver o filme com o filho, volta e meia, procurando alguma coisa na geladeira,  porque sabia que o jantar iria demorar…

* * *

Priscila – em poucas horas – até que montou uma bela Ceia de Natal. Preferiu simplificar ao invés de lotar a mesa. Paulo gostou do que viu. Não podia acreditar que estava vendo uma mesa ainda mais enfeitada do que nos primeiros anos de casamento, quando ela ainda fazia alguma comemoração de natal….E ela não queria a ajuda dele …

– Volta lá pra ver o filme com seu filho ! Aqui na cozinha você não apita nada ! Disse ela mais feliz do que uma adolescente que vai a um show de rock.

Estavam agora na mesa, e Priscila nem se importava com a falta de naturalidade do marido, que não sabia como se encaixar naquela situação. Era uma ceia de natal e ponto final, e dessa vez ele tinha que encarar de modo diferente…

-Filhinho, o papai tem uma surpresa pra você….- disse Priscila, assim que o Zezinho terminou de comer um delicioso pudim de leite condensado – a “melhor sobremesa do mundo” – como sempre repetia Paulo, fã número 1 da culinária da esposa…

– Procura lá em baixo da cama, filho….- e acompanham o menino até a porta do quarto.

-Óia mãe ! Óia mãe ! O carrinho que o papai me deu !!! -Que legal ! É Natal ! É Natal !

-Gostou filho ?Dá um abraço no papai..

-É Natal ! É Natal ! – repete Zezinho, sem conter a alegria…

Os dois se ajoelham para ganhar um abraço apertado do filho.

-Deixa eu ver esse caminhãozinho, filho. Que lindo ! A caixa tá um pouco velhinha.. Paulo, você deveria ter pedido um, com caixa mais nova.. – comenta Priscila num tom que Zezinho não perceba…

-Não tinha. Era o último. É um modelo “fora de linha”. Comprei numa loja antiga do centro…

-Não acredito que você comprou o presente do teu filho num antiquário….

-Não é antiquário. É  uma loja normal, só que antiga…

-Tá bom, não vou brigar com você, desta vez – disse ela sorrindo

– Mãe! A gente não tem um presépio…

– Presépio ?

– É. Tem que ter presépio no Natal. Na casa do Vítor tem um….

Priscila para de sorrir e olha para Paulo.

– Filho, a gente vê depois. Agora as lojas estão fechadas –  responde o pai.

– A gente compra amanhã ?

– Amanhã é feriado, filho…no noutro dia…

– Mas depois não é mais Natal..

Paulo fica sem uma resposta melhor para Zezinho, e Priscila fica constrangida. Nenhum dos dois estava preparado para essa situação, uma vez que a religião naquela casa, era um assunto praticamente ignorado, e sempre causava receio tocar no assunto. Até para Priscila, que acreditava em Deus, a religião era apenas um “lado”, que poderia se esquecido…

-Amanhã filho, eu e a mamãe vamos procurar uma loja aberta. Se acharmos compraremos o presépio. Vai brincar com seu caminhãozinho…

-A que horas a gente acorda amanhã pra comprar o presépio ?

Essa pergunta deixou claro, que o presépio era mesmo importante para Zezinho…

-Filho, espera um pouco…

-Priscila..

-Oi…

-Vamos ver isso agora…

-Mas, como? São mais de 10 horas da noite…não tem nada aberto!

-Vamos na loja

-Vai estar aberta a essa hora ?

-Não, mas eles moram no andar de cima…

-Vai incomodar – devem estar dormindo…

-Eles são católicos, devem estar na Missa ou voltando dela…

-Mesmo assim, incomoda…

-Fica tranquila, eu sei que eles vão gostar de nos ver…

Muito seguro do que dizia, Paulo convenceu a esposa e deixou o Zezinho eufórico. Em minutos estavam tirando o carro da garagem.

-Vamos lá filho, embarcar na aventura natalina do seu pai. Quem diria….

Noite de Natal. Em alguns bairros, famílias promovem um barulho carnavalesco, noutros, o que se vê são ruas vazias e silenciosas. O trajeto é tranquilo e breve, até que se para no farol vermelho…

– Espero que achemos esse presépio, senão o Zezinho vai dormir inconformado. Ele se empolgou tanto…

-Eu vi lá alguma decoração de Natal. Deve haver algum presépio….

O farol fica verde.

– Não pega –  diz Paulo

– Meu Deus, Paulo ! Meu Deus !

– Quase ! – Responde Paulo respirando forte…

– Que susto…

– O carro ia pegar a gente, mãe…

– Graças a Deus não pegou filho….você viu Paulo ?

– Era um rapaz sem camisa, parecia um doido, o farol do carro apagado…

– Maluco ! Quase mata a gente…

– Ele fez uma curva na nossa direção, parecia fora do controle..

– É, eu vi. Ele estava em zigue-zague e voando !!!

O farol fica vermelho de novo….

-Paulo, vamos sair daqui logo….

-Espera o sinal abrir. Você está bem…?

-Assustada…

-Se o carro não tivesse apagado no farol, a gente não teria escapado.

-Verde, Paulo ! Vamos sair….vamos pra casa…

-A gente não vai mais comprar o presépio ? Disse o Zezinho já refeito do susto…

-Vamos sim, filho. Fica calma, amor. Não vai mais ter isso de novo…

-Parece que não tem nada no carro. Você fez algo de errado na hora que o sinal abriu ?

-Não, não fiz…

-Tá longe ?

-Mais uns 10 minutos.

Assim que chegam, percebem a luz acesa no andar de cima. Ao apertarem a campainha, aparece na pequena sacada a Dona Regina que reconhece Paulo de imediato :

-Entrem ! Entrem !

-Nossa! Que receptiva…

-Os dois são assim. Você vai ver…

Seu Orlando desce a escada que dá para a rua,  abre a porta e os recebe, com o mesmo sorriso daquela tarde…

– Minha esposa Priscila e meu filho, Zezinho…

– Que família linda ! Muito prazer.  Vamos subindo…

– Seu Orlando, o Zezinho gostou muito do presente

– Oh que bom…

O menino se aproxima do pai…

– Tem presépio, aqui ?

– Peraí, filho…

– Que esposa linda você tem ! E que menino lindo !

-Essa é a Dona Regina, Priscila…

-Prazer, Dona Regina…

-O Zezinho me pediu um presépio, agora quer um Natal completo ! Penso que o senhor tenha na sua loja…

-Sim, temos…

-Desculpe chegar a essa hora, mas amanhã…

-Amanhã iremos almoçar na casa do meu filho mais velho. Vocês vieram no dia certo…

Seu Orlando vai buscar a chave, enquanto Dona Regina dá um abraço no menino…

– Essa porta, dá para a loja, vamos ver…

– Zezinho vem cá, vem escolher um presépio…

Zezinho atento, escolhe um presépio com as peças soltas, não aqueles compactos, num bloco só…

– Logo o mais bonito ! Que bom gosto, menino !

– Lindo mesmo. Sempre gostei de presépios… – disse Priscila…

– Vamos filho, Seu Orlando e Dona Regina, precisam descansar

– Fiquem tranquilos, chegamos da Missa à pouco….e gostamos de ver a Missa do Galo na TV, direto do Vaticano, tem ano que vemos até o fim, tem ano que caímos no sono…

Paulo fez menção de pagar, mas Seu Orlando recusa:

– Por favor, levem como um presente para a família

– Isso mesmo – reforça D Regina – é um presente !

Paulo e Priscila agradecem e Zezinho, dá um abraço no casal generoso…

– Vocês não tem ideia do que isso significa para mim e até mesmo mesmo para vocês…

– Eu e o Orlando estávamos rezando um terço, assim que chegamos da Missa de Natal,  uns 15 minutos antes de vocês chegarem e os colocamos  nas nossas intenções. Sempre rezamos um terço antes de dormir…

– Dona Regina – diz Priscila respirando fundo – há 15 minutos atrás, tivemos um susto grande. Um carro quase nos pegou num cruzamento. Era o tempo exato para pegar o Paulo na lateral e acabar com a nossa vida…

– Só escapamos porque o carro não pegou. Estavámos parados no farol, quando abriu, pisei no acelerador e nada…

E depois o carro pegou? Perguntou seu Orlando, olhando espantado para sua esposa

– Sim, tudo perfeito. Fivamos parados tentando fazer o carro pegar, até que funcionou e esperamos abrir o sinal de novo e viemos pra cá. Nada de errado com o carro…

– Fiquem tranquilos. Não vai acontecer nada na volta. Vamos rezar por vocês, para que tenham um retorno tranquilo, uma boa noite e um Feliz Natal – assegura Dona Regina

Seu Orlando se inclina para falar com Zezinho

– Filho, você sabe o que é um Presépio ?

– É  o nascimento de Jesus no Natal

– Sim, o Presépio mostra como Jesus nasceu, num lugar pobre, entre os animais, envolto em panos e na companhia de Maria e José, seus pais.

–  Este menino é Deus,  mas antes se fez criança como nós, porque nos ama e quer ficar junto de nós para nos salvar – completa Dona Regina

–  Quando você chegar em casa, – prossegue seu Orlando – pede para os teus pais te ajudarem. Arruma o melhor lugar da sala da sua casa e monta o presépio com seu pai e sua mãe, e não coloca agora, o menino Jesus , porque ele ainda vai nascer. As pessoas montam o presépio bem antes e colocam o menino Jesus na Noite de Natal, mas você pode colocar amanhã cedo, para poder ficar nessa espera. Isso vai te ajudar a entender melhor…

– Boa explicação seu Orlando – eu até já havia esquecido essas coisas. – Disse Priscila, lembrando dos tempos que frequentava a Igreja….

E olhando para Priscila e Paulo, Seu Orlando conclui:

– Há tempos nos demos conta que estamos velhos e precisamos diminuir o ritmo. Além do mais, esse tipo de loja não tem muito espaço nos dias de hoje. Mesmo assim, eu vinha resistindo. Hoje à tarde, a minha Regina, falou que eu só estou esperando um bom motivo para fechar esta loja, e vejo que já encontrei. Depois do Reveillon, vamos encerrar as atividades, com um sentimento de Missão cumprida, pois realizamos um negócio que causou grande satisfação, à mim e à minha esposa. O dia de hoje é muito especial para mim e minha querida esposa, e espero  que seja especial para vocês também…

– Pois saiba que está sendo, seu Orlando – muito especial – disse Paulo, deixando de lado o modo contido…

Após os abraços, eles voltam para casa e logo ajeitam um espaço na sala para instalar o Presépio. Como recomendado, o Menino não foi posto na mangedoura, mas Zezinho levou-o para o seu quarto, pois a primeira coisa que faria ao acordar, seria colocar o Menino Jesus ao lado de Maria e José.

Um conhecido morador de rua, chamado Eliseu,  muito sujo, viciado em drogas, perambulava, vasculhando os lixos e falando sozinho;  mexia no seu casaco rasgado ( outrora, um blazer muito elegante, possivelmente descartado num albergue ) e resmungava por não achar nos bolsos o que estava procurando. Apesar das barbas compridas, era o extremo oposto do Papai Noel. Umas três casas abaixo, Karina, uma moça loira muito jovem, reunia os amigos numa festa barulhenta que prometia que não acabaria tão cedo. Ela tinha um emprego excelente, e vivia em festas rodeada de amigos, mas estava triste naquela noite, porque o homem a quem chamava de namorado, estava naquele momento, num restaurante, com a esposa e os filhos. Músicas barulhentas, feitas para preencher o vazio e fugir do silêncio, risadas altas e doses seguidas de vodka, eram a sua receita para passar a noite de Natal.  Com esse ambiente e numa noite de muito calor, Paulo, Priscila e Zezinho, foram dormir.

* 25 de Dezembro *

No meio da madrugada, Paulo acorda e já não ouve o som da música ou vozes lá fora. O silêncio era total e o sentimento de paz era muito grande. “Dormirei até mais tarde amanhã”, pensou. Mas ele percebe uma forte claridade vinda da sala. Suas mexidas na cama, despertam Priscila:

– Você deixou a TV ligada, amor ?

– Não. –  Responde Priscila, se virando na direção da porta…

– Tem uma claridade na sala… Vou lá ver…

Ao chegar, vê seu filho estático diante do presépio observando um raio de luz que vinha da janela da sala e iluminando direto o lugar da manjedoura onde se aguardava o Menino Jesus. Priscila chega em seguida para ver o que está acontecendo…

– Meus Deus !

Eles abraçam o filho e não conseguem deixar de olhar para a cena do presépio iluminado…

– Tá tudo bem filho ?

– Tá,  mãe.

– Quando começou essa luz? Porque você saiu da cama ?

Era um raio de luz forte e branco. A partir da manjedoura, a sala ficava iluminada. Paulo sem dizer nada, volta para o quarto. Priscila, percebe que ele vai trocar de roupa, pois está de pijama e ela faz o mesmo.

– Vamos lá fora, amor. – Zezinho os acompanha

Paulo vê que a luz vem direto do céu e estende a mão para interceptar. Não sente calor, nem dor e olha a palma da sua mão atravessada pela luminosidade e consegue ver os seus ossos.  Priscila também repete o gesto, e nesse momento,  o marido segura a sua mão. Vendo Zezinho querendo fazer o mesmo, Paulo pega o menino no colo os três ficam com as mão unidas…

– A Luz de Jesus ! – Diz o menino

Paulo e Priscila, emocionados, não conseguem dizer palavra nenhuma. Percebem depois, que não são os únicos a ver a cena. Eliseu e Karina estão de longe observando, mas não tem coragem de se aproximar. Cada um na sua situação, se vê como miserável e julga que não merece chegar perto. Mas ao perceberem que são notados se encorajam e se aproximam.

– Eu vi desde o começo. Foi logo depois que meus amigos foram embora e o barulho acabou. Há mais de uma hora estou na rua e não consigo tirar os olhos –  diz Karina…

– É muito lindo – completa Eliseu.

Paulo e Priscila apenas sorriem para os dois. Decidem entrar em casa e olham para Karina, num gesto de convite para que entre também. Ao ver Eliseu constrangido, Paulo vacila por um segundo, mas depois,  convida com voz firme:

– Entre, fique com a gente. Como o senhor se chama ?

– Eliseu…

– Fique à vontade, seu Eliseu

Os visitantes, ficam espantados ao verem que a luz estava direcionada para um presépio. A moça decide sentar-se no tapete, bem perto da cena do nascimento de Jesus. Olha para Maria e José, parecendo dizer-lhes palavras. Seu Eliseu contenta-se em olhar de longe, mas fica num sofá de único lugar,  já não mais se importando com sua condição.

– Filho, vamos colocar o Menino Jesus ? – sugere Priscila…

– Sim ! Ele já nasceu ! A luz,  é porque Ele já nasceu !

E colocam o Menino Jesus na manjedoura. Agora,  toda a luz vai para o menino e a partir dele, se ilumina toda a sala.  Priscila se aproxima de seu Eliseu e pergunta:

– O Senhor quer alguma coisa… água, café… está com fome ?

– Minha Senhora, eu estava procurando tanta coisa, mas agora não preciso de nada. Obrigado por deixar entrar na sua casa. Só quero olhar…

Karina se vira, olha para os dois e sorri acenando com a cabeça para dizer que também se sente assim…

– Você também Karina, se precisar de alguma coisa…

Ela aperta a mão de Priscila e a abraça…

Já não se fala mais nada. Todos só querem olhar o Menino Jesus. Paulo vê um filme passar na sua cabeça : e se lembra do momento em que leu o cartaz anunciando que faltavam 2 dias para Jesus nascer. Tudo começou naquele momento. E depois, as palavras da Dona Regina, e por fim, seu filho pedindo um presépio….Sentado no sofá maior, está abraçado com Zezinho e Priscila. Ele alisa o braço da esposa e beija a testa do seu filho. Está consciente de que sua vida jamais será a mesma. Já está na terceira hora, desde que a Luz foi vista na rua por Karina e Eliseu. Seu filho, o menos impressionado de todos, é o primeiro a pegar no sono. Karina se debruça no sofá, tenta não dormir, mas é vencida pelo cansaço: “se for para dormir” , pensa, “dormirei ao lado da Sagrada Família”. Seu Eliseu, contempla a cena e se imagina como um dos pastores: aquele mais escondido, aquele mais pobre, e quer ficar velando o Menino Jesus a noite inteira, mas seus olhos ficam pesados de sono também. Priscila encosta a cabeça no ombro do marido. Paulo olha todos à sua volta, impressionado com a Luz que a todos atrai e a ele também. Por fim, também adormece…

* * *

– Meu amor, acorda. Vem ver isso….

Já é de manhã e a única luz da casa, é a natural do dia. Priscila agita o braço de Paulo, pois quer que ele veja logo. Eliseu está de pé, e emocionado contempla a si mesmo: suas mãos estão limpas, o cabelo penteado, as roupas e os sapatos estão como novos. E ele está usando exatamente as mesmas roupas que antes eram sujas e rasgadas…

– Deus quis mostrar por fora, a restauração que me fez por dentro – disse ele entre lágrimas para Paulo, que lhe dá um abraço.

Karina acorda e se levanta para ver o que aconteceu. Espantada leva as mãos ao rosto. Durante a vigília diante do presépio, ela foi revendo a sua vida, suas amizades, seus vícios, e prometia ao Menino Jesus, que mudaria de vida:

-Também estou restaurada, seu Eliseu. Nunca me esquecerei desta noite. Acho que Deus reservou para cada um de nós,  um milagre. Muita coisa na minha vida também vai mudar. Eu estava destruindo uma família e nunca mais farei isso.. Espero que ele também se arrependa. Quero ir para casa agora, dar um abraço nos meus pais. Quero ir à Igreja me confessar, estou tanto tempo afastada, quero pedir perdão…

-Vou preparar um café para nós. Fiquem mais um pouco. – disse Priscila

Karina observa Zezinho dormindo o melhor sono de sua vida.

-Ele dorme como se nada tivesse acontecido – disse sorrindo…

-Talvez  ele seja  o único que entendeu tudo….- completa a mãe…

Eliseu e Karina, não conseguem ficar muito tempo. Sabem que quando passarem pela porta, a vida de cada um mudará e querem que isso aconteça logo. Na despedida, olham novamente para o Presépio, como que se despedindo. Já na porta,  Eliseu diz para Paulo e Priscila :

– Vou voltar para a minha família. Não quero mais fugir das pessoas que me amam, por vergonha do desemprego, do fracasso e dos vícios. Me sinto forte e com coragem. Vou pedir perdão para minha esposa e meus filhos e sei que serei perdoado, pois Nossa Senhora me encorajou. Ela não queria que eu me apresentasse em trapos sujos e lavou as minhas roupas. E Deus lavou a minha alma…

– O Senhor,  está parecendo um “Lord”, seu Eliseu. Deus faz tudo perfeito !

Eliseu e Karina beijam Zezinho que ainda dorme, e se despedem de Paulo e Priscila com um longo abraço, como velhos amigos. Uma despedida recheada de frases como : ´”até logo”, “voltem sempre”, e principalmente, “Feliz Natal”.Voltam para casa, como que, trazendo uma grande novidade sobre suas vidas…

* * *

– Acorda filho.  Feliz Natal …

– Zezinho se espreguiça e ganha um abraço da mãe…

– Aquela luz vai voltar de novo  no outro Natal ?

-Não filho, acho que não. Foi somente essa vez. Foi um milagre, só posso dizer isso. Foi um milagre…

-Mas o pai, vai ver a luz de novo …

-Eu ? Quando ? – pergunta Paulo, que já aguardava as surpresas de Deus, para sua família…

– Quando eu te der a unção dos enfermos, vai ver essa luz de novo, no Natal. A mamãe vai estar com a gente e minha irmã também, com o marido e os filhos dela…

Paulo abraça o filho…

– Filho, agora vai escovar os dentes. O papai precisa falar com a mamãe…

O menino obedece,  e eles, finalmente podem conversar:

– “Unção”, é algo que um padre faz ?

– Sim, meu amor. É um sacramento…

– Teremos um filho padre…

– E teremos uma filha e netos…

– Quantos filhos ela terá ?

– Calma, ela precisa nascer ainda ! E é bom que não saibamos, mas gostaria que fossem muitos…

Paulo pergunta de novo para Zezinho:

– Filho, o que é “unção dos enfermos”?

– Não sei, pai…

Do modo como entendia como deveria ser a fé, Paulo entendeu e aceitou a resposta do filho…

-Tem panettone filho, você gosta ?

– Oba !

– Vai lá, filho…

Zezinho vai para a cozinha e Paulo vai para o quarto segurando o choro. Priscila o segue também tentando se conter…

– O que vai ser do nosso menino ? – pergunta ela…

– Vamos cuidar bem dele. Deus fará o principal…

– Nunca te ouvi falar assim –  Eu te amo e nunca te amei tanto, sabia ?

– Eu também te amo, minha querida. Feliz Natal…

De longe, ouvem tocar os sinos da Matriz de São Bernardo…

– Vamos ?

– Sim, vamos. Você precisa conhecer, o Zezinho também. E eu, preciso voltar. Nossa filha, nascerá numa nova família, transformada…

O Presépio da Igreja é bem maior. A Árvore de Natal é natural e está cheia de luzes. Algumas pessoas com cara de sono, chegam para a Missa das 10. Zezinho se ajoelha diante do Altar. Paulo e Priscila unem suas mãos e rezam juntos pela primeira vez.

 

 

 

* * * * * * *

 

 

Há uns 4 ou 5 anos atrás, passei diante uma loja na rua Santa Filomena em São Bernardo do Campo. Casa Vantim: especializada em artigos para desenho, arquitetura e artesanato. Na entrada da loja, o proprietário, Sr. Isildo, colocou este recado “ Faltam 2 dias para Jesus nascer “.  Era 23 de Dezembro daquele ano. Este conto é inspirado neste episódio. Obrigado Sr Isildo: que sua iniciativa, continue a tocar nos corações. É justamente aí, no coração que segundo Bento XVI, o homem precisa ser salvo.

 Agradeço à minha namorada, minha querida Josi, por ter emprestado suas palavras à personagem de Dona Regina. Quando o pai vai levar o presente, ele ouve palavras inspiradas e cheias de sabedoria que falam da “fagulha do Amor de Deus”. Nós bem sabemos como é essa fagulha. Feliz Natal, minha linda…

 

Feliz Natal a Todos…


Responses

  1. Eduardo,

    Primeiramente quero deixar claro que os comentários a seguir não são de um crítico literário; longe disso, são de um leitor comum que ora aprecia linguagens mais rebuscadas que demandam tempo adicional para a compreensão, ora textos mais simples que facilitam o descanso, mas que também contêm uma boa proposta para reflexão.

    “A pequena loja” pertence a este segundo tipo e agradou-me muitíssimo a simplicidade e, ao mesmo tempo, a riqueza das personagens e dos diálogos que, ao longo da estória, vão cativando o leitor e o conduz, junto com Paulo, a refletir sobre o sentido do Natal.

    Outra mensagem positiva foi resgatar e valorizar a cultura das coisas bem feitas, exemplificada pelo caminhão de brinquedo, bem diferente da nossa pobre cultura atual centrada muitas vezes apenas no retorno financeiro e que acabam promovendo produtos sem qualidade e descartáveis.

    Para concluir: moro em São Bernardo do Campo, eventualmente passo em frente à Casa Vantim e certamente, daqui por diante, quando por lá passar novamente, vou me lembrar do seu belo conto de Natal.

    Parabéns!
    Mauricio

    • E um excelente comentário, de um “leitor comum” ! A intenção foi essa, Maurício : conduzir o leitor a um caminho. Neste caminho, existe a estrela de Belém, e uma Luz que atrai toda a Humanidade…Quanto ao carrinho, é sim, um “tributo” às coisas bem feitas, Nesse mundo descartável, de objetos descartáveis e pessoas descartáveis, é preciso resgatar valores, para que as famílias não se quebrem ou se estraguem, como guarda-chuvas que se destroem na primeira tempestade. Muito obrigado, Maurício !

  2. Que lindo. Como católica, que ama leitura, foi muito bom ler o seu post.
    Beijinhos e feliz 2014.

    • Obrigado Mary ! Fico feliz que tenha gostado. Há muitos acessos de Portugal neste Blog
      e é uma alegria quando comentam. Tenha um excelente 2014 e abraços do outro lado do mar !

      Eduardo.

  3. Bom dia Eduardo!
    Gosto muito da forma como escreve – leve, solto, com emoção.
    Abraços e excelente 2014!
    Augusto

    • Obrigado Augusto !
      Também um excelente 2014 para você e
      todos os seus !

      Abraços.

      Eduardo.

  4. Parabéns meu lindo pela linda história, vi sua vida escrita neste texto e também muitos dos seus sonhos, que Deus nós abençoe, quero realizá-los com vc.

    • Sim, minha linda. Esse sonho é a fagulha do Amor de Deus! Muito do que escrevemos, está no nosso coração!


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